quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Bom-Dia Brasil = 05 de janeiro de 2011
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Mudar o Passado
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O Som do Latim

quinta-feira, 10 de junho de 2010
Tensão, Relaxamento, Jazz!
Ontem, fazendo a roleta na TV, vi o trecho de um filmezinho em que o personagem dizia: “... cara... banda de jazz é a última pousada dos sem-talento... quando um cara não dá pra nada, vai tocar jazz... além do mais, esses músicos de jazz se divertem mais do que divertem a platéia...”
Achei engraçado. É verdade que músicos de jazz se divertem muito. Cada apresentação é uma novidade, com novos desafios e uma nova corda-bamba. Mas, é claro que discordo da acusação de falta de talento. O jazz exige muito dos seus intérpretes, tanto de conhecimento musical como de domínio do instrumento. Se o cara for ruim, ou até mais ou menos, está excluído. Porque todos os demais integrantes da banda estudaram e estudam harmonia e teoria musical; além passar pelo flagelo diário dos exercícios de escala, divisão e o que mais for para quebrar dedos, ferir lábios e daí por diante. E isto geralmente ganhando muito pouco...
Também achei engraçada a observação porque lidei e aprendi com músicos de jazz. Lembro-me de quando conheci o sax-alto Gary Bartz no “Twins” – um bar de comunidade com música ao vivo. Mr. Bartz já era um músico consagrado, havia gravado com os mais notáveis, além de ter uma quantidade de álbuns solo nas costas. No entanto, estava ali, divertindo a moçada naquele pé meio sujo, onde volta e meia aparecia alguém pedindo “chicken wings” pra viagem... Ao final de um “set”, quando fomos apresentados por um produtor amigo, cumprimentei-o pelo tremendo suíngue; ao que ele, muito simpático e risonho, me respondeu algo como seria, em Português, “... se não fizer mexer os quadris, não é jazz...”.
Entendo que houve um tempo em que o jazz virou algo quase sagrado, com os brancos todos na platéia usando um “tuxedo” para ouvir os negros tocando com a atitude comedida dos músicos clássicos. Foi o caso, por exemplo, do “Modern Jazz Quartet”, cuja frieza educada serviu de parâmetro para muitos grupos da época. Mas nunca deixaram de existir os músicos, os cantores, os sapateadores, que exibiam a sua arte para jazzística divertir o público, ao mesmo tempo que sabiam que o que faziam era dificílimo de imitar, entre eles Charlie Parker e Dizzie Gillespie.
Na verdade, o jazz é muito rico. A partir mesmo do fato que exige improviso (a tal corda bamba). É preciso ser ignorante para imaginar sem talento um músico que consegue inventar, na hora, uma linha melódica superposta a uma outra, conhecida, usando a mesma harmonia (há mestres nisso, aliás, incomparáveis como o saxofonista Stan Getz ou o pianista Brad Meldhau). Aliás, a invenção sempre fez parte do jazz: os músicos se desafiam continuamente a “push the envelope” limite (veja-se, por exemplo, o “novo free” praticado pelo trio do pianista Hal Galper, ou as composições e os arranjos orquestrais de Maria Schneider).
Sobre esse caminhar na corda bamba da harmonia, há o texto do pianista John Mehegan, para quem “acordes de menos de uma sétima são insuficientes [isto mesmo, insuficientes] para jazz” [in “Jazz Improvisation 1 – Tonal and Rhythmic Principles]. Isto quer dizer que os acordes usados em jazz sempre se abrem para harmonias vizinhas ou mesmo acordes “outside” (fora da progressão “natural”), tornando quase infinitas as combinações e seqüências que a criatividade dos músicos de jazz pode utilizar [sobre os acordes de sétima, ver e ouvir uma excelente explanação, inclusive histórica, em http://en.wikipedia.org/wiki/Seventh_chord].
Ainda rebatendo a fala do personagem, recordo-me de uma entrevista do Sting, da época do lançamento de sua famosa “jazz band”, em que ele, defendendo sua identidade de roqueiro, diz, com desdém, que a diferença entre o rock e o jazz estava em que o rock “burned” (“botava pra quebrar”) desde o início do tema. Realmente, o trato melódico e harmônico do jazz se constrói através do binômio tensão e relaxamento – cuja base é a progressão harmônica através do ciclo das sétimas – que vai aumentando a energia potencial de uma seqüência de acordes até resolvê-la em energia cinética (imagine-se uma onda no mar que vai subindo, ganhando potência e que, no ponto mais alto que consegue atingir, quebra e desliza até a areia). Isto ocorre na conhecida construção harmônica do “blues”, em que os doze compassos de uma canção culminam com o compasso da sétima dominante que é resolvido no compasso do acorde fundamental (ufa!). Essa audível compressão, que se realiza em “deliverance”, é não só harmônica mas também rítmica, sugerindo os ciclos do amor e da vida, de espera e realização. Não é por outra que, atentando para o equívoco de anos atrás, Sting compôs “Seven Days” que, com o tratamento rítmico desconcertante de Vinnie Colaiuta, é um exemplo de “tensão-e-relaxamento” [ver em http://www.youtube.com/watch?v=920BnH5bRJk].
[10jun10]
quinta-feira, 3 de junho de 2010
O Amor é Mais Forte que o Orgulho?
Ou
ouvi ontem baterem à porta
não era você
não era ninguém.
o som do relógio na parede confundiu-me
o mesmo relógio que fito agora
tiquetaqueando a tua ausência
por infinitos segundos minutos horas
a mesma ausência que dói-me
o coração a mente e cada parte de meu corpo
dor que é pedra
dor que cresce e toma espaço
e eu rocha dura e sem flexão
vou roendo a mim mesmo
moendo e remoendo
esse orgulho sem perdão.
Quem não experimentou a dureza do orgulho diante da generosidade do amor?
O significado do rancor é o de "fechamento em si"; enquanto o amor significa abrir-se para o mundo. Como exemplo, pergunto: quem, depois de uma boa foda, dessas dadas com afeto e entrega, não tem a sensação de ter o universo todo num copo? E, quem, com o orgulho ferido, não se fecha em copas e não planeja uma vingança (a aniquilação do outro)?
Sem muito refletir, eu diria que o amor é mais forte que tudo (aliás, muitas crenças são baseadas nisso). Entretanto, creio que o rancor (que é feito de pedra) fecha todas as portas ao amor. E tem sucesso. A única chance que tem o amor diante do rancor é se o rancor começar a partir-se, se o coração rancoroso abrir espaço para a dúvida e permitir receber o bálsamo, a cura, do amor.
Por último, pergunto: quantas pessoas conhecemos que extraem maior prazer de dizer não, de micar uma iniciativa, que de dizer sim, de propelir uma aventura.... Quantas pessoas não conhecemos que preferem dormir sós, fazendo o outro infeliz, do que ter uma noite de prazer e alegria compartilhada? Essa é a mesma força que nutre o rancor, parente próximo do orgulho.
segunda-feira, 31 de maio de 2010
Imagens
Somos provocados por imagens desde que nascemos. A visão é um sentido privilegiado e sua comunicação com o cérebro, através do córtex occipital, mais rápida do que a de todos os demais sentidos.
Também o banco de memórias associativas da visão é dos mais ricos e a ele recorremos incessantemente, de forma voluntária ou induzida.
Meninos se estimulam preferencialmente pela visão. É importante para eles descobrir a imagem do sexo feminino – a começar pela nudez da mãe, das irmãs, das tias e das mucamas (ver “Casa Grande e Senzala” - Freyre, Gilberto – 1933). Revistas masculinas, filmes eróticos e experiências veladas são permanentes desde a adolescência até a vida adulta.
Não é de estranhar, para as mulheres, que homens lhes peçam para ver esta ou aquela parte de seu corpo. A negativa a tal pedido faz parte do jogo erótico. Assim como o uso de vestuário destinado a estimular o desejo masculino; sem, entretanto, atendê-lo. As transparências, os decotes, a lingerie, são artifícios utilizados pelas mulheres para provocar o jogo que leva os homens a pedir e as mulheres a negar.
Isto posto, devo confessar que gosto de imagens. Gosto de paisagens, quadros, fotos, ilustrações. Gosto de observar movimentos e de ver detalhes. Minha memória visual guia minha imaginação e meu desejo. Não há como fugir de sua permanente sede e sua renitente provocação. Por isso mesmo tornei-me desde sempre um pedinte, vulnerável ao “jogo do não”. A demandar que me mostrem a fatia lunar de um seio, ou um precipício de impenetráveis prazeres...
terça-feira, 16 de março de 2010
A Doença - II
domingo, 7 de março de 2010
Ciclos
Desde pequeno gosto da companhia dos mais velhos. Nas festas de final-de-ano, nos aniversários de família, sempre preferia ouvir as histórias de algum tio-avô a brincar com meus primos e primas. Os relatos eram repletos de detalhes curiosos e de memórias sobre um Rio, sobre uma época, que eu não conhecia...
A casa de meus três tios-avós era ali em Ipanema, onde agora ergue-se um edifício de luxo. Lembro que aquilo que era má notícia para os primos – visitar os velhos – era um prêmio para mim. Os móveis, a arquitetura da casa, o Citroen 11B, tudo era uma lição de art deco, que me fascinava. E as histórias, então, eram só para meus ouvidos e para a minha curiosidade. Fui crescendo e fui vendo meus tios-avós irem embora. Na última visita que fiz à casa, herdei algumas peças que guardo até hoje.
Agora vivo na parte mais jovem da cidade – de amplos espaços e arquitetura banal – onde moro num prédio onde residem muitos idosos. No meu dia-a-dia cruzo com um bom número de casais de velhinhos, que me cumprimentam simpáticos. Abro e seguro portas, faço comentários sobre o dia, e nutro o afeto que me dão. Alguns deles ficaram meus amigos desde o dia em que mudei; outros, com o tempo, foram se aproximando. De uma senhora ouço os lamentos de abandono familiar e procuro dizer palavras otimistas, que sei inúteis. Percebo achaques e mudanças na vida de meus amigos anciãos – este passou a usar uma bengala, aquele teve um AVC e se recupera, aquela teve problemas nos joelhos, operou-se e usa a piscina para se exercitar, dois deles perderam os cabelos na quimio... Vão todos ficando mais velhos ainda, curvados, secos; mas sigo amigo deles e, quando os vejo, saúdo-os com sincera alegria.
O triste deste convívio com os mais velhos é que todo o mês há uma nota de falecimento no hall dos elevadores. E lá vejo o nomezinho ou a foto de um vizinho que se foi. Recordo sua figura, abraço-o em meus pensamentos, arrepanho algum ensinamento que me deixou, penso no término de minha própria vida, peço por sua paz e digo adeus. Às vezes remôo um pensamento turvo – o abandono em que ficam aqueles velhos ao final de suas vidas, quando os filhos já se foram para outros lugares e os netos já estão crescidos e indiferentes. Tenho essa visão do fechamento de suas casas, da repartição de móveis e as pequenas riquezas que ainda restavam, da doação de roupas e objetos sem valor, como pares de óculos, talheres descasados, cacarecos...
Ontem mesmo isso ocorreu de novo. E lá estava o retratinho simpático do meu amigo no hall, junto a algumas palavras delicadas dos amigos e à marcação do velório e do enterro. E uma vez mais cumpri o processo de despedida. Só que, desta vez, ao terminá-lo, imaginando a partilha que provavelmente ocorreria em seguida, veio-me um pensamento interessante, que nunca havia entretido antes: a venda do apartamento de meu idoso amigo, traria para o edifício, com toda a probabilidade, uma jovem família – gente que ali criaria os filhos, participaria das reuniões do condomínio, se interessaria pela renovação dos elevadores e do hall de entrada, procuraria uma alternativa para economizar água e energia. Gente que traria consigo uma rede de novos amigos, de parentes, de crianças. De crianças...
A percepção do ciclo que se abre com o fechamento de outro ciclo encheu-me de boa vontade. Voltei à imagem do espiroqueta do DNA, um parafuso girando para frente, sempre. Voltei à compreensão do poder fertilizador do húmus. Voltei à dinâmica do movimento, à energia cinética, a tudo aquilo que nos propele. E, então, a idéia da morte expirou. Tornei a sentir-me parte da cadeia da eternidade e a acreditar que, quanto mais pequenino sou, no espaço e no tempo, mais sou capaz de dissolver-me e tornar-me o todo em um. “Tudo é significante!”, pensei, e de novo abracei meu amigo que agora sabia, para sempre, presente.
[07mar10]
segunda-feira, 1 de março de 2010
Dois Prazeres
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Um Jantar Para Sempre
Vamos à mesa e nos sentamos uns de frente para os outros. A meu lado uma senhora de mão bailarina e voz musical me orienta e fala-me sobre quem é quem. Nos servimos de coisas simples, mas perfeitas - asado, salada e batatas. Nos copos, um vinho vintenário, orgulho do anfitrião, elaborado para seu primeiro neto.
Alguém se levanta e vai buscar algo. Após, começo a escutar música brasileira interpretada por um duo argentino, que mescla tensão e leveza. Uma gentileza dos que me sabem de fora. Depois me regalam o CD.
Mais vinho, desta vez um quinze anos, buliçoso. A bebida nos faz mais alegres e as conversas começam a cruzar diagonais. Aprovamos a sobremesa -- algo levíssimo feito com dulce de leche, é claro.
Vamos de novo ao jardim. O anfitrião pergunta-me se quero un bajativo. Insiste e leva-me para dentro de casa. Mostra-me uma rara botella de vodka. Serve-se, bebe e me estende o copo. Bebo. Está selada a amizade.
Outra vez no jardim, comemos petit-fours e chocolatitos. Estamos com as maçãs do rosto avermelhadas. Falamos de bodegas, arquitetura e vinhos. Temas ali comuns. Aprendo novas histórias antigas e sinto-me um escolhido. Não é possível tanta perfeição, penso.
Mais adiante, a conversa começa a cochilar, por mera educação - como se os presentes entendessem, unânimes, que era o momento de, a pequenos passos, deixar os anfitriões. E de fato a hora de partir chega sem sobressaltos.
Finalmente, vamos aos carros, nos dizemos até logo. Sentimos muito deixar tão boa companhia, mas é necessário evitar emoções desconcertantes. E nos vamos todos ao mesmo tempo.
Grave Ameaça
Que ironia, penso eu...
Durante a Ditadura, a meganhada armou dois braços civis da repressão: as delegacias estaduais de repressão aos crimes políticos (os DOPS) e a re-criada Polícia Federal, através das suas delegacias regionais. Estas duas polícias prenderam e arrebentaram quem se insurgia contra o regime, principalmente jornalistas.
Desde então, fixou-se em minha compreensão – por experiência própria e não por histórias contadas – que, não obstante o leva-e-traz de compadres que alimenta o noticiário policial, sempre haveria um conflito jacente entre a função da Imprensa e a da Polícia. Conflito esse que se tornaria claro numa situação “de exceção”, quando à Polícia é dada a missão de calar a população e à Imprensa a de informar a mesma população.
Há ocasiões, entretanto, em que a Imprensa e a Polícia celebram acordos de atuação conjunta. Lá pelos idos dos anos 90, quando era importante para gregos e troianos acabar com a arrogância do sinhozinho das Alagoas, firmou-se um pacto entre a Imprensa, a Polícia e o Ministério Público. Informações privilegiadas eram passadas de lá para cá e estouravam nos diários e semanários; enquanto que inquéritos policiais eram cevados por páginas e páginas do noticiário dos jornais, como se isso constituísse prova definitiva contra os cidadãos investigados; na dianteira do processo, jactava-se o Ministério Público do feito de haver dobrado esta ou aquela figura do governo. Tudo apoiado (e retro-alimentando) por um movimento patriótico que eletrizou a sociedade de cabo a rabo. Na realidade, nunca neste país o Ministério Público andou tão casado com a Polícia (antes tão criticada pelos nobres membros da Promotoria, que sempre a tachavam de corrupta e inepta), com quem caminhava a braços dados pelos corredores do Judiciário à cata de mandados variados.
Nesta época, tive a oportunidade de dialogar com vários jornalistas e de argumentar com eles sobre a irracionalidade de determinadas versões, mostrando uma fartura de documentos públicos em favor dos meus pontos-de-vista. Sempre me respondiam dizendo “mas o delegado tal e qual me disse o contrário”... e ponto final. Eu então retorquia: “vocês esqueceram que essa mesma polícia sentou a porrada em vocês? que torturou muitos de vocês? que matou? esqueceram de Vladimir Herzog? esqueceram das solenidades na ABI? esqueceram que polícia é polícia?”. Esse argumento final era sempre recebido com indiferença – no fim das contas, era essa mesma Polícia que fornecia as manchetes vendedoras de tiragens nunca vistas e guindavam pequenos focas a chefes de sucursal...
Bom... foi-se Collor, para gáudio de todos. Desde aqueles militantes que não conseguiram superar o amargor da derrota que sofreram nas urnas, até a classe média, indignada, que queria ver o sangue da cafajestada que governara o País por dois anos.
A aliança perfumada entre Imprensa, Polícia e Ministério Público (onde a militância já aflorava desassombradamente) produzira frutos. E assim continuaria pelos anos subseqüentes, a embaraçar governos e empresários (membros, ambos, das mesmas “quadrilhas que se dedicavam a roubar o erário e o povo”), tornando o noticiário político um caso de polícia e vendendo mais jornais que os conhecidos “banhos de sangue”.
E eis que desembocamos nos idos do Governo Lula. E vemos que ao embaraço inicial da prisão inopinada (e, depois, punida) de Duda Mendonça, sucedeu-se uma clara estratégia voltada a intensificar a demonstração de que “nunca em nenhum governo a polícia investigou e prendeu tanta gente”. O Ministro da Justiça, antes um ícone na defesa dos direitos humanos, comandou pessoalmente (mas na surdina) uma invejável investida contra “bandos de criminosos ricos”. Era preciso, como se sabe, mostrar – como no episódio da DASLU e dos juízes e deputados de Rondônia – que este era um governo que punia a elite em benefício do povo. E assim foi feito. Uma infinidade de operações – a maioria delas sem o menor cuidado técnico – foi declanchada; prisões foram feitas ao arremedo dos “irmãos do norte” – com o uso de cinturão e algemas nos pés – para encimar o cabeçalho das notícias e produzir efeito cinematográfico. Na cosmética de tais aparatos não faltavam as roupas negras, as viaturas tinindo de novas e o devido vazamento de conversas telefônicas coligidas em segredo de justiça. Não importa, é claro, que a coleta de provas nada conclua... sempre é possível acusar o Judiciário pela soltura deste ou aquele ladravaz... a Polícia Federal cumpre o seu papel... É o descarado uso da força policial em favor de uma corrente política no poder – a exemplo do que fez, com raro sucesso, o Pai dos Trabalhadores – Getúlio Vargas – citado por Lula como seu exemplo.
Disto tudo a Imprensa alimentou-se. E muito bem. Pouquíssimas vozes levantaram-se diante das irregularidades cometidas, do desvão em que se meteu a função pública, da sem-vergonhice marqueteira dos tiras. No bloco de trás, refestelou-se o Ministério Público – que sempre terá, como defesa do seu augusto traseiro, a possibilidade de ser comedido, imparcial, etc., etc., tudo “bullshit”.
Rola que rola, vai que vai, e há essa seqüência avassaladora de picaretagens as mais diversas envolvendo o partido no poder – o PT – e meeiros da convivência fiel e quotidiana de Lula, o Presidente da República. Neste momento, parte da militância (o “hard core” ideológico) já havia abandonado o barco, decepcionada, e juntou-se ao coro dos que queriam uma investigação profunda e arrasadora das atividades da quadrilha de aloprados. E a Imprensa imaginou que a aliança com a Polícia, conquistada durante o defenestramento de Collor, fosse continuar intacta nessa nova investida. Mas não foi bem assim...
Além de estar nas mãos de um articulador e Ministro do partido, polícia é polícia. Quer dizer: o compromisso da polícia é prender e arrebentar a mando do secretário ou ministro da pasta. Assim como “beque que se preza não almeja o Belfort Duarte” (frase genial do zagueiro Moysés, do Vasco – aquele que quebrou a perna do Garrincha num jogo amistoso com o Flamengo), não há tira que ganhe medalha de honra ao mérito por delicadeza. “Liberdade” é palavrão para policial; prender é o seu ofício. Policial que não prende é frouxo, inepto; tira que não pressiona, não arranca, não amedronta, não impõe, não machuca, não serve prá profissão. E não há aliança que altere essa natureza intrínseca do “ser” policial – indivíduos que andam “na escuta”, que “dão uma de mandrake”, que entregam uns aos outros por uma promoção e cujo sucesso está na medida da “autoridade” que impõem.
De outra parte, Ministério Público é Ministério Público. Se há uma situação nebulosa ou que não permita uma entrevista sob holofotes, a Promotoria andará por outras partes mais proveitosas, caçando presas mais gordas e evidentes. Porque esse é o seu mister – acusar – e assim luzir. Pensem bem: (a) o que é mais vil – defender um culpado ou acusar um inocente?; e (b) o que é mais nobre – acusar um culpado ou defender um inocente? Enquanto a advocacia tem um compromisso com a nobreza, o Ministério Público se refestela, muitas vezes, na vilania. O que esperar dele, então, quando a Polícia persegue a Imprensa? Exatamente o que fez a Procuradora Federal presente ao constrangimento dos jornalistas – negar a pressão.
Meus colegas advogados e eu pensamos o seguinte, já há muito tempo: estamos vivendo tempos complicados e embicando para uma situação pior que aquela que vivemos durante a Ditadura. Se naquela época terrível era difícil advogar, mas advogava-se; hoje há um movimento claro no sentido de negar defesa aos acusados. Escritórios são invadidos, telefonemas de advogados gravados, tudo exatamente de acordo com a propaganda que nos impingem os marketeiros auxiliares do partido no poder. Juntou-se a impaciência da população em face da reconhecida impunidade com o interesse escuso dos que desejam provar-se santos e divinos algozes. Como resultado, apressam-se todos a condenar suspeitos ao arrepio do devido processo legal (aquele direito fundamental que o cidadão tem de se ver processado de acordo com as regras do procedimento penal, que lhe garante ampla defesa e sem o qual a Polícia poderia desatar a prender e arrebentar sem qualquer freio).
Felizmente já se ouve a gritaria provocada pela ação da Polícia no caso dos jornalistas da VEJA. Que esse episódio acenda o sinal vermelho (ou, pelo menos, o amarelo) para os formadores de opinião e representantes do povo. Como diz o poema de Eduardo Alves da Costa, muitas vezes atribuído a Maiakovski:
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
[01nov06]
Referência e comentários ao sucedido pode ser encontrada nos seguintes sites:
Interessante notar o andar da carruagem que levou o Judiciário a calar o "Estadão" durante o episódio Sarney, no ano que passou.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Finitude e Eterno
A glória de sermos humanos está na nossa temporariedade. Somos finitos porque em algum momento nascemos. E é este percurso que nos excita a vida, que nos faz amar amores, que nos pega a nossos filhos, protegendo-os. A existência do amor, entretanto, nos dá a certeza da eternidade. Ele salta obstáculos materiais e abstratos; portanto, como poderia ser finito? Sejamos finitos, pois, tenhamos medo, briguemos pela vida, conservemos a vida, torçamos para que não nos aconteça nada; mas eternos enquanto amarmos.
Um abraço, Musa.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Ah, essa vã Filosofia...
Acabo de ler o número 20 da revista “Filosofia”. Atraiu-me a matéria de capa sobre Baudrillard (“Você é o que você consome”). Que decepção! Pela leitura da revista, acabei também sabendo que a disciplina “Filosofia” agora faz parte da grade do Ensino Médio.
Os textos da revista são descosturados e repletos de chavões do tipo “torna-se imprescindível”, “urge notar”, “ademais” e pencas de “outrossins”, intercalando citações gratuitas, usadas para dar legitimidade aos textos (não aos autores – porque estes padecem da falta de qualquer imaginação). Que desgraça!
Fico imaginando as hordas de “filósofos” (graduados em Filosofia) girando em torno do novo mercado de trabalho. E me apeno dos alunos que terão que deglutir páginas e páginas de textos indesejados, que serão obrigados a decorar por via de palavras-chave.
Recordo-me, então, da leitura dos primeiros livros de Direito que tive que enfrentar. Escritos de forma arcaica e convolutada – como se o blá-blá-blá empoeirado lhes conferisse o necessário gráu de saber –, os tais textos fizeram a miséria de minhas tardes de estudante. Recordo-me, também, do momento em que passei a ler os juristas de outras plagas e do momento em que textos mais arejados passaram a fazer parte da doutrina jurídica brasileira. Que alívio!
Voltando ao tema. Segundo me atualizo, a justificativa para a inserção da Filosofia na grade do Ensino Médio é a de “ensinar os jovens a pensar”. O mesmo constructo que procurava justificar a detestável análise sintática e ungia os concursos onde os infelizes candidatos eram chamados a analisar textos de Camões. Pura balela! Os jovens pensarão melhor na medida em que escreverem mais; de preferência à mão.
Me explico: há um tempo de pausa entre o pensar e o escrever à mão que permite a reflexão (a possibilidade de uma borracha virtual?). É no desenvolvimento de uma linguagem manuscrita que aprendemos o ritmo e a sutiliza das pausas (pontuação) tão necessários para inserir o autor e o leitor no mantra da palavra dita. Vale dizer: capturar o ouvinte e abrir a avenida para o diálogo. No fim das contas, bem escrever requer bem pensar. E isto se exercita pela prática – tanto da leitura de, e reflexão sobre, textos interessantes, como pela escrita de originais que proponham uma reflexão sobre o que pensa o autor (não exclusivamente o autor do texto que é debatido).
Volto à revista e leio um modesto texto sobre Erasmo, com “tags” ao lado, para facilitar a apreensão (ou, em bom Português, “decoreba”), de autoria de um Professor Universitário de Filosofia. E fecho o volume quando, ao final do artigo, segue-se o anúncio de uma coleção de livros perfeitamente intitulada “Ninguém Merece”...
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Gauchito Gil
Música e Competição
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Padaria dos Diabos!
Na quase-esquina de minha casa há uma padaria, cujo dono é um português (ou um grupo de portugueses). A padaria tal é um sucesso; vende mais caro que o super-mercado do outro lado da rua mas está sempre cheia. São os hábitos das gentes...
Pois bem... O pão da padaria é de qualidade sofrível (até entendo: razões de tabelamento do pãozinho impedem que a massa seja mais rica) -- com isso a vizinhança já se acostumou há anos.
Mas o padeiro faz bolos, também. Broas, bolinhos, biscoitos. E o que me surpreende é que as obras e artes do padeiro são detestáveis. Os bolinhos são secos e inermes; as brevidades duras e sem-gosto; os doces grosseiros e indigestos. E aí me pergunto: o que leva o padeiro a ser padeiro se não faz do trigo, da água, do açúcar e do sal seu esmero? Que diacho de mundo é esse que nos dá padeiros sem brio (só de olho na padaria)? Que faço eu -- que acredito nos padeiros do Velho Mundo – mudo-me ou me lanço das escadas?
29jan01
Civilidade
Em seu livro, “Modernidade Líquida”(Jorge Zahar Editor, Rio, 2001, pp. 111 e 112) Zygmunt Bauman discute a questão da “civilidade” e cita Richard Sennett (“The Fall of Public Man”):
Bauman, a seguir, comenta:
“Segue-se esse objetivo, é claro, esperando reciprocidade. Proteger os outros contra a indevida sobrecarga, refreando-se de interagir com eles, só faz sentido se se espera generosidade semelhante dos outros. A civilidade, como a linguagem, não pode ser “privada”. Antes de se tornar arte individualmente aprendida e privadamente praticada, a civilidade deve ser uma característica da situação social. É o entorno humano que deve ser “civil”, a fim de que seus habitantes possam aprender as difíceis habilidades da civilidade.”
O tema, entretanto, que parece simples na teoria, é movediço na prática. É possível que se use a “máscara da civilidade” para sobrecarregar os outros com o peso de nossa própria individualidade (para usar a expressão de Sennett). Exatamente para isso. Aliás, é essa a atitude comum entre os esnobes ou entre aqueles que desejam marcar uma determinada posição, aqueles que apreciam ser vistos como uma “elite” entre a “ralé”. Essa falsa civilidade é, assim, o próprio anverso daquilo que se deseja por civil. É uma máscara excludente (“pesada”, portanto) que nega o outro, que fecha a porta da comunicação entre os indivíduos, que impõe a presença “privada”(usando a terminologia de Bauman) sobre a existência “pública” da vida social.
De outra parte – e aí falo por mim – é importante diferenciar a atitude esnobe da falsa civilidade da atitude irônica – que convida à polêmica e que é provocação. Esta é outra máscara que, embora utilize as tintas do esnobismo, dele faz pouco, já que seu objetivo específico é servir de verruma contra outras máscaras que, de comum acordo, tratam de excluir do mundo “privado” de seus usuários os demais indivíduos que buscam o convívio “civil”.
As Carlos Perique – 18fev04
A Doença
O que é a doença? Acho que a doença vive entre dois mundos: o mundo da existência dela, em si; e o mundo da percepção dela. Esta é uma questão parecida com a que submete a existência de um objeto à sua percepção pelo olho do observador.
Posso dizer que estou bem, gozando de boa saúde, se não percebo a doença – quer ela exista em mim, ou não. Assim, posso passar meus dias despreocupadamente, mesmo que tenha uma doença, desde que não a perceba. Essa afirmação é válida para qualquer tipo de doença, tanto a enfermidade física como uma disfunção afetiva.
Concluo que nada há de “anormal” (portanto “doente”) em levar vida feliz, mesmo estando doente, na santa ignorância de meu mal.
De modo inverso, se me percebo doente, esteja ou não afetado por uma doença, estou doente. E estarei infeliz e preocupado comigo e, muito provavelmente, amedrontado, sem contar com o mal-estar que estarei sentindo.
A partir do momento que me percebo doente nasce uma outra questão: curar-me; a ação para curar-me. Entre o momento da percepção e o da ação existe um momento, menos ou mais longo, em que a mobilização para a cura me coloca em estado de tensão. Este hiato é ditado por razões objetivas mas também por estados subjetivos, como o receio de enfrentar a verdade e/o receio do processo de cura, o nojo de reconhecer o estigma, etc.
Penso que a doença é uma questão objetiva de sintomatologia e tratamento. Mas acho que a mais profunda origem da infelicidade está entre o momento de percepção e de ação. Arrisco que esta infelicidade é de intensidade semelhante à daquela causada pelo desengano ou pela perda irreparável. E é por isso que rezo menos pela cura e mais pelos aflitos. Na verdade, não peço que meu Pai Oxalá cure ninguém, mas que abrace docemente, que leve paz ao coração de todos os aflitos, inclusive eu mesmo.
19fev01
Dos Delitos e das Penas (desenvolvendo Beccaria)
Realmente esse é um tema fascinante. E sobre ele já escreveram filósofos, cientistas políticos, sociólogos, psicólogos e o que mais... O interessante é ver que não importa a filiação desta ou aquela opinião: todas podem estar certas ou erradas, conforme a ótica sob a qual sejam examinadas. É possível, portanto, que uma teoria tenha um grande apelo ético, mas nenhum efeito prático; assim como é possível que um teoria de alto teor técnico, cientificamente comprovado, nos engasgue a moral e os bons costumes.
Em maior ou menor grau, mesmo diante das diferenças de opinião, as teorias sobre “crime e castigo” vêem na sanção uma função instrumental para a “paz social”, para a ordem, para a manutenção de uma estrutura de poder que, montada sobre um sistema comum de crenças e valores, permita que os indivíduos e a coletividade usufruam de tranqüilidade, de segurança para desempenhar com fluidez suas tarefas quotidianas.
Esta teorização sobre a função da pena tem legitimação no desenvolvimento do indivíduo na sociedade onde irá viver. Desde crianças, durante o processo chamado de “socialização”, convivemos com este aspecto da vida em comum: limites da ação chamada de anti-social. Desde crianças somos castigados exemplarmente quando fazemos algo que amua os nossos maiores ou, por ensinamento, algo que é considerado contra as leis do convívio. Talvez a palavra “feio”, aplicada à criança ou ao que ela fez (ou deixou de fazer) seja a sanção mais comum na educação de um indivíduo em crescimento. A punição, como forma de indicação do “certo” e do “errado” e, também, como desencorajador de futuras ações “erradas”, é algo com que aprendemos a viver, é um instrumento que permite diminuir o custo das cotoveladas mediante algo que se chama “aprendizagem”.
De uma coisa todos estão certos, entretanto, todos comungam: (a) para ser efetiva, a sanção deve ser sabida com antecipação; e (b) uma vez disparado o gatilho (a ação sancionada), ela deve ser aplicada. Isto quer dizer que castigo sem aviso ou o castigo não aplicado têm o mesmo desmerecimento: não levam a qualquer efeito instrumental da “paz social”.
continua algum dia]
30nov05
O Medo - 1a Parte
O medo é uma das principais razões de nosso acanhamento. Ele é um grande inibidor de ações e, portanto, de êxito.
Três fatores concorrem para a persistência do medo: (a) a percepção de um risco de fracasso; (b) experiência anterior de fracasso em situação semelhante; e (c) a crença de que a inação dará o mesmo resultado que a ação.
O medo é reação. Em seu momento inicial de manifestação ele não é elaborado pela via racional. Tudo se passa numa confrontação bastante simples: a situação dada, a pre-disposição existente e a ação inibidora do medo.
O medo é um inibidor do êxito, mas também é um acautelador de fracassos. Assim como a dor, o medo sinaliza a existência de uma situação de perigo e funciona para evitar ações que levem fatalmente ao desastre. Neste sentido, o medo nos preserva, nos protege.
Já vemos que há um medo bom e um medo ruim. Isto quer dizer que simplesmente eliminar o medo ou estimulá-lo – sem distinguir situações e a função do medo como reação a elas – não nos garante o sucesso do bom viver. A chave estaria na utilização inteligente do medo. E o que seria essa utilização inteligente?
Deixando de lado as situações em que o medo se manifesta como reação imediata a um quadro de fracasso iminente (a reação de “saudável” que teríamos, por exemplo, se alguém tentasse nos empurrar para o abismo), vemos que há um número enorme de confrontos diários em que podemos transformar nosso medo em discernimento e, daí, em ação adequada ao sucesso.
É útil imaginar as situações como um conjunto de forças que se antagonizam, se anulam, se sobrepõem, se equilibram, etc. Usando esse modelo, podemos identificar vetores inibidores e estimuladores da ação. O medo seria um vetor inibidor enquanto que a ambição e o prazer seriam vetores estimuladores da ação.
02jun03

