quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Não Acredito em Macumba
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Ética do Candomblé - Reciprocidade e Gentileza
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| Oxalufan de Carybé |
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Sentido Prático do Candomblé
O interesse geral pelo Candomblé tem-se revelado muito mais uma curiosidade pelo oculto, pelos rituais e pelos fenômenos para-normais do que um desejo de conhecer os conceitos éticos, a teologia e a prática dos mandamentos desta religião.
Até a literatura acadêmica, ou mesmo mais “especializada”, procura satisfazer a curiosidade do grande público, dando pouca ou nenhuma importância ao conteúdo moral do Candomblé.
Reconheça-se que há estudos sociológicos e antropológicos bastante sérios sobre a parte exterior da religião, como aqueles que focam na estrutura e na descendência de uma casa. Igualmente, há uma preocupação em descrever as origens africanas, em demarcar os grupos sociais e as etnias. Tais estudos também incluem a descrição dos Orixás e o registro de relatos e lendas que constituem a “sabedoria” daqueles grupos.
Não ocorre, entretanto, a pesquisa e a conceituação aprofundadas sobre os mandamentos morais que decorrem da crença nos Orixás. Nem muito menos uma referência cruzada a outras culturas, de forma a propiciar uma leitura mais clara dos preceitos do Candomblé. E isto é espantoso, uma vez que a serventia do lado externo da cultura – a cultura chamada “material” – é basicamente a de validar e de expressar o lado subjetivo da cultura, sem que se negue a necessária relação dialética entre estes dois lados. Aliás, fincado nessa relação, vejo a enorme importância prática do lado subjetivo.
Depois que comecei a seguir os mandamentos do Candomblé, a praticá-lo e, principalmente, a entendê-lo, muitas reações e atitudes de pessoas com as quais convivo, e daquelas outras que são públicas, passaram a fazer maior sentido. E eu comecei a preparar-me melhor para a convivência.
Fora do que é ritualisticamente permitido, obrigatório ou proibido, os mandamentos básicos do Candomblé são apenas dois: cuida do seu Orixá; e respeita os outros. Cuidar do seu Orixá significa cuidar de si mesmo; respeitar os outros decorre de que os outros também são filhos de Orixás e de que não há Orixá mais proeminente que outro [ver: "O Código Moral do Candomblé", também neste blog]. Esta última parte deste mandamento é sumamente importante na prática.
Conforme nos ensinam os itans, os Orixás são interdependentes. Nenhum deles possui a força, a energia e o domínio que se sobreponha à força, à energia e ao domínio dos demais. Na verdade, as relações entre os Orixás são de atração ou de oposição. Há alianças umbilicais e rejeições históricas. Ao ouvir-se relato sobre os Orixás “vermelhos” e “brancos”, vê-se claramente a antinomia entre Eros e Tanatos, entre o peso inercial e o movimento dinâmico deste e daquele Orixá. Na verdade, observa-se que, no panteão africano, as energias devem se compor, com o mínimo de perda das suas características e direções. Isso se dá através da multiplicidade de “personalidade” dos Orixás e das “famílias” que eles compõem. Ogum anda junto com Oxósse e Exu; Exu é incompatível com Oxalá; Oxalá é companheiro de Iroko; Iroko significa a mudança repentina, diferente de Oxumarê, que rege os ciclos da vida; e assim vamos...
Se tomamos que temos a mesma personalidade de nosso Orixá, segue-se que teremos mais chances de manter relações positivas com essa ou aquela pessoa, filha de um Orixá que acompanha o nosso. Da mesma forma, devemos entender que outra pessoa, que guarda referência direta com um Orixá antagônico ao nosso Orixá, deverá ser tratada à distancia e com cuidado. Obviamente, esta é uma redução simplista da extrema complexidade que rege a personalidade dos Orixás e dos homens. Na verdade, as diferenças ou similaridades são muito mais sutis, embora discerníveis. E constituem um notável instrumento de convivência, produzindo sinergias e evitando conflitos.
O entendimento das forças dos Orixás determina a qual deles pedimos socorro, proteção, inspiração. E para quem devemos cantar, dançar e agradecer. Os gregos, os romanos, por exemplo, cultuavam divindades de forças (domínios, energias ou personalidades) diferentes. Não pediriam a Marte (deus da guerra frontal e sanguinária) a solução negociada para um conflito (domínio de Minerva). Veja-se como seria de grande valor estabelecer uma associação (um caminho cruzado) entre os Orixás, os deuses do panteão greco-romano, as sephira da Cabala e até os arquétipos representados pelos arcanos maiores do tarot...
[10jun10]
terça-feira, 1 de junho de 2010
O Código Moral do Candomblé
Sou um praticante do Candomblé. Minha experiência religiosa, entretanto, começou na Igreja Católica: freqüentei colégios católicos e cheguei a ser coroinha em três igrejas. Num daqueles colégios, fui apresentado à idéia de pecado. Minha relação com Deus era nutrida no medo; não no amor.
Na adolescência, por revolta, abandonei a Igreja Católica e declarei-me ateu. Fiz incursões racionais pelo panteísmo e condenei ou apoiei as religiões, em geral, em face de sua função social mal, ou bem, sucedida. Assim, mantive vivo e atualizado meu conhecimento sobre as organizações religiosas, seus rituais e mandamentos.
Já na maturidade encontrei minha espiritualidade. Esta descoberta ocorreu através da música e de um encontro casual. Da música, quando deixei de ser instrumentista para “fazer música”; do encontro casual quando fui convidado para assistir à festa de Ogun em uma casa de Umbanda. Poucas vezes me senti tão feliz como naquela noite em que fui à festa e a Mãe-de-Santo destinou-me a um dos atabaques.
Juntando minha epifania espiritual à prática de rituais fascinantes, acaba que fiquei adepto da Umbanda, fui “oborizado” (no caso, pode-se dizer “batizado”) e logo me tornei ogan da casa, freqüentando-a todos os sábados e batendo com fervor e alegria para os santos e demais entidades. Ça va sans dire que minha música teve sensível melhora e passou a dar-me um novo e melhor prazer.
Sucede que, ao fim de algum tempo, vi que meu destino não era ali. A Umbanda mistura o culto aos orixás com a disciplina espírita de Alan Kardec. As entidades que estão comigo apreciam o silêncio, a sutileza, a noite e a mata; minha racionalidade rejeita a existência do pecado e do Mal. Isso me fazia sentir fora de lugar e, por levantar um excesso de questões de base, fui sendo marginalizado.
Acabei visitando um barracão de Candomblé da Nação Ketu. E aí senti-me
A leitura sobre Candomblé é pautada por certo labor etnográfico e a descrição de ritos que compõem a vida de uma casa-de-santo. Dá-se prioridade às origens da religião africana e seu estabelecimento aqui e acolá, fruto do tráfico de escravos negros que grassou, no Brasil, do período Colonial até o século XIX. Descreve-se a cultura e a origem geográfica das diversas nações (Ketu, Angola, Jeje e outras). Fala-se dos orixás, suas características e seus “itans” (lendas). Foca-se nas vestimentas, no calendário, nas comidas, nas quizilas, nas ervas, nas saudações. Informa-se sobre o calendário das festas de santo e seu significado. Mas pouco ou nada se fala sobre os princípios éticos ou a filosofia do Candomblé. O público leitor, por outro lado, dá preferência aos fenômenos do oculto e deseja saber mais sobre esta coisa interessante que é a macumba.
O que me levou a uma reflexão sobre a ética e a filosofia do Candomblé foi a palavra dos mais antigos e o exemplo de meus irmãos de santo. E foi, definitivamente, uma necessidade de imaginar um sentido, uma idéia, sobre minha preferência pelo Candomblé.
Não levou muito tempo e forjei três princípios que considero básicos e que determinam minha escolha racional pelo Candomblé – que confirmam e reafirmam o sentimento que me preenche quando pratico o culto aos orixás. São eles:
Cuida do teu orixá.
Nenhum orixá é mais importante que o outro.
Todos têm um orixá. Portanto, entende e respeita teu próximo.
Cuida do Teu Orixá – Significa “cuida de ti mesmo”. Teu orixá é tua projeção divina, tua identidade mais sublime. É nele que encontras a tua verdade. E a tua verdade é teu guia. Quem tem os pés plantados na sua verdade, está em equilíbrio e harmonia com o cosmos, escolhe o certo e colhe o sucesso. De outra parte, nada é pior que a experiência de ter teu orixá virado de costas para ti.
Nenhum Orixá é Mais Importante que o Outro – O Candomblé ensina que cada orixá depende do outro e que não há orixá superior aos demais. Uns constituem energias complementares, que se reforçam; outros, energias antagônicas, que se equilibram. Ao peso inercial de Oxalá se opõe a força motriz de Exu; a argúcia de Oxosse completa a força unidirecional de Ogun. Pensar no panteão dos orixás é aprender que a vida em comunidade deve ser orgânica; é experimentar que todos dependem de todos, cada qual com seu valor, cada um com sua função.
Respeita Teu Próximo – Se todos somos sagrados, se todos somos filhos dessas divindades poderosas e diversas – os orixás – segue-se naturalmente que devemos respeitar a cada um e a todos com os quais convivemos. E o que é este respeito? Este respeito é o reconhecimento da força de cada qual, de suas qualidades e da valência que cada um tem, combinando-se com este e aquele para dar peso à força do grupo.
Como se vê, este é um código moral que encontra na prática – e na projeção da vida sagrada do dia-a-dia – o seu fundamento. Todos os demais preceitos, como aquele que diz que “não matarás”, incluem-se nestes três. E, ao verificar este padrão estritamente ético e tão familiar, aquieta-se o coração ocidental. Aqui só não tem lugar o demônio, porque não temos necessidade dele.
terça-feira, 25 de maio de 2010
Oxosse
Oxosse é o Rei da Nação Ketu, dos Yorubás. Sua personalidade é definida como a do Grande Caçador. Ele nos ensina a virtude da paciência combinada com a virtude da rapidez. Ao espreitar a caça, não se importa com o tempo que pode levar para tê-la no lugar perfeito para disparar-lhe, sem vacilar, a flecha letal.
Oxosse caminha como leopardo, embrenha-se no mato, esconde-se, mimetiza-se. Por assim ser e fazer, é um inimigo poderosíssimo, que deve ser temido e evitado. Quem quiser sobreviver ou sair sem dano, deve ter cuidado com Oxosse – este Orixá não usa força bruta, nem pesada borduna; entretanto, seu ataque é fulminante, insuspeitado, silencioso e mortal.
De outra parte, Oxosse é um ideal de beleza. Atlético, ágil e resistente, Oxosse nos estimula a cuidar de nós mesmos. Unindo ataque e defesa, o orixá da caça nos convida a refletir sobre o valor do silêncio, da palavra pensada e maiormente contida.
Como rei e caçador, Oxosse é o grande provedor da subsistência de seu povo. Dele é o domínio das matas, onde se embrenha a caça e onde se pode encontrar os frutos da terra . Por extensão, Oxosse é, também, o orixá da agricultura e do engenho – habilidades que garantem sustento e proteção continuada e permanente.
No sincretismo religioso Oxosse é representado, no Rio de Janeiro, por São Sebastião. Desconheço o porquê dessa escolha, mas fico de prontidão para a festa desse orixá maior, que ocorre em janeiro de cada ano. Okê Aro! Ode Coquê Maió!
segunda-feira, 1 de março de 2010
Oxalá
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Tempo
Tempo, ou Iroko, é o orixá senhor das mudanças surpreendentes. Ele nos mostra que, por mais que calculemos e projetemos nossas vidas, elas são cascas de noz ao sabor da tempestade, ou do bom tempo.
Tempo torna relativa uma das ferramentas mais importantes para a sobrevivência - o planejamento. Em seu lugar, entretanto, nos faz desenvolver o improviso, a flexibilidade e a criatividade - outras ferramentas muito importantes para a arte de sobreviver.
Não peça sorte a Tempo. Sorte ou azar, para Tempo, não têm significado; e Tempo é totalmente indiferente ao conceito de “merecimento”. Este orixá não lida com pedidos deste tipo, nem com o “bem” ou o “mal”. Talvez por isso mesmo, por essa ausência de parâmetros codificados, com Tempo não se dialoga ou negocia. -- assume-se.
Compreender Tempo é essencial nos momentos difíceis, quando tudo dá errado. Apreender a essência de Tempo nos ajuda, também, a viver melhor a vida, plantados no presente, e dilui o nosso afã de programarmos o futuro em detalhes.
Meu coração se alegrou com dias seguidos de sol, mar de ondas mansas e água tépida. Quando o tempo virou, a chuva fininha caiu e o dia amanheceu envolto em brumas, fui à sacada da varanda e vi o mar em ressaca, com ondas explodindo e a espuma branca cobrindo grandes extensões de praia. Como tudo estava tão bonito! Creditei esta mudança repentina a Tempo. Melhor que isso: creditei a Tempo a minha capacidade de ver o belo na mudança.
[20fev10]

