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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Não Acredito em Macumba

Faz tempo que reflito sobre o poder dos trabalhos da macumba, também conhecidos como “despachos” – conjunto de elementos (como velas, panos, comida, etc.) oferecidos para a obtenção de algum favor dos orixás ou outras entidades. Mais e mais tenho tomado uma atitude de descrença no que se refere à serventia objetiva dessa prática. Toda vez que alguém me diz que fez um despacho para conseguir isso ou aquilo, recordo-me dos pombos de Skinner e de seu inútil comportamento supersticioso...

Semana passada alguém perguntou-me sobre a eficácia de determinado despacho. Respondi que sou macumbeiro, mas não acredito em macumba. E é verdade. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá, da qual absorvo a sabedoria relatada nos itans. Leio e re-leio com paixão obras etnográficas como o “Ewé”, de Pierre Verger, que traz um longo receituário de trabalhos. Mas não acredito em macumba.

Acredito que a maior parte de nossos problemas reside em nosso próprio comportamento e em nossas atitudes. A outra parte – pequena, mas eventualmente de grande impacto – está no imprevisível, no ponto fora da curva.

Entendo que essa postura é decepcionante para os que recorrem aos rituais da macumba para “abrir caminhos” ou proteger-se de algum feitiço. Ou para aqueles que desejam testemunhar as curas, os fenômenos paranormais, os “sinais”, os transes. Ou para aqueles que temem o poder sobrenatural dos despachos. Mas é assim que respondo quando me consultam.

Acredito na macumba, porém, como um ritual que me coloca em contato com minha egrégora e me faz sentir incluído na cultura religiosa da qual faço parte. E acredito na macumba, também, como via de colocar-me em contato com meu orixá, de manter o fio que me une ao meu “eu espiritual”.

Num caso, incluo a dança, a música, o ritmo dos atabaques, as rezas e cantigas, as festas, os toques, os xirês, os candomblés – todas as manifestações que fazem parte do universo religioso que me inspira.

No outro, incluo todos os elementos – objetivos e subjetivos – que me dizem quem sou eu: os meus fios de contas, os assentamentos de meus orixás, os meus amuletos e meus altares, os meus mantras e os meus pensamentos. Todos eles formas de concentrar minha vontade, minha fé, para alcançar a comunhão com o divino.

Quando perguntado, aconselho que se evite as fórmulas ritualísticas que “garantem” o conseguimento disto ou daquilo, como os despachos de encruzilhada que exigem, apenas, que se use tal pano de tal cor, tal animal sacrificado, tal vela, tal bebida. Estes são elementos votivos que, sem a fé, o coração e o espírito, nada irão trazer, não importa quão bem esteja seguida a “receita”.

Digo que é extremamente frustrante gastar tempo e dinheiro investindo na expectativa de alcançar alguma graça através de um despacho copiado. E afirmo que o que resolve mesmo é analisar seus passos e tratar de aproximar-se de seu orixá através de conhecer melhor a si mesmo, assim encontrando o elo que projeta sua identidade ao seu eu divino.

Por outro lado, acredito na celebração, no agradecimento, na dança dos orixás e no cuidado com o axé. Acredito na força que estas manifestações trazem porque as sinto, as vivencio. Saúdo com alegria a presença dos orixás e dou ossé no ibá do meu santo. Dou minhas obrigações regularmente e me sinto muito bem no runcó de minha casa. Como babá efun, tenho cargo e função na preparação dos yawôs, além de cumprir outras funções do ilê. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá. Vivo, enfim, a experiência de ser um ebomy que caminha com os orixás, trabalha para sua casa e respeita a religião que me escolheu e acolheu.

Sim, não acredito em macumba. Mas, como se vê, sou macumbeiro.

Axé.

09SET10

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ética do Candomblé - Reciprocidade e Gentileza

Oxalufan de Carybé


Estava no início d’ “As Águas de Oxalá”, livro de José Beniste [*], quando me surpreendi com o título de um capítulo – “O Legado Ético do Yorubá”. Sempre tive para mim que a ética do candomblé baseava-se apenas em dois mandamentos: cuida de teu orixá (e, portanto, cuida de ti); respeita o orixá do próximo (e, portanto, respeita o próximo como a ti mesmo). É interessante ver, entretanto, como Beniste associa a conduta espiritual à moral e ao costume entre os yorubás, mostrando a interligação forte entre crenças e comportamentos. Relendo aquele capítulo, observo que os dois mandamentos em que acredito estão ali desdobrados em regras quotidianas que comandam todas as atividades de uma comunidade: da educação dos filhos ao trato da morte e suas conseqüências.

Por aquela leitura percebe-se que os mandamentos do Candomblé de Keto geram aquela prática que alguém – possivelmente Nei Lopes – chamou de “a mão gentil do Candomblé”. É fácil entender que, vivendo em comunidades menores, a reciprocidade – que vem a ser o mecanismo de trocas e a teia de obrigações econômicas e sociais que garantem a coesão e a subsistência do grupo – exige que todos se tratem com gentileza. E como essa gentileza faz falta no mundo de hoje!

A riquíssima ritualística do Candomblé é o reflexo da reciprocidade exigida do povo do santo, em vários graus e atividades, seja na forma de ebós (oferendas aos orixás) ou na expressão à hierarquia dos membros da comunidade; hierarquia que exige, de um lado, o respeito dos mais novos aos mais antigos e, de outro, o respeito dos mais antigos aos mais novos.

A reciprocidade das relações entre o povo do santo constitui uma teia de obrigações e direitos que envolve não só o plano da nossa existência no Ayê (mundo físico), mas também o plano espiritual (Orun). Desta forma, a harmonia de uma casa (Ilê Axé), depende de uma estrutura hierárquica e de um respectivo rol de funções, todas interdependentes. Assim, ter um “cargo” numa casa significa ter o direito a exercer uma função, mas também a obrigação de desempenhá-la. Todos, desta forma, do babalorixá (zelador ou pai-de-santo) ao mais novo yaô (iniciado) estão envolvidos na cadeia de reciprocidade e gentileza que deve predominar na atividade religiosa. Agora imagine-se o desbordamento desse conjunto harmônico por todos os aspectos da vida comunitária e teremos, então, a imagem ideal de um grupo social em que os indivíduos estarão bem próximos ao parâmetro de omoluwabí (bom caráter em todos os sentidos da vida, cf. Beniste, citado).

Voltamos, neste ponto, às duas máximas que mencionei no início: cuida de ti; e respeita teu próximo como a ti mesmo, para colocá-las em linguagem ocidental. Estes dois mandamentos, vividos na vida prática através da gentileza consigo mesmo e com os demais, podem ser responsáveis por uma melhora substancial da qualidade de nossa existência.

Axé!

[*] Beniste, José – “AS Águas de Oxalá – Awon Omi Oxalá – Bertrand Brasil, Rio, 5ª. Ed., pp. 35 a 41.

03SET10

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sentido Prático do Candomblé


O interesse geral pelo Candomblé tem-se revelado muito mais uma curiosidade pelo oculto, pelos rituais e pelos fenômenos para-normais do que um desejo de conhecer os conceitos éticos, a teologia e a prática dos mandamentos desta religião.

Até a literatura acadêmica, ou mesmo mais “especializada”, procura satisfazer a curiosidade do grande público, dando pouca ou nenhuma importância ao conteúdo moral do Candomblé.

Reconheça-se que há estudos sociológicos e antropológicos bastante sérios sobre a parte exterior da religião, como aqueles que focam na estrutura e na descendência de uma casa. Igualmente, há uma preocupação em descrever as origens africanas, em demarcar os grupos sociais e as etnias. Tais estudos também incluem a descrição dos Orixás e o registro de relatos e lendas que constituem a “sabedoria” daqueles grupos.

Não ocorre, entretanto, a pesquisa e a conceituação aprofundadas sobre os mandamentos morais que decorrem da crença nos Orixás. Nem muito menos uma referência cruzada a outras culturas, de forma a propiciar uma leitura mais clara dos preceitos do Candomblé. E isto é espantoso, uma vez que a serventia do lado externo da cultura – a cultura chamada “material” – é basicamente a de validar e de expressar o lado subjetivo da cultura, sem que se negue a necessária relação dialética entre estes dois lados. Aliás, fincado nessa relação, vejo a enorme importância prática do lado subjetivo.

Depois que comecei a seguir os mandamentos do Candomblé, a praticá-lo e, principalmente, a entendê-lo, muitas reações e atitudes de pessoas com as quais convivo, e daquelas outras que são públicas, passaram a fazer maior sentido. E eu comecei a preparar-me melhor para a convivência.

Fora do que é ritualisticamente permitido, obrigatório ou proibido, os mandamentos básicos do Candomblé são apenas dois: cuida do seu Orixá; e respeita os outros. Cuidar do seu Orixá significa cuidar de si mesmo; respeitar os outros decorre de que os outros também são filhos de Orixás e de que não há Orixá mais proeminente que outro [ver: "O Código Moral do Candomblé", também neste blog]. Esta última parte deste mandamento é sumamente importante na prática.

Conforme nos ensinam os itans, os Orixás são interdependentes. Nenhum deles possui a força, a energia e o domínio que se sobreponha à força, à energia e ao domínio dos demais. Na verdade, as relações entre os Orixás são de atração ou de oposição. Há alianças umbilicais e rejeições históricas. Ao ouvir-se relato sobre os Orixás “vermelhos” e “brancos”, vê-se claramente a antinomia entre Eros e Tanatos, entre o peso inercial e o movimento dinâmico deste e daquele Orixá. Na verdade, observa-se que, no panteão africano, as energias devem se compor, com o mínimo de perda das suas características e direções. Isso se dá através da multiplicidade de “personalidade” dos Orixás e das “famílias” que eles compõem. Ogum anda junto com Oxósse e Exu; Exu é incompatível com Oxalá; Oxalá é companheiro de Iroko; Iroko significa a mudança repentina, diferente de Oxumarê, que rege os ciclos da vida; e assim vamos...

Se tomamos que temos a mesma personalidade de nosso Orixá, segue-se que teremos mais chances de manter relações positivas com essa ou aquela pessoa, filha de um Orixá que acompanha o nosso. Da mesma forma, devemos entender que outra pessoa, que guarda referência direta com um Orixá antagônico ao nosso Orixá, deverá ser tratada à distancia e com cuidado. Obviamente, esta é uma redução simplista da extrema complexidade que rege a personalidade dos Orixás e dos homens. Na verdade, as diferenças ou similaridades são muito mais sutis, embora discerníveis. E constituem um notável instrumento de convivência, produzindo sinergias e evitando conflitos.

O entendimento das forças dos Orixás determina a qual deles pedimos socorro, proteção, inspiração. E para quem devemos cantar, dançar e agradecer. Os gregos, os romanos, por exemplo, cultuavam divindades de forças (domínios, energias ou personalidades) diferentes. Não pediriam a Marte (deus da guerra frontal e sanguinária) a solução negociada para um conflito (domínio de Minerva). Veja-se como seria de grande valor estabelecer uma associação (um caminho cruzado) entre os Orixás, os deuses do panteão greco-romano, as sephira da Cabala e até os arquétipos representados pelos arcanos maiores do tarot...


[10jun10]

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Código Moral do Candomblé

Sou um praticante do Candomblé. Minha experiência religiosa, entretanto, começou na Igreja Católica: freqüentei colégios católicos e cheguei a ser coroinha em três igrejas. Num daqueles colégios, fui apresentado à idéia de pecado. Minha relação com Deus era nutrida no medo; não no amor.

Na adolescência, por revolta, abandonei a Igreja Católica e declarei-me ateu. Fiz incursões racionais pelo panteísmo e condenei ou apoiei as religiões, em geral, em face de sua função social mal, ou bem, sucedida. Assim, mantive vivo e atualizado meu conhecimento sobre as organizações religiosas, seus rituais e mandamentos.

Já na maturidade encontrei minha espiritualidade. Esta descoberta ocorreu através da música e de um encontro casual. Da música, quando deixei de ser instrumentista para “fazer música”; do encontro casual quando fui convidado para assistir à festa de Ogun em uma casa de Umbanda. Poucas vezes me senti tão feliz como naquela noite em que fui à festa e a Mãe-de-Santo destinou-me a um dos atabaques.

Juntando minha epifania espiritual à prática de rituais fascinantes, acaba que fiquei adepto da Umbanda, fui “oborizado” (no caso, pode-se dizer “batizado”) e logo me tornei ogan da casa, freqüentando-a todos os sábados e batendo com fervor e alegria para os santos e demais entidades. Ça va sans dire que minha música teve sensível melhora e passou a dar-me um novo e melhor prazer.

Sucede que, ao fim de algum tempo, vi que meu destino não era ali. A Umbanda mistura o culto aos orixás com a disciplina espírita de Alan Kardec. As entidades que estão comigo apreciam o silêncio, a sutileza, a noite e a mata; minha racionalidade rejeita a existência do pecado e do Mal. Isso me fazia sentir fora de lugar e, por levantar um excesso de questões de base, fui sendo marginalizado.

Acabei visitando um barracão de Candomblé da Nação Ketu. E aí senti-me em casa. Fui novamente “oborizado” e, finalmente, “feito” (iniciado). “Yawô”, dei minhas obrigações de ano e três anos e, finalmente, ganhei a maioridade com a obrigação que tornou-me “ebomy”. Durante este tempo observei os complexos rituais da casa; pedi ajuda, conselho e explicação. Por outro lado, curioso, bebi em todos os livros que achei. Todavia, por mais que tenha me instruído sobre o Candomblé, tenho a convicção de que falta muito a aprender. Sempre através da mão gentil do meu babalorixá, dos mais antigos e de meus irmãos de santo; e seguindo meu coração.

A leitura sobre Candomblé é pautada por certo labor etnográfico e a descrição de ritos que compõem a vida de uma casa-de-santo. Dá-se prioridade às origens da religião africana e seu estabelecimento aqui e acolá, fruto do tráfico de escravos negros que grassou, no Brasil, do período Colonial até o século XIX. Descreve-se a cultura e a origem geográfica das diversas nações (Ketu, Angola, Jeje e outras). Fala-se dos orixás, suas características e seus “itans” (lendas). Foca-se nas vestimentas, no calendário, nas comidas, nas quizilas, nas ervas, nas saudações. Informa-se sobre o calendário das festas de santo e seu significado. Mas pouco ou nada se fala sobre os princípios éticos ou a filosofia do Candomblé. O público leitor, por outro lado, dá preferência aos fenômenos do oculto e deseja saber mais sobre esta coisa interessante que é a macumba.

O que me levou a uma reflexão sobre a ética e a filosofia do Candomblé foi a palavra dos mais antigos e o exemplo de meus irmãos de santo. E foi, definitivamente, uma necessidade de imaginar um sentido, uma idéia, sobre minha preferência pelo Candomblé.

Não levou muito tempo e forjei três princípios que considero básicos e que determinam minha escolha racional pelo Candomblé – que confirmam e reafirmam o sentimento que me preenche quando pratico o culto aos orixás. São eles:

Cuida do teu orixá.

Nenhum orixá é mais importante que o outro.

Todos têm um orixá. Portanto, entende e respeita teu próximo.

Cuida do Teu Orixá – Significa “cuida de ti mesmo”. Teu orixá é tua projeção divina, tua identidade mais sublime. É nele que encontras a tua verdade. E a tua verdade é teu guia. Quem tem os pés plantados na sua verdade, está em equilíbrio e harmonia com o cosmos, escolhe o certo e colhe o sucesso. De outra parte, nada é pior que a experiência de ter teu orixá virado de costas para ti.

Nenhum Orixá é Mais Importante que o Outro – O Candomblé ensina que cada orixá depende do outro e que não há orixá superior aos demais. Uns constituem energias complementares, que se reforçam; outros, energias antagônicas, que se equilibram. Ao peso inercial de Oxalá se opõe a força motriz de Exu; a argúcia de Oxosse completa a força unidirecional de Ogun. Pensar no panteão dos orixás é aprender que a vida em comunidade deve ser orgânica; é experimentar que todos dependem de todos, cada qual com seu valor, cada um com sua função.

Respeita Teu Próximo – Se todos somos sagrados, se todos somos filhos dessas divindades poderosas e diversas – os orixás – segue-se naturalmente que devemos respeitar a cada um e a todos com os quais convivemos. E o que é este respeito? Este respeito é o reconhecimento da força de cada qual, de suas qualidades e da valência que cada um tem, combinando-se com este e aquele para dar peso à força do grupo.

Como se vê, este é um código moral que encontra na prática – e na projeção da vida sagrada do dia-a-dia – o seu fundamento. Todos os demais preceitos, como aquele que diz que “não matarás”, incluem-se nestes três. E, ao verificar este padrão estritamente ético e tão familiar, aquieta-se o coração ocidental. Aqui só não tem lugar o demônio, porque não temos necessidade dele.


terça-feira, 25 de maio de 2010

Oxosse

Oxosse é o Rei da Nação Ketu, dos Yorubás. Sua personalidade é definida como a do Grande Caçador. Ele nos ensina a virtude da paciência combinada com a virtude da rapidez. Ao espreitar a caça, não se importa com o tempo que pode levar para tê-la no lugar perfeito para disparar-lhe, sem vacilar, a flecha letal.

Oxosse caminha como leopardo, embrenha-se no mato, esconde-se, mimetiza-se. Por assim ser e fazer, é um inimigo poderosíssimo, que deve ser temido e evitado. Quem quiser sobreviver ou sair sem dano, deve ter cuidado com Oxosse – este Orixá não usa força bruta, nem pesada borduna; entretanto, seu ataque é fulminante, insuspeitado, silencioso e mortal.

De outra parte, Oxosse é um ideal de beleza. Atlético, ágil e resistente, Oxosse nos estimula a cuidar de nós mesmos. Unindo ataque e defesa, o orixá da caça nos convida a refletir sobre o valor do silêncio, da palavra pensada e maiormente contida.

Como rei e caçador, Oxosse é o grande provedor da subsistência de seu povo. Dele é o domínio das matas, onde se embrenha a caça e onde se pode encontrar os frutos da terra . Por extensão, Oxosse é, também, o orixá da agricultura e do engenho – habilidades que garantem sustento e proteção continuada e permanente.

No sincretismo religioso Oxosse é representado, no Rio de Janeiro, por São Sebastião. Desconheço o porquê dessa escolha, mas fico de prontidão para a festa desse orixá maior, que ocorre em janeiro de cada ano. Okê Aro! Ode Coquê Maió!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Oxalá

Nenhum orixá é de fácil compreensão. Identificar as características de um orixá, incorporá-las, é tarefa que requer o uso da razão e o sentimento espiritual. Dentre todos os orixás, são os mais velhos os mais difíceis de lidar e entender. Carregam em si tanta contradição, e tantas lendas que atravessam tempos diferentes, que fixar uma definição para eles é exercício pedregoso e muitas vezes árido.

E Oxalá - Oxalufan - é o mais velho entre os mais velhos. Por isso tem a ver com a história do Mundo e com todos os demais orixás, misturando-se a eles nas lendas e nas cabeças dos filhos. É companheiro de Obaluaê, pai de Oxum, esposo de Yemanjá e Nanã, vizinho de Tempo, e tem altos e baixos com Exú e Xangô (coisa apenas aparente, é claro, mas que gera dúvidas e incertezas).

Sinto a presença de Oxalá como o ar e a água que me envolvem, mas não me comandam. Aliás, Oxalá não ordena, não mostra a seus filhos o caminho do Bem e do Mal - ao contrário: entrega-lhes a decisão sobre seu destino, sem dar pistas de qual o caminho a seguir. Assim, com a porta do livre arbítrio aberta para eles, ficam os filhos de Oxalá muitas vezes inertes. E isto pode nos levar a crer que a energia de Oxalá é a mesma da inércia, da estagnação e, por último, da pulsão da Morte. Digo que é um engano esta crença - aceitá-la seria ignorar a força libertadora que reside em Oxalá, força que sinto com meu coração e minha mente.

Há outras tantas visões de Oxalá; umas que ressaltam sua oposição a Exu e outras que o associam à primazia de Olorum, o Criador de Tudo, afirmando ser ele o pai de todos os demais orixás. Tudo isto, entretanto, são tentativas de prender Oxalá numa gaiola. Melhor fazer o seguinte: abrir os braços bem abertos, fechar os olhos, respirar compassada e silenciosamente e entregar-se ao "nada". Isto é tudo.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Tempo

Tempo, ou Iroko, é o orixá senhor das mudanças surpreendentes. Ele nos mostra que, por mais que calculemos e projetemos nossas vidas, elas são cascas de noz ao sabor da tempestade, ou do bom tempo.

Tempo torna relativa uma das ferramentas mais importantes para a sobrevivência - o planejamento. Em seu lugar, entretanto, nos faz desenvolver o improviso, a flexibilidade e a criatividade - outras ferramentas muito importantes para a arte de sobreviver.

Não peça sorte a Tempo. Sorte ou azar, para Tempo, não têm significado; e Tempo é totalmente indiferente ao conceito de “merecimento”. Este orixá não lida com pedidos deste tipo, nem com o “bem” ou o “mal”. Talvez por isso mesmo, por essa ausência de parâmetros codificados, com Tempo não se dialoga ou negocia. -- assume-se.

Compreender Tempo é essencial nos momentos difíceis, quando tudo dá errado. Apreender a essência de Tempo nos ajuda, também, a viver melhor a vida, plantados no presente, e dilui o nosso afã de programarmos o futuro em detalhes.

Meu coração se alegrou com dias seguidos de sol, mar de ondas mansas e água tépida. Quando o tempo virou, a chuva fininha caiu e o dia amanheceu envolto em brumas, fui à sacada da varanda e vi o mar em ressaca, com ondas explodindo e a espuma branca cobrindo grandes extensões de praia. Como tudo estava tão bonito! Creditei esta mudança repentina a Tempo. Melhor que isso: creditei a Tempo a minha capacidade de ver o belo na mudança.

[20fev10]