quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Três Poemas [de Amor] Soltos
A Cidade Entrou Pelo Vidro
a cidade entrou pelo vidro
com estardalhaço mas calada:
dois, três mortos na calçada
-- a lona por cima dos defuntos –
ou execução ou assalto.
passo pela cena
e rompe-se algo aqui dentro
seja a quotidiana indiferença
seja a possibilidade constante da morte.
o dia é de sol e o passeio está cômodo
as ruas são conhecidas
os bares a livraria as bancas de jornal
e por isso a desintegração silenciosa
dessa realidade (que segue presente)
me dói muito
embora não doa
ou doa menos que tirar
a casca de ferida do tombo
de ontem...
[30out06]
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Tempo
Tempo, ou Iroko, é o orixá senhor das mudanças surpreendentes. Ele nos mostra que, por mais que calculemos e projetemos nossas vidas, elas são cascas de noz ao sabor da tempestade, ou do bom tempo.
Tempo torna relativa uma das ferramentas mais importantes para a sobrevivência - o planejamento. Em seu lugar, entretanto, nos faz desenvolver o improviso, a flexibilidade e a criatividade - outras ferramentas muito importantes para a arte de sobreviver.
Não peça sorte a Tempo. Sorte ou azar, para Tempo, não têm significado; e Tempo é totalmente indiferente ao conceito de “merecimento”. Este orixá não lida com pedidos deste tipo, nem com o “bem” ou o “mal”. Talvez por isso mesmo, por essa ausência de parâmetros codificados, com Tempo não se dialoga ou negocia. -- assume-se.
Compreender Tempo é essencial nos momentos difíceis, quando tudo dá errado. Apreender a essência de Tempo nos ajuda, também, a viver melhor a vida, plantados no presente, e dilui o nosso afã de programarmos o futuro em detalhes.
Meu coração se alegrou com dias seguidos de sol, mar de ondas mansas e água tépida. Quando o tempo virou, a chuva fininha caiu e o dia amanheceu envolto em brumas, fui à sacada da varanda e vi o mar em ressaca, com ondas explodindo e a espuma branca cobrindo grandes extensões de praia. Como tudo estava tão bonito! Creditei esta mudança repentina a Tempo. Melhor que isso: creditei a Tempo a minha capacidade de ver o belo na mudança.
[20fev10]
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
A Bela das Brumas
Malman, o bruxo, andava deprimido. Não era a solidão que oprimia seu coração, mas algo mais profundo, que tinha que ver com sua existência. Durante muitos anos criara para si o ambiente perfeito para seus afazeres – ali, na floresta, colhia todos os frutos e folhas e caçava todos os animais necessários ao seu ofício. E, quando não usava a clareira ou o lago para conjurar, na pequena choupana tinha o espaço ideal para preparar e estocar suas poções e pós especiais.
De quando
Mas agora tudo lhe parecia sem muito sentido. Malman sentia falta não sabia do que. Uma angústia apertava-lhe o peito e passava dias deitado no rústico catre, sem comer ou beber, apenas suando sob o monte de peles que o cobriam. Quando conseguia pôr-se de pé, sofria o peso da idade e imaginava-se um ancião de mais de cem anos. E, pior que tudo, a força de seus feitiços estava diminuindo rapidamente; de tal forma que não mais era capaz de sequer matar uma lebre ou mesmo um rato do campo. Então, num momento de reflexão, o bruxo chegou à conclusão que deixara de amar o que fazia e ainda não se apaixonara pelo que faria no futuro – estava numa encruzilhada de caminhos fechados.
entre nuvens escuras
que escondem as estrelas.
E quando a luz celeste consegue firmar-se
ilumina um vulto
cujo azul-escuro e o negro
perde-se na copa das árvores...
e a única claridade que se vê
diluída
é a da alva pele da Bela
entre as Brumas que levam seu nome...”
[18fev10]
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Para Dark Butterfly, uma amiga de outras paragens musicais.
Na Folia 2010
Ela disse tchau e já ia rumando pra porta quando ouve o marido reclamar: “já vai?... com quem vai?”. “Ôxi...”, diz ela, “com nossos amigos...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.
Na rua, já começa a saltitar. Escolhera um vestidinho verde, com um decote que deixa os ombros à mostra. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma corneta de papel colorido na mão. E vai depressa, serelepe, ao encontro dos amigos e do bloco.
Ele diz tchau e já ia rumando para a porta quando houve a mulher reclamar “outro dia de folia?... não vá se embebedar até cair, hein?...”. “Ôxi...”, diz ele, “...é uma vez por ano, meu bem...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.
Na rua, já começa a sambar. Botou no corpo uma sunga e, sobre ela, apenas um pareô, pra liberar geral quando pudesse. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma bisnaga de lança-perfume na mão. E vai depressa, tropeçando nas havaianas, ao encontro da aventura e do bloco.
O bloco reuniu-se no Largo do Varadouro e, quando chegaram, a zabumba já ia forte. Era frevo, era marchinha, era tudo. Alguns bonecos enfeitavam a passagem; fitas, confetti eram atirados de todas as partes; e bebia-se de tudo – batidas, limão, frevesi, e até rum montilla traçado. Água e refrigerante também.
Ele seguia pulando, não interessava o ritmo ou a marcha. E em certa altura o pareô quase caiu, deixando à mostra a sunga sem-vergonha e a bisnaga de lança enfiada nela. E ela seguia dançando, encantadora, sabendo todos os passos e todos os refrões – princesa rodeada por uma turma de marmanjas e marmanjos protetores.
No meio da batalha, quando já desciam a Saudade, os olhares se cruzaram. Ela o viu primeiro, sacolejando engraçado, esbaldando-se sem eira nem beira; ele a viu depois. Tentou se compor mas não deu – ele era ele e ela, ela. Entre piscadelas de um para o outro, beijos soprados no ar, flertes graciosos ou não, foram se aproximando, se aproximando. Em dado momento deram-se as mãos e ele puxou-a para uma travessa estreita.
Encostaram-se no vão de uma porta. Entre apertos e amassos, ela sentiu o pau dele, duro, encostado nas coxas, no ventre, conforme se arquitetavam no ar; e ele sentia-lhe o monte gozoso e a boceta entre os dedos. Conseguiu beijar-lhe um seio pequenino, apertá-lo. E ela, em troco, os grandes olhos bem abertos, beijou-o na boca, com a boca molhada de lábios adoráveis. Mas quando a coisa ia esquentando, e ela percebeu que teria que ser ali mesmo, conseguiu desembaraçar-se não soube como, e voltar lepidamente para a folia.
Ele, por mais que buscasse, não mais a encontrou. E depois de um intervalo meio desconsolado, arranjou-se com uma mulata celeste, indo desbarrancar por outro lado. Ela, comportada agora, brincou mais um pouco, ganhou chapéu multicolor, cantou e dançou até terminar o baticum.
À noite, ela fogosa cavalgou o marido. Ainda havia adrenalina e o sonho vivido que a tornavam amazona sem par. Ele, embora bêbado, encontrou o caminho e comeu a mulher de quatro, socando-lhe a fanfarra como herói de bangue-bangue – na cabeça a morena do bloco. Marido e mulher estranharam tanta vitalidade; mas, antes de cair no sono, espantaram as suspeitas... a final, era Carnaval...
Para V/, a foliã.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Finitude e Eterno
A glória de sermos humanos está na nossa temporariedade. Somos finitos porque em algum momento nascemos. E é este percurso que nos excita a vida, que nos faz amar amores, que nos pega a nossos filhos, protegendo-os. A existência do amor, entretanto, nos dá a certeza da eternidade. Ele salta obstáculos materiais e abstratos; portanto, como poderia ser finito? Sejamos finitos, pois, tenhamos medo, briguemos pela vida, conservemos a vida, torçamos para que não nos aconteça nada; mas eternos enquanto amarmos.
Um abraço, Musa.
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Breve Conto de Natal
Noel é um sujeito distinto. E Alzira, esposa dele, é uma senhora de fino trato. Os dois formam um casal agradável. Assim, não se sabe como nem por que, na véspera de Natal aconteceu aquela pancadaria, aquela gritaria, no 805.
Dona Ermengarda, antes mesmo do rabecão chegar, já tinha uma interpretação para os fatos: a Alzira havia descoberto o caso do Noel com aquela empregada deles – uma mulata de bunda grande e cinturinha fina que fingia que se esfregava com o zelador Alcides, mas andava mesmo era com o patrão.
Na manhã do dia 28, eu estava na portaria quando chegou a Jacira, a tal mulata bunduda que supostamente servia o melhor do jantar ao patrão. Pude observar suas feições (e o restante, é claro) quando o Alcides contou da morte violenta de Noel e Alzira. E pude ouvi-la dizer, dando um enfático tapa na testa: "putamerda, dona Alzira errou de novo a receita de rabanada da falecida genitora do doutor Noel!..."
