quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Três Poemas [de Amor] Soltos

tenho essa tara absoluta/por teu roteiro de humores/pela tua fiel envergadura/essa premura, essa premura/por teus trejeitos de mucama/quando rainha és dos bastidores/tenho taras absurdas/meu amor, meu amor/e se de noite/na cama/fico pensando/(em como me amas, me amas)/de dia quando me fuçam/só lêem a parte de cima/um tremendo comercial/na superfície da esfera/de sonho e cimento/que faz e tropeça/a maior arrelia/nossa folia, folia...


repousar minha mão/sobre a pele das tuas coxas/uma pluma/a palma de minha mão/que movimenta-se com a brisa/da tua respiração/e vai subindo/na medida em que arqueias o corpo/e tiquetaqueia/teu coração/até que chegue/no alto/no meio/bem no meio/das tuas pernas/e para tua tortura/pare ali/imóvel/até que peças/que peças muito/que te beije...


tua boca/que sempre me foi amiga/de repente virou de banda/e soprou prá alhures/os gravetos, conchas, ciscos/que compõem parte/de minha vida/e então/essa tua boca/sempre tão minha amiga/virou-se em greta/em precipício escuro/sem eco e surdo/uma boca bocuda/que nada mais é/que um acidente vascular/cerebral...


[22ago06]

A Cidade Entrou Pelo Vidro

a cidade entrou pelo vidro

com estardalhaço mas calada:

dois, três mortos na calçada

-- a lona por cima dos defuntos –

ou execução ou assalto.

passo pela cena

e rompe-se algo aqui dentro

seja a quotidiana indiferença

seja a possibilidade constante da morte.

o dia é de sol e o passeio está cômodo

as ruas são conhecidas

os bares a livraria as bancas de jornal

e por isso a desintegração silenciosa

dessa realidade (que segue presente)

me dói muito

embora não doa

ou doa menos que tirar

a casca de ferida do tombo

de ontem...

[30out06]

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Tempo

Tempo, ou Iroko, é o orixá senhor das mudanças surpreendentes. Ele nos mostra que, por mais que calculemos e projetemos nossas vidas, elas são cascas de noz ao sabor da tempestade, ou do bom tempo.

Tempo torna relativa uma das ferramentas mais importantes para a sobrevivência - o planejamento. Em seu lugar, entretanto, nos faz desenvolver o improviso, a flexibilidade e a criatividade - outras ferramentas muito importantes para a arte de sobreviver.

Não peça sorte a Tempo. Sorte ou azar, para Tempo, não têm significado; e Tempo é totalmente indiferente ao conceito de “merecimento”. Este orixá não lida com pedidos deste tipo, nem com o “bem” ou o “mal”. Talvez por isso mesmo, por essa ausência de parâmetros codificados, com Tempo não se dialoga ou negocia. -- assume-se.

Compreender Tempo é essencial nos momentos difíceis, quando tudo dá errado. Apreender a essência de Tempo nos ajuda, também, a viver melhor a vida, plantados no presente, e dilui o nosso afã de programarmos o futuro em detalhes.

Meu coração se alegrou com dias seguidos de sol, mar de ondas mansas e água tépida. Quando o tempo virou, a chuva fininha caiu e o dia amanheceu envolto em brumas, fui à sacada da varanda e vi o mar em ressaca, com ondas explodindo e a espuma branca cobrindo grandes extensões de praia. Como tudo estava tão bonito! Creditei esta mudança repentina a Tempo. Melhor que isso: creditei a Tempo a minha capacidade de ver o belo na mudança.

[20fev10]

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A Bela das Brumas

Malman, o bruxo, andava deprimido. Não era a solidão que oprimia seu coração, mas algo mais profundo, que tinha que ver com sua existência. Durante muitos anos criara para si o ambiente perfeito para seus afazeres – ali, na floresta, colhia todos os frutos e folhas e caçava todos os animais necessários ao seu ofício. E, quando não usava a clareira ou o lago para conjurar, na pequena choupana tinha o espaço ideal para preparar e estocar suas poções e pós especiais.

De quando em vez Malman reunia-se com outros bruxos. Bebiam, trocavam segredos, filosofavam e, de alguma forma, mantinham a tradição. Em que pese a alegria de encontrar velhos amigos, e exercitar línguas dos cinco continentes, o bruxo não via a hora de voltar para seu lar na floresta e esperar que passasse bastante tempo antes de receber novo convite para uma reunião de bruxos.

Mas agora tudo lhe parecia sem muito sentido. Malman sentia falta não sabia do que. Uma angústia apertava-lhe o peito e passava dias deitado no rústico catre, sem comer ou beber, apenas suando sob o monte de peles que o cobriam. Quando conseguia pôr-se de pé, sofria o peso da idade e imaginava-se um ancião de mais de cem anos. E, pior que tudo, a força de seus feitiços estava diminuindo rapidamente; de tal forma que não mais era capaz de sequer matar uma lebre ou mesmo um rato do campo. Então, num momento de reflexão, o bruxo chegou à conclusão que deixara de amar o que fazia e ainda não se apaixonara pelo que faria no futuro – estava numa encruzilhada de caminhos fechados.

Malman sentiu que seu caso era de vida ou morte. E, empurrado por sombria sensação, decidiu tomar uma providência. Fazia anos que recorria à noite para buscar a sua força interior. Ficava nu, de pé na clareira e, batendo um tambor cerimonial, entoava os cânticos que aprendera de um irmão shaman. Aos poucos entrava em contato com o mais profundo de seu ser; sua alma era a alma das árvores, do chão, de terra, do vento, dos animais, e pulsava ao ritmo da respiração do Cosmos. E assim tratou de repetir o processo: naquela noite de Outono, fechada e fria, com os ventos a pressagiar conluios, dirigiu-se à clareira, tirou as roupas do corpo e, ao som do tambor, começou a cantar seus mantras até que, rodando e rodando, cercado pela catedral gótica das árvores, sentiu-se envolvido por uma pira de fogo e luz e perdeu a consciência.

Acordou ainda era noite fechada. As nuvens cobriam a Lua de quando em vez e o preto e o azul-escuro eram a cor de quase tudo. Ouviu passos... alguém corria com urgência pelo caminho que dava na clareira. Protegeu-se, metendo-se as roupas de volta o mais rápido possível. E súbito uma figura assoma o lugar. Usa uma capa, mas é seguramente uma mulher... dá alguns passos, lança-se em sua direção e vai ao chão, desacordada.

O bruxo se apressa em socorrer a mulher. Ajoelha-se ao lado dela e afasta os negros cachos que lhe cobrem o rosto. “É bela!”, sussurra Malman para si. Tenta despertá-la, balançando-lhe suavemente os ombros. Mas a bela segue com os olhos fechados. Ele, então, a enrola na capa e levanta-a. Em seus magros braços leva-a para a choupana, onde pensa em preparar-lhe algo.

Malman está desacostumado a ter companhia em seu tugúrio, principalmente de uma mulher, e bela. Sem muito jeito, pousa-a no catre e desata-lhe o nó da capa. Com isto, abre-se a roupa revelando a alvura do pescoço, dos ombros e das mãos. Sem dúvida é uma bela mulher, de seios generosos e ancas arredondadas. Constatando isso, o bruxo se sobressalta, pois sente que pode perder o controle, o poder sobre si mesmo. Levanta-se de repelão e vai buscar água fresca para fazer um chá. Quando retorna, a bela está recostada no catre, fazendo um inventário do que vê à sua volta.

Ela começa a desculpar-se, mas o bruxo lhe faz sinal para calar. Deita-se de novo, cobrindo o colo com a capa. E fecha os olhos, confiante, enquanto o bruxo prepara-lhe um chá fortificante. Quando senta-se no catre, ao lado da mulher, ela lhe diz um simples “obrigada” e, antes de beber o chá, esclarece, sem dar motivos, que era a ele mesmo que procurava. Termina o chá e, ante o olhar inquisitivo de Malman, solta de novo a capa e abre o corpete, mostrando os imponentes seios de largas auréolas. Em seguida livra-se das saias, deixando à mostra o claro ventre e a sedosa coleção de pelos negros. Alça os braços e chama o bruxo para si.

Malman enlouquece ou cura-se. Num átimo está nu sobre a bela. Sorve-lhe os seios, beija-lhe a boca, penteia-lhe os cabelos, quer ver-lhe as coxas, beija a fenda úmida que encontra entre elas, prepara o caminho e entra na mulher como um tronco que se enraíza na terra. Vigorosamente vão se fundindo, acompanhando os compassos de uma música sobrenatural. Matam-se e revivem-se e tornam a matar-se. Mordem-se agora, animais da dor, do desespero e do prazer. Finalmente o prazer! E gozam.

Já é manhã e a luz do Sol entra pelas frestas da habitação. Os pássaros cantam e Malman desperta com o coração leve e feliz. Abre os olhos. E ela não está mais lá. Veste-se depressa e corre pela floresta, até chegar à clareira. Lá encontra a capa da mulher e, sobre ela, uma rosa vermelha. E ao ajoelhar-se para tomá-la, ouve ao longe uma canção que diz:

“É noite

e a Lua fria passeia no céu

entre nuvens escuras

que escondem as estrelas.

E quando a luz celeste consegue firmar-se

ilumina um vulto

cujo azul-escuro e o negro

perde-se na copa das árvores...

A noite mais uma vez se fecha

e a única claridade que se vê

diluída

é a da alva pele da Bela

entre as Brumas que levam seu nome...”

[18fev10]

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Para Dark Butterfly, uma amiga de outras paragens musicais.

Na Folia 2010

Ela disse tchau e já ia rumando pra porta quando ouve o marido reclamar: “já vai?... com quem vai?”. “Ôxi...”, diz ela, “com nossos amigos...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.

Na rua, já começa a saltitar. Escolhera um vestidinho verde, com um decote que deixa os ombros à mostra. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma corneta de papel colorido na mão. E vai depressa, serelepe, ao encontro dos amigos e do bloco.

Ele diz tchau e já ia rumando para a porta quando houve a mulher reclamar “outro dia de folia?... não vá se embebedar até cair, hein?...”. “Ôxi...”, diz ele, “...é uma vez por ano, meu bem...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.

Na rua, já começa a sambar. Botou no corpo uma sunga e, sobre ela, apenas um pareô, pra liberar geral quando pudesse. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma bisnaga de lança-perfume na mão. E vai depressa, tropeçando nas havaianas, ao encontro da aventura e do bloco.

O bloco reuniu-se no Largo do Varadouro e, quando chegaram, a zabumba já ia forte. Era frevo, era marchinha, era tudo. Alguns bonecos enfeitavam a passagem; fitas, confetti eram atirados de todas as partes; e bebia-se de tudo – batidas, limão, frevesi, e até rum montilla traçado. Água e refrigerante também.

Ele seguia pulando, não interessava o ritmo ou a marcha. E em certa altura o pareô quase caiu, deixando à mostra a sunga sem-vergonha e a bisnaga de lança enfiada nela. E ela seguia dançando, encantadora, sabendo todos os passos e todos os refrões – princesa rodeada por uma turma de marmanjas e marmanjos protetores.

No meio da batalha, quando já desciam a Saudade, os olhares se cruzaram. Ela o viu primeiro, sacolejando engraçado, esbaldando-se sem eira nem beira; ele a viu depois. Tentou se compor mas não deu – ele era ele e ela, ela. Entre piscadelas de um para o outro, beijos soprados no ar, flertes graciosos ou não, foram se aproximando, se aproximando. Em dado momento deram-se as mãos e ele puxou-a para uma travessa estreita.

Encostaram-se no vão de uma porta. Entre apertos e amassos, ela sentiu o pau dele, duro, encostado nas coxas, no ventre, conforme se arquitetavam no ar; e ele sentia-lhe o monte gozoso e a boceta entre os dedos. Conseguiu beijar-lhe um seio pequenino, apertá-lo. E ela, em troco, os grandes olhos bem abertos, beijou-o na boca, com a boca molhada de lábios adoráveis. Mas quando a coisa ia esquentando, e ela percebeu que teria que ser ali mesmo, conseguiu desembaraçar-se não soube como, e voltar lepidamente para a folia.

Ele, por mais que buscasse, não mais a encontrou. E depois de um intervalo meio desconsolado, arranjou-se com uma mulata celeste, indo desbarrancar por outro lado. Ela, comportada agora, brincou mais um pouco, ganhou chapéu multicolor, cantou e dançou até terminar o baticum.

À noite, ela fogosa cavalgou o marido. Ainda havia adrenalina e o sonho vivido que a tornavam amazona sem par. Ele, embora bêbado, encontrou o caminho e comeu a mulher de quatro, socando-lhe a fanfarra como herói de bangue-bangue – na cabeça a morena do bloco. Marido e mulher estranharam tanta vitalidade; mas, antes de cair no sono, espantaram as suspeitas... a final, era Carnaval...

Para V/, a foliã.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Finitude e Eterno

A glória de sermos humanos está na nossa temporariedade. Somos finitos porque em algum momento nascemos. E é este percurso que nos excita a vida, que nos faz amar amores, que nos pega a nossos filhos, protegendo-os. A existência do amor, entretanto, nos dá a certeza da eternidade. Ele salta obstáculos materiais e abstratos; portanto, como poderia ser finito? Sejamos finitos, pois, tenhamos medo, briguemos pela vida, conservemos a vida, torçamos para que não nos aconteça nada; mas eternos enquanto amarmos.

Um abraço, Musa.


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Breve Conto de Natal

Noel é um sujeito distinto. E Alzira, esposa dele, é uma senhora de fino trato. Os dois formam um casal agradável. Assim, não se sabe como nem por que, na véspera de Natal aconteceu aquela pancadaria, aquela gritaria, no 805.

Dizem que casais muito certinhos sempre escondem uma história complicada, às vezes de terror. Este seria o caso de Noel e Alzira, que juntos voaram da janela do apartamento e se estatelaram em cima do Fiat novinho do seu Geraldo, quebrando o para-brisas, afundando o teto e deixando um rastro de sangue antes de quicarem para a calçada.

Dona Ermengarda, antes mesmo do rabecão chegar, já tinha uma interpretação para os fatos: a Alzira havia descoberto o caso do Noel com aquela empregada deles – uma mulata de bunda grande e cinturinha fina que fingia que se esfregava com o zelador Alcides, mas andava mesmo era com o patrão.

Já o Alcides, que não queria confusão na história, afirmava que havia visto o casal discutindo algumas vezes sobre uma herança de um tio distante - um camarada que tinha muita terra, muitas fazendas, em Goiás, e que morrera só e sem filhos.

Enfim, os adultos procuravam esconder o rosto das crianças e as crianças procuravam ver de perto o conjunto de ossos fraturados, os membros e pescoços desconexos e a cara disfigurada de Noel e Alzira, gritando: “olha o olho dela!”... e coisas que tais.

Depois que os corpos de Noel e Alzira foram recolhidos, ainda se ouviu comentários e versões. Até que a vizinhança começou a se aquietar e foi-se dispersando. E alguém falou algo como “este será um Natal inesquecível...”

Na manhã do dia 28, eu estava na portaria quando chegou a Jacira, a tal mulata bunduda que supostamente servia o melhor do jantar ao patrão. Pude observar suas feições (e o restante, é claro) quando o Alcides contou da morte violenta de Noel e Alzira. E pude ouvi-la dizer, dando um enfático tapa na testa: "putamerda, dona Alzira errou de novo a receita de rabanada da falecida genitora do doutor Noel!..."