quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Poema para Isa
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Três Poemas [de Amor] Soltos
A Cidade Entrou Pelo Vidro
a cidade entrou pelo vidro
com estardalhaço mas calada:
dois, três mortos na calçada
-- a lona por cima dos defuntos –
ou execução ou assalto.
passo pela cena
e rompe-se algo aqui dentro
seja a quotidiana indiferença
seja a possibilidade constante da morte.
o dia é de sol e o passeio está cômodo
as ruas são conhecidas
os bares a livraria as bancas de jornal
e por isso a desintegração silenciosa
dessa realidade (que segue presente)
me dói muito
embora não doa
ou doa menos que tirar
a casca de ferida do tombo
de ontem...
[30out06]
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Tempo
Tempo, ou Iroko, é o orixá senhor das mudanças surpreendentes. Ele nos mostra que, por mais que calculemos e projetemos nossas vidas, elas são cascas de noz ao sabor da tempestade, ou do bom tempo.
Tempo torna relativa uma das ferramentas mais importantes para a sobrevivência - o planejamento. Em seu lugar, entretanto, nos faz desenvolver o improviso, a flexibilidade e a criatividade - outras ferramentas muito importantes para a arte de sobreviver.
Não peça sorte a Tempo. Sorte ou azar, para Tempo, não têm significado; e Tempo é totalmente indiferente ao conceito de “merecimento”. Este orixá não lida com pedidos deste tipo, nem com o “bem” ou o “mal”. Talvez por isso mesmo, por essa ausência de parâmetros codificados, com Tempo não se dialoga ou negocia. -- assume-se.
Compreender Tempo é essencial nos momentos difíceis, quando tudo dá errado. Apreender a essência de Tempo nos ajuda, também, a viver melhor a vida, plantados no presente, e dilui o nosso afã de programarmos o futuro em detalhes.
Meu coração se alegrou com dias seguidos de sol, mar de ondas mansas e água tépida. Quando o tempo virou, a chuva fininha caiu e o dia amanheceu envolto em brumas, fui à sacada da varanda e vi o mar em ressaca, com ondas explodindo e a espuma branca cobrindo grandes extensões de praia. Como tudo estava tão bonito! Creditei esta mudança repentina a Tempo. Melhor que isso: creditei a Tempo a minha capacidade de ver o belo na mudança.
[20fev10]
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
A Bela das Brumas
Malman, o bruxo, andava deprimido. Não era a solidão que oprimia seu coração, mas algo mais profundo, que tinha que ver com sua existência. Durante muitos anos criara para si o ambiente perfeito para seus afazeres – ali, na floresta, colhia todos os frutos e folhas e caçava todos os animais necessários ao seu ofício. E, quando não usava a clareira ou o lago para conjurar, na pequena choupana tinha o espaço ideal para preparar e estocar suas poções e pós especiais.
De quando
Mas agora tudo lhe parecia sem muito sentido. Malman sentia falta não sabia do que. Uma angústia apertava-lhe o peito e passava dias deitado no rústico catre, sem comer ou beber, apenas suando sob o monte de peles que o cobriam. Quando conseguia pôr-se de pé, sofria o peso da idade e imaginava-se um ancião de mais de cem anos. E, pior que tudo, a força de seus feitiços estava diminuindo rapidamente; de tal forma que não mais era capaz de sequer matar uma lebre ou mesmo um rato do campo. Então, num momento de reflexão, o bruxo chegou à conclusão que deixara de amar o que fazia e ainda não se apaixonara pelo que faria no futuro – estava numa encruzilhada de caminhos fechados.
entre nuvens escuras
que escondem as estrelas.
E quando a luz celeste consegue firmar-se
ilumina um vulto
cujo azul-escuro e o negro
perde-se na copa das árvores...
e a única claridade que se vê
diluída
é a da alva pele da Bela
entre as Brumas que levam seu nome...”
[18fev10]
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Para Dark Butterfly, uma amiga de outras paragens musicais.
Na Folia 2010
Ela disse tchau e já ia rumando pra porta quando ouve o marido reclamar: “já vai?... com quem vai?”. “Ôxi...”, diz ela, “com nossos amigos...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.
Na rua, já começa a saltitar. Escolhera um vestidinho verde, com um decote que deixa os ombros à mostra. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma corneta de papel colorido na mão. E vai depressa, serelepe, ao encontro dos amigos e do bloco.
Ele diz tchau e já ia rumando para a porta quando houve a mulher reclamar “outro dia de folia?... não vá se embebedar até cair, hein?...”. “Ôxi...”, diz ele, “...é uma vez por ano, meu bem...” e, sem dar chance a mais conversa, fecha a porta atrás de si, rapidamente.
Na rua, já começa a sambar. Botou no corpo uma sunga e, sobre ela, apenas um pareô, pra liberar geral quando pudesse. O resto são colares e serpentinas penduradas no pescoço e uma bisnaga de lança-perfume na mão. E vai depressa, tropeçando nas havaianas, ao encontro da aventura e do bloco.
O bloco reuniu-se no Largo do Varadouro e, quando chegaram, a zabumba já ia forte. Era frevo, era marchinha, era tudo. Alguns bonecos enfeitavam a passagem; fitas, confetti eram atirados de todas as partes; e bebia-se de tudo – batidas, limão, frevesi, e até rum montilla traçado. Água e refrigerante também.
Ele seguia pulando, não interessava o ritmo ou a marcha. E em certa altura o pareô quase caiu, deixando à mostra a sunga sem-vergonha e a bisnaga de lança enfiada nela. E ela seguia dançando, encantadora, sabendo todos os passos e todos os refrões – princesa rodeada por uma turma de marmanjas e marmanjos protetores.
No meio da batalha, quando já desciam a Saudade, os olhares se cruzaram. Ela o viu primeiro, sacolejando engraçado, esbaldando-se sem eira nem beira; ele a viu depois. Tentou se compor mas não deu – ele era ele e ela, ela. Entre piscadelas de um para o outro, beijos soprados no ar, flertes graciosos ou não, foram se aproximando, se aproximando. Em dado momento deram-se as mãos e ele puxou-a para uma travessa estreita.
Encostaram-se no vão de uma porta. Entre apertos e amassos, ela sentiu o pau dele, duro, encostado nas coxas, no ventre, conforme se arquitetavam no ar; e ele sentia-lhe o monte gozoso e a boceta entre os dedos. Conseguiu beijar-lhe um seio pequenino, apertá-lo. E ela, em troco, os grandes olhos bem abertos, beijou-o na boca, com a boca molhada de lábios adoráveis. Mas quando a coisa ia esquentando, e ela percebeu que teria que ser ali mesmo, conseguiu desembaraçar-se não soube como, e voltar lepidamente para a folia.
Ele, por mais que buscasse, não mais a encontrou. E depois de um intervalo meio desconsolado, arranjou-se com uma mulata celeste, indo desbarrancar por outro lado. Ela, comportada agora, brincou mais um pouco, ganhou chapéu multicolor, cantou e dançou até terminar o baticum.
À noite, ela fogosa cavalgou o marido. Ainda havia adrenalina e o sonho vivido que a tornavam amazona sem par. Ele, embora bêbado, encontrou o caminho e comeu a mulher de quatro, socando-lhe a fanfarra como herói de bangue-bangue – na cabeça a morena do bloco. Marido e mulher estranharam tanta vitalidade; mas, antes de cair no sono, espantaram as suspeitas... a final, era Carnaval...
Para V/, a foliã.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Finitude e Eterno
A glória de sermos humanos está na nossa temporariedade. Somos finitos porque em algum momento nascemos. E é este percurso que nos excita a vida, que nos faz amar amores, que nos pega a nossos filhos, protegendo-os. A existência do amor, entretanto, nos dá a certeza da eternidade. Ele salta obstáculos materiais e abstratos; portanto, como poderia ser finito? Sejamos finitos, pois, tenhamos medo, briguemos pela vida, conservemos a vida, torçamos para que não nos aconteça nada; mas eternos enquanto amarmos.
Um abraço, Musa.
