domingo, 7 de março de 2010

Ciclos

Desde pequeno gosto da companhia dos mais velhos. Nas festas de final-de-ano, nos aniversários de família, sempre preferia ouvir as histórias de algum tio-avô a brincar com meus primos e primas. Os relatos eram repletos de detalhes curiosos e de memórias sobre um Rio, sobre uma época, que eu não conhecia...

A casa de meus três tios-avós era ali em Ipanema, onde agora ergue-se um edifício de luxo. Lembro que aquilo que era má notícia para os primos – visitar os velhos – era um prêmio para mim. Os móveis, a arquitetura da casa, o Citroen 11B, tudo era uma lição de art deco, que me fascinava. E as histórias, então, eram só para meus ouvidos e para a minha curiosidade. Fui crescendo e fui vendo meus tios-avós irem embora. Na última visita que fiz à casa, herdei algumas peças que guardo até hoje.

Agora vivo na parte mais jovem da cidade – de amplos espaços e arquitetura banal – onde moro num prédio onde residem muitos idosos. No meu dia-a-dia cruzo com um bom número de casais de velhinhos, que me cumprimentam simpáticos. Abro e seguro portas, faço comentários sobre o dia, e nutro o afeto que me dão. Alguns deles ficaram meus amigos desde o dia em que mudei; outros, com o tempo, foram se aproximando. De uma senhora ouço os lamentos de abandono familiar e procuro dizer palavras otimistas, que sei inúteis. Percebo achaques e mudanças na vida de meus amigos anciãos – este passou a usar uma bengala, aquele teve um AVC e se recupera, aquela teve problemas nos joelhos, operou-se e usa a piscina para se exercitar, dois deles perderam os cabelos na quimio... Vão todos ficando mais velhos ainda, curvados, secos; mas sigo amigo deles e, quando os vejo, saúdo-os com sincera alegria.

O triste deste convívio com os mais velhos é que todo o mês há uma nota de falecimento no hall dos elevadores. E lá vejo o nomezinho ou a foto de um vizinho que se foi. Recordo sua figura, abraço-o em meus pensamentos, arrepanho algum ensinamento que me deixou, penso no término de minha própria vida, peço por sua paz e digo adeus. Às vezes remôo um pensamento turvo – o abandono em que ficam aqueles velhos ao final de suas vidas, quando os filhos já se foram para outros lugares e os netos já estão crescidos e indiferentes. Tenho essa visão do fechamento de suas casas, da repartição de móveis e as pequenas riquezas que ainda restavam, da doação de roupas e objetos sem valor, como pares de óculos, talheres descasados, cacarecos...

Ontem mesmo isso ocorreu de novo. E lá estava o retratinho simpático do meu amigo no hall, junto a algumas palavras delicadas dos amigos e à marcação do velório e do enterro. E uma vez mais cumpri o processo de despedida. Só que, desta vez, ao terminá-lo, imaginando a partilha que provavelmente ocorreria em seguida, veio-me um pensamento interessante, que nunca havia entretido antes: a venda do apartamento de meu idoso amigo, traria para o edifício, com toda a probabilidade, uma jovem família – gente que ali criaria os filhos, participaria das reuniões do condomínio, se interessaria pela renovação dos elevadores e do hall de entrada, procuraria uma alternativa para economizar água e energia. Gente que traria consigo uma rede de novos amigos, de parentes, de crianças. De crianças...

A percepção do ciclo que se abre com o fechamento de outro ciclo encheu-me de boa vontade. Voltei à imagem do espiroqueta do DNA, um parafuso girando para frente, sempre. Voltei à compreensão do poder fertilizador do húmus. Voltei à dinâmica do movimento, à energia cinética, a tudo aquilo que nos propele. E, então, a idéia da morte expirou. Tornei a sentir-me parte da cadeia da eternidade e a acreditar que, quanto mais pequenino sou, no espaço e no tempo, mais sou capaz de dissolver-me e tornar-me o todo em um. “Tudo é significante!”, pensei, e de novo abracei meu amigo que agora sabia, para sempre, presente.

[07mar10]

sexta-feira, 5 de março de 2010

Poeminha de Fim de Ano

Carélia Finesa

ah, façam-me o obséquio
não me recordem mais
dos livros de Geografia
nem do Gaspar de Freitas
deixem-me aqui quieto e zozegado
neste presente do futuro
vestindo minhas chinelas tão amáveis
e lendo o JB de cabo a rabo.

não quero mais saber
de caminhadas matinais
historietas infernais
rostinhos angelicais
bundas sesquipedais
fabinhas invernais
meliss@s nos varais
jazz e tudo o mais...

deixem-me apreciar
a memória e a imaginação
dos anos idos e dos vindos
provar dos vinhos doces
da eucaristia
orar todas as noites
e persignar-me com freqüência
cumprimentar vizinhos e vizinhas
(até os mais sovinas
até as mais feinhas)
e roncar o ronco dos avós
suave e caminhando para o silêncio
dêem-me apenas essa grata aventura
da poltrona do papai
do cachimbo meio aceso
das meninas do Faustão
e da sonolência das 5.

é que já não presto
meus queridos
para os demônios conhecidos
para a afobação das novidades
para as taquicardias dos intróitos
para aquela febre galopante
para as maquinações rocambolescas
para as rainhas ou princesas
dos desejos do atacado
ou dos amores do varejo.

quero fazer jus
irmãozinhos, irmãzinhas
a meu torrão definitivo
a uma lápide bem limpinha
que me exalte as qualidades:
um pau médio e delicado
um certo humor profano
e essas mãos aqui
vizinhas e macias.

[dezembro de 2010]

segunda-feira, 1 de março de 2010

Oxalá

Nenhum orixá é de fácil compreensão. Identificar as características de um orixá, incorporá-las, é tarefa que requer o uso da razão e o sentimento espiritual. Dentre todos os orixás, são os mais velhos os mais difíceis de lidar e entender. Carregam em si tanta contradição, e tantas lendas que atravessam tempos diferentes, que fixar uma definição para eles é exercício pedregoso e muitas vezes árido.

E Oxalá - Oxalufan - é o mais velho entre os mais velhos. Por isso tem a ver com a história do Mundo e com todos os demais orixás, misturando-se a eles nas lendas e nas cabeças dos filhos. É companheiro de Obaluaê, pai de Oxum, esposo de Yemanjá e Nanã, vizinho de Tempo, e tem altos e baixos com Exú e Xangô (coisa apenas aparente, é claro, mas que gera dúvidas e incertezas).

Sinto a presença de Oxalá como o ar e a água que me envolvem, mas não me comandam. Aliás, Oxalá não ordena, não mostra a seus filhos o caminho do Bem e do Mal - ao contrário: entrega-lhes a decisão sobre seu destino, sem dar pistas de qual o caminho a seguir. Assim, com a porta do livre arbítrio aberta para eles, ficam os filhos de Oxalá muitas vezes inertes. E isto pode nos levar a crer que a energia de Oxalá é a mesma da inércia, da estagnação e, por último, da pulsão da Morte. Digo que é um engano esta crença - aceitá-la seria ignorar a força libertadora que reside em Oxalá, força que sinto com meu coração e minha mente.

Há outras tantas visões de Oxalá; umas que ressaltam sua oposição a Exu e outras que o associam à primazia de Olorum, o Criador de Tudo, afirmando ser ele o pai de todos os demais orixás. Tudo isto, entretanto, são tentativas de prender Oxalá numa gaiola. Melhor fazer o seguinte: abrir os braços bem abertos, fechar os olhos, respirar compassada e silenciosamente e entregar-se ao "nada". Isto é tudo.

Dois Prazeres

Nestes dois últimos dias tive dois prazeres: a leitura de uma crônica de Rubem Braga ("O Sino de Ouro") e ver, novamente, "Sete Noivas para Sete Irmãos".

Embora distintos em profundidade e alquimia, foram prazeres que entre si guardam certa relação. A crônica bem escrita do Velho Braga, como tantas outras crônicas que dele já li, revela-me o inefável, a possibilidade de um "falar com Deus", e envergonha-me em minha pretensão de escritor. Me faz recordar um poema de Pessoa, tal a forma como me arranca de mim e me eleva; mas também me recorda de um bendito dia em que, acanhados e amadores, abrimos um show porreta do Edu Lobo na PUC do Rio de Janeiro...

Já o "Sete Noivas..." recorda-me os dias de matiné com minha mãe, quando ela buscava mostrar-me essa mágica do encontro da dança com a música e o canto. Com ela aprendi a juntar todas as artes e a compreender uma através da outra. Com ela também aprendi a encantar-me com o teatro e o cinema, e com todos os ofícios que constroem um espetáculo. Não por acaso era dela o livro de Rubem Braga do qual li a crônica, assim como eram dela os livros de Pessoa, de Eça, Lorca e tantos outros que agora se aprumam nas minhas estantes.

No final desses dias em que li e vi, fiz uma volta possível ao mundo feliz em que toco minha alma e ela voa, dona de si, para onde quer...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Um Jantar Para Sempre

As brasas espalhadas no asador criollo têm a mesma cor e a mesma forma - o mesmo DNA. Os anfitriões, um casal encantador, estão vivendo o melhor momento de suas vidas. A casa é acolhedora; o jardim bem tratado -- nele os convivas estão de pé ou sentados em bancos confortáveis. Falamos de quase tudo e todos têm interesse em ouvir a cada um. A conversa rola macia sob o céu estrelado de Mendoza. Há uma delicadeza despreocupada que nos faz nobres e elegantes.

Vamos à mesa e nos sentamos uns de frente para os outros. A meu lado uma senhora de mão bailarina e voz musical me orienta e fala-me sobre quem é quem. Nos servimos de coisas simples, mas perfeitas - asado, salada e batatas. Nos copos, um vinho vintenário, orgulho do anfitrião, elaborado para seu primeiro neto.

Alguém se levanta e vai buscar algo. Após, começo a escutar música brasileira interpretada por um duo argentino, que mescla tensão e leveza. Uma gentileza dos que me sabem de fora. Depois me regalam o CD.

Mais vinho, desta vez um quinze anos, buliçoso. A bebida nos faz mais alegres e as conversas começam a cruzar diagonais. Aprovamos a sobremesa -- algo levíssimo feito com dulce de leche, é claro.

Vamos de novo ao jardim. O anfitrião pergunta-me se quero un bajativo. Insiste e leva-me para dentro de casa. Mostra-me uma rara botella de vodka. Serve-se, bebe e me estende o copo. Bebo. Está selada a amizade.

Outra vez no jardim, comemos petit-fours e chocolatitos. Estamos com as maçãs do rosto avermelhadas. Falamos de bodegas, arquitetura e vinhos. Temas ali comuns. Aprendo novas histórias antigas e sinto-me um escolhido. Não é possível tanta perfeição, penso.

Mais adiante, a conversa começa a cochilar, por mera educação - como se os presentes entendessem, unânimes, que era o momento de, a pequenos passos, deixar os anfitriões. E de fato a hora de partir chega sem sobressaltos.

Finalmente, vamos aos carros, nos dizemos até logo. Sentimos muito deixar tão boa companhia, mas é necessário evitar emoções desconcertantes. E nos vamos todos ao mesmo tempo.

Esta história irá se repetir? Não creio. Há alguma sensação de perda, por ela haver terminado e não ser repetível? Não. Há algum tempo atrás, o pianista do nosso trio nos dizia "quem ouviu, ouviu, quem não, não tem repeteco, nem para nós mesmos". Este é o segredo da música ao vivo; e é um dos segredos da vida.

Hoje em dia compreendo bem que a experiência vivida lá está, e deve permanecer, intacta. O desejo de repetição ocorre quando desconhecemos que isto é impossível -- sempre frustei-me ao querer novamente à frente o que me havia ocorrido no passado. Bati em portas erradas, vi paisagens decadentes, e abracei relações encerradas -- melhor que tivessem ficado todos, como eram, sólidos e únicos, intocados e para sempre o que foram.

[27fev10]

Grave Ameaça

"Grave Ameaça" -- este foi o título do editorial de O GLOBO desta quarta-feira, dia 1º. de novembro, comentando o constrangimento a que foram submetidos dois jornalistas da revista VEJA numa delegacia da Polícia Federal.

Que ironia, penso eu...

Durante a Ditadura, a meganhada armou dois braços civis da repressão: as delegacias estaduais de repressão aos crimes políticos (os DOPS) e a re-criada Polícia Federal, através das suas delegacias regionais. Estas duas polícias prenderam e arrebentaram quem se insurgia contra o regime, principalmente jornalistas.

Desde então, fixou-se em minha compreensão – por experiência própria e não por histórias contadas – que, não obstante o leva-e-traz de compadres que alimenta o noticiário policial, sempre haveria um conflito jacente entre a função da Imprensa e a da Polícia. Conflito esse que se tornaria claro numa situação “de exceção”, quando à Polícia é dada a missão de calar a população e à Imprensa a de informar a mesma população.

Há ocasiões, entretanto, em que a Imprensa e a Polícia celebram acordos de atuação conjunta. Lá pelos idos dos anos 90, quando era importante para gregos e troianos acabar com a arrogância do sinhozinho das Alagoas, firmou-se um pacto entre a Imprensa, a Polícia e o Ministério Público. Informações privilegiadas eram passadas de lá para cá e estouravam nos diários e semanários; enquanto que inquéritos policiais eram cevados por páginas e páginas do noticiário dos jornais, como se isso constituísse prova definitiva contra os cidadãos investigados; na dianteira do processo, jactava-se o Ministério Público do feito de haver dobrado esta ou aquela figura do governo. Tudo apoiado (e retro-alimentando) por um movimento patriótico que eletrizou a sociedade de cabo a rabo. Na realidade, nunca neste país o Ministério Público andou tão casado com a Polícia (antes tão criticada pelos nobres membros da Promotoria, que sempre a tachavam de corrupta e inepta), com quem caminhava a braços dados pelos corredores do Judiciário à cata de mandados variados.

Nesta época, tive a oportunidade de dialogar com vários jornalistas e de argumentar com eles sobre a irracionalidade de determinadas versões, mostrando uma fartura de documentos públicos em favor dos meus pontos-de-vista. Sempre me respondiam dizendo “mas o delegado tal e qual me disse o contrário”... e ponto final. Eu então retorquia: “vocês esqueceram que essa mesma polícia sentou a porrada em vocês? que torturou muitos de vocês? que matou? esqueceram de Vladimir Herzog? esqueceram das solenidades na ABI? esqueceram que polícia é polícia?”. Esse argumento final era sempre recebido com indiferença – no fim das contas, era essa mesma Polícia que fornecia as manchetes vendedoras de tiragens nunca vistas e guindavam pequenos focas a chefes de sucursal...

Bom... foi-se Collor, para gáudio de todos. Desde aqueles militantes que não conseguiram superar o amargor da derrota que sofreram nas urnas, até a classe média, indignada, que queria ver o sangue da cafajestada que governara o País por dois anos.

A aliança perfumada entre Imprensa, Polícia e Ministério Público (onde a militância já aflorava desassombradamente) produzira frutos. E assim continuaria pelos anos subseqüentes, a embaraçar governos e empresários (membros, ambos, das mesmas “quadrilhas que se dedicavam a roubar o erário e o povo”), tornando o noticiário político um caso de polícia e vendendo mais jornais que os conhecidos “banhos de sangue”.

E eis que desembocamos nos idos do Governo Lula. E vemos que ao embaraço inicial da prisão inopinada (e, depois, punida) de Duda Mendonça, sucedeu-se uma clara estratégia voltada a intensificar a demonstração de que “nunca em nenhum governo a polícia investigou e prendeu tanta gente”. O Ministro da Justiça, antes um ícone na defesa dos direitos humanos, comandou pessoalmente (mas na surdina) uma invejável investida contra “bandos de criminosos ricos”. Era preciso, como se sabe, mostrar – como no episódio da DASLU e dos juízes e deputados de Rondônia – que este era um governo que punia a elite em benefício do povo. E assim foi feito. Uma infinidade de operações – a maioria delas sem o menor cuidado técnico – foi declanchada; prisões foram feitas ao arremedo dos “irmãos do norte” – com o uso de cinturão e algemas nos pés – para encimar o cabeçalho das notícias e produzir efeito cinematográfico. Na cosmética de tais aparatos não faltavam as roupas negras, as viaturas tinindo de novas e o devido vazamento de conversas telefônicas coligidas em segredo de justiça. Não importa, é claro, que a coleta de provas nada conclua... sempre é possível acusar o Judiciário pela soltura deste ou aquele ladravaz... a Polícia Federal cumpre o seu papel... É o descarado uso da força policial em favor de uma corrente política no poder – a exemplo do que fez, com raro sucesso, o Pai dos Trabalhadores – Getúlio Vargas – citado por Lula como seu exemplo.

Disto tudo a Imprensa alimentou-se. E muito bem. Pouquíssimas vozes levantaram-se diante das irregularidades cometidas, do desvão em que se meteu a função pública, da sem-vergonhice marqueteira dos tiras. No bloco de trás, refestelou-se o Ministério Público – que sempre terá, como defesa do seu augusto traseiro, a possibilidade de ser comedido, imparcial, etc., etc., tudo “bullshit”.

Rola que rola, vai que vai, e há essa seqüência avassaladora de picaretagens as mais diversas envolvendo o partido no poder – o PT – e meeiros da convivência fiel e quotidiana de Lula, o Presidente da República. Neste momento, parte da militância (o “hard core” ideológico) já havia abandonado o barco, decepcionada, e juntou-se ao coro dos que queriam uma investigação profunda e arrasadora das atividades da quadrilha de aloprados. E a Imprensa imaginou que a aliança com a Polícia, conquistada durante o defenestramento de Collor, fosse continuar intacta nessa nova investida. Mas não foi bem assim...

Além de estar nas mãos de um articulador e Ministro do partido, polícia é polícia. Quer dizer: o compromisso da polícia é prender e arrebentar a mando do secretário ou ministro da pasta. Assim como “beque que se preza não almeja o Belfort Duarte” (frase genial do zagueiro Moysés, do Vasco – aquele que quebrou a perna do Garrincha num jogo amistoso com o Flamengo), não há tira que ganhe medalha de honra ao mérito por delicadeza. “Liberdade” é palavrão para policial; prender é o seu ofício. Policial que não prende é frouxo, inepto; tira que não pressiona, não arranca, não amedronta, não impõe, não machuca, não serve prá profissão. E não há aliança que altere essa natureza intrínseca do “ser” policial – indivíduos que andam “na escuta”, que “dão uma de mandrake”, que entregam uns aos outros por uma promoção e cujo sucesso está na medida da “autoridade” que impõem.

De outra parte, Ministério Público é Ministério Público. Se há uma situação nebulosa ou que não permita uma entrevista sob holofotes, a Promotoria andará por outras partes mais proveitosas, caçando presas mais gordas e evidentes. Porque esse é o seu mister – acusar – e assim luzir. Pensem bem: (a) o que é mais vil – defender um culpado ou acusar um inocente?; e (b) o que é mais nobre – acusar um culpado ou defender um inocente? Enquanto a advocacia tem um compromisso com a nobreza, o Ministério Público se refestela, muitas vezes, na vilania. O que esperar dele, então, quando a Polícia persegue a Imprensa? Exatamente o que fez a Procuradora Federal presente ao constrangimento dos jornalistas – negar a pressão.

Meus colegas advogados e eu pensamos o seguinte, já há muito tempo: estamos vivendo tempos complicados e embicando para uma situação pior que aquela que vivemos durante a Ditadura. Se naquela época terrível era difícil advogar, mas advogava-se; hoje há um movimento claro no sentido de negar defesa aos acusados. Escritórios são invadidos, telefonemas de advogados gravados, tudo exatamente de acordo com a propaganda que nos impingem os marketeiros auxiliares do partido no poder. Juntou-se a impaciência da população em face da reconhecida impunidade com o interesse escuso dos que desejam provar-se santos e divinos algozes. Como resultado, apressam-se todos a condenar suspeitos ao arrepio do devido processo legal (aquele direito fundamental que o cidadão tem de se ver processado de acordo com as regras do procedimento penal, que lhe garante ampla defesa e sem o qual a Polícia poderia desatar a prender e arrebentar sem qualquer freio).

Felizmente já se ouve a gritaria provocada pela ação da Polícia no caso dos jornalistas da VEJA. Que esse episódio acenda o sinal vermelho (ou, pelo menos, o amarelo) para os formadores de opinião e representantes do povo. Como diz o poema de Eduardo Alves da Costa, muitas vezes atribuído a Maiakovski:

Na primeira noite eles se aproximam

e roubam uma flor

do nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.


[01nov06]


Referência e comentários ao sucedido pode ser encontrada nos seguintes sites:

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/presidente-pt-volta-atacar-midia-cuidem-suas-redacoes-que-cuidamos-pt-democracia-deles/

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u86311.shtml

Interessante notar o andar da carruagem que levou o Judiciário a calar o "Estadão" durante o episódio Sarney, no ano que passou.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Poema para Isa

meu pau/bala de alcaçuz/dentro de tua boceta/fervendo/derretendo/e não importam meus áis/a boca de groselha me dissolve/me chupa/e me devolve no meio de um jardim perfumado/num aquário...

25fev10