quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Amor é Mais Forte que o Orgulho?


Ouvindo a versão da Sade de "Love is Stronger than Pride" [http://www.youtube.com/watch?v=AAjtlI6YjOw], construí esse verso:

ouvi ontem baterem à porta

não era você

não era ninguém.

o som do relógio na parede confundiu-me

o mesmo relógio que fito agora

tiquetaqueando a tua ausência

por infinitos segundos minutos horas

a mesma ausência que dói-me

o coração a mente e cada parte de meu corpo

dor que é pedra

dor que cresce e toma espaço

e eu rocha dura e sem flexão

vou roendo a mim mesmo

moendo e remoendo

esse orgulho sem perdão.

Quem não experimentou a dureza do orgulho diante da generosidade do amor?

O significado do rancor é o de "fechamento em si"; enquanto o amor significa abrir-se para o mundo. Como exemplo, pergunto: quem, depois de uma boa foda, dessas dadas com afeto e entrega, não tem a sensação de ter o universo todo num copo? E, quem, com o orgulho ferido, não se fecha em copas e não planeja uma vingança (a aniquilação do outro)?

Sem muito refletir, eu diria que o amor é mais forte que tudo (aliás, muitas crenças são baseadas nisso). Entretanto, creio que o rancor (que é feito de pedra) fecha todas as portas ao amor. E tem sucesso. A única chance que tem o amor diante do rancor é se o rancor começar a partir-se, se o coração rancoroso abrir espaço para a dúvida e permitir receber o bálsamo, a cura, do amor.

Por último, pergunto: quantas pessoas conhecemos que extraem maior prazer de dizer não, de micar uma iniciativa, que de dizer sim, de propelir uma aventura.... Quantas pessoas não conhecemos que preferem dormir sós, fazendo o outro infeliz, do que ter uma noite de prazer e alegria compartilhada? Essa é a mesma força que nutre o rancor, parente próximo do orgulho.

Toda Sobrinha Merece

toda sobrinha merece

um tio

meio sonso

meio puto

mas há sobrinhas

divinas sobrinhas morenas

exemplares únicos da raça

que merecem um tio supersônico

um tio superpânico

um tio apesar dos pesares

um tio exclusivo

prá contar histórias e talvez

durante o fragor de alguma batalha

entre príncipes, reis, duques

e feiticeiros

aparar-lhes os desejos

beijando-as onde não deve beijar um tio

alcançando-lhes com a palma da mão

o interno das coxas sãs

e alisando-as onde se apertam

mas já se abrem

noivas todas...

que são

noivas de alguém que desconhece

que um tio

é um tio

é um tio...

Quem Resiste à Bahia?

Estamos em janeiro de 1938. Ari sobe o Pelourinho devagar, tomando fôlego, até que chega à calçada defronte ao Cruzeiro. Promessa é promessa, e este ano, mais que nunca, Ari precisa ficar bem com o santo.

Desde que as malditas espinhas começaram a aparecer, Ari prometera fazer um samba para o Senhor do Bonfim a cada ano. A Bahia, seus ritmos, perfumes, comidas e, sem dúvida, o requebro das mulatas inzoneiras, de muito haviam conquistado o afeto do compositor. Ari entendia que o Brasil sinfônico pulsava vivo e renovado no coração de Salvador. Amor maior, só por seu querido Flamengo, que viria a ser campeão no ano seguinte, com direito a locução histórica na Rádio Tupy.

Naquele verão, nem mesmo o terno de linho branco e o chapéu panamá lhe davam refrigério contra o calor de matar. Assim que tocou a pedra da escultura, Ari começou a descer a ladeira, em direção á Baixa. A meio do caminho, buscou a sombra de um bar e, mesmo sem ver a quem pedia, apontou para o reclame de cerveja. Chegou-lhe a garrafa de casco escuro e o copo liso quando os olhos já se acostumavam à penumbra. E lá estava ela, a musa.

Morena novinha e magrinha, a menina estava vestida na costumeira roupa de ração, com uma blusinha marota a lhe esconder os bicos insolentes. Sorriu, e depois riu, ao dar-se conta do olhar estagnado de Ari ali em frente, que nem encher o copo havia enchido. Pediu licença e começou a servir a cerveja bem devagarzinho, para não levantar muita espuma.

Ari começou uma conversa boba, como se fosse um parnasiano sassaricando à porta da Colombo. Nada bom. Aliás, de bom, só o riso da morena que, anos depois, ouvindo a história, Caymmi iria chamar de Marina.

Mas a verdade é que a Bahia é realmente surpreendente. Um desejo, e lá se faz o encontro entre o Anjo da Guarda e o dendê. E assim foi que, vendo nos olhos anteolhados a vontade de Ari, a morena tomou-o pela mão, encontrou um ponto de luz, desceu o decote, e mostrou-lhe os pequenos seios de alcaçuz. Ari logo acordou e começou a beijá-los, fazendo cócegas com o bigodinho na delicada pele da menina. Mais que depressa, assim como o desceu, a morena subiu o decote e espantou Ari para a rua, mesmo sem bicar a cerveja.

Aos tropeços Ari chega ao hotelzinho. Sobe as escadas gemendo de calor. Vai ao banheiro do corredor, urina e lava o rosto. E, decidido, fecha-se no quarto, pendura o paletó e desce os supensórios. Sobre a mesa estão o lápis e o papel onde anotara os primeiros compassos do samba deste ano. Ouvindo mentalmente a orquestra, ele escreve, após a introdução, “Na Baixa do Sapateiro, encontrei um dia...”.

[28out09]

Progresso

a cada letra que trocamos
corta-se com destra lâmina
a letra que atrás ficou
morto o Cordeiro de Deus
separamos as juntas
os artelhos
retiramos cuidadosamente as unhas
e fazemos de conta
que nada existiu antes do agora
e de cara limpa
programamos o amanhã.

Codinomes

Hoje de manhã assisti no YouTube ao clip de uma entrevista de rua do Paul McCartney, feita na tarde do dia em que John Lennon foi assassinado. Paul estava sem a máscara que o consagrou como artista solo e mostrou ser um peixe frio e ressentido. Talvez tenha passado pela sua cabeça o desejo de ter sido ele a ser alvejado na porta do Edifício Dakota – o que me levou a pensar na relação entre Cazuza e Frejat e a penitenciar-me por ser injusto com Frejat.

De verdade, gostava muito do Cazuza e fui ao último show dele. No Canecão dividi a mesa com duas mulheres desconhecidas, cuja emoção era tão visível como a minha. Tentei trocar algumas palavras, mas me respondiam com monossílabos. Ficou claro que estavam ansiosas para ver o espetáculo começar; e não em iniciar uma conversa boba e sem destino comigo.

Ouvi “Preciso Dizer que Te Amo” com o coração nas mãos. Anos depois, quando vi o filme “O Tempo Não Para”, a cena com Leandra Leal cantando esta canção remeteu-me para um mundo meu que não existe mais. Um mundo de amor arrebatado mas doce, sem nexo ou estrada, cujo compromisso era com ele mesmo, sem temer pela saúde, sem correr do dia seguinte. Queria partilhar esta sensação com as mulheres que dividiam a mesa, mas elas seguiam mesmerizadas pelas figuras no palco, plantadas em suas próprias experiências...

Num determinado momento aparece Simone, ainda bonita, e Cazuza e ela fazem um duo cantando “Codinome Beija-Flor”. A platéia parecia não ligar para o fato de ver repetida tantas vezes esta canção. No rádio, nos aparelhos de som, na cabeça, no ônibus. Talvez porque a repetição vire um mantra ou se torne a identidade de uma tribo. Desta vez, ao olhar para o lado, vi que uma das mulheres me olhava fixamente e, ao terminar o número, perguntei seu nome. Ela fez que não com a cabeça, como se dançássemos e eu tivesse errado o passo. Calei-me e continuamos a ver o show.

Cazuza cantou uma, e outra, e mais outra das canções que aprendi tanto a gostar – “Todo Amor que Houver Nesta Vida” (...matando a sede na saliva/ser teu pão, ser tua comida/todo amor que houver nesta vida/e algum trocado pra dar garantia...), “Vida Louca Vida” (“Vida louca/vida breve/já que eu não posso te levar/quero que você me leve”...), “O Tempo Não Para” e tantas outras, em seqüência.

Quando o show terminou e os aplausos foram morrendo, notei que a mulher que me olhara antes voltava a fixar os olhos nos meus. E convidei-a e à sua amiga para tomarmos algo. Disseram-me que moravam na Zona Sul e assim rumamos para um bar em Botafogo -- o Aurora, na Capitão Salomão. Lá sentamos e, antes de trocar palavras, cariocamente pedi um chopp e elas também.

Abertos os trabalhos, começamos a trocar idéias sobre o Cazuza e o show. Isto levou a que abríssemos nossos comentários sobre as maldades da vida e logo estávamos confessando sortes e azares. Soube, assim, que a desconhecida mais receptiva havia terminado um longo namoro e estava triste e só. Senti empatia pelo que me dizia, já que passava pela mesma situação, e sem mais comecei a citar uns versos de minha autoria. Algo assim como “...a cada poça d’água/que evitas/no teu caminhar tonto mas firme/vejo a lua distante/assim como distante estou de mim...”. Aplaudiram-me e me senti um tonto porque aqueles eram versos chorões, sem compostura. De toda maneira, havíamos encontrado a mesma base e foi com naturalidade que aceitaram o convite para ir à minha casa.

Já no táxi senti uma coxa morna contra a minha, numa intimidade que só a noite proporciona. Não me recordo qual das duas estava imprensada contra meu corpo, mas era bom, e deitamos as cabeças juntas até chegarmos ao meu endereço.

Subimos as escadas e, quando chegamos ao meu andar da casa, percebi que estavam as duas encantadas. É que o ambiente era mesmo mágico – não por força de alguma iluminação técnica ou de decoração estudada; mas porque aquela casa tinha sido construída com matéria de sonhos, devagarzinho, cada canto contando uma história e o todo harmônico servindo de guarda-chuva e abrigo a qualquer fantasia.

Ofereci vinho, coloquei um CD para tocar e logo estávamos dançando – eu e a desconhecida de olhar fixo – sob a mirada benevolente da outra desconhecida. Quando se acerta em música e movimento, a dança é um encontro diabólico de todas as configurações. Aos poucos rodopios fomos nos dançando para meu quarto, enquanto a outra mulher deitava-se no sofá da sala, na companhia de uma taça de vinho e metade de uma garrafa de Malbec.

Não me recordo exatamente dos detalhes do que houve no meu quarto. Mas sei que foi um encontro entre passado e futuro, com o presente bem ali, servindo de ponte concreta entre um e outro. Minha memória também resgata a leveza de minha parceira, seus olhos e sua nudez miúda, mas aconchegante. Resgata também um desmaio ao fim. E a luz do sol que me fez acordar esfregando os olhos.

Levantei-me e procurei pela casa. Haviam saído não sei a que horas. Fui à cozinha em busca de café e, sobre a pequena mesa encontrei um copo de suco de laranja coberto com um pires, tendo ao lado uma maçã partida. À frente do frugal café-da-manhã havia um bilhete: “Obrigada, Beija-flor. Te deixo um beijo. Borboleta.”

terça-feira, 1 de junho de 2010

O Código Moral do Candomblé

Sou um praticante do Candomblé. Minha experiência religiosa, entretanto, começou na Igreja Católica: freqüentei colégios católicos e cheguei a ser coroinha em três igrejas. Num daqueles colégios, fui apresentado à idéia de pecado. Minha relação com Deus era nutrida no medo; não no amor.

Na adolescência, por revolta, abandonei a Igreja Católica e declarei-me ateu. Fiz incursões racionais pelo panteísmo e condenei ou apoiei as religiões, em geral, em face de sua função social mal, ou bem, sucedida. Assim, mantive vivo e atualizado meu conhecimento sobre as organizações religiosas, seus rituais e mandamentos.

Já na maturidade encontrei minha espiritualidade. Esta descoberta ocorreu através da música e de um encontro casual. Da música, quando deixei de ser instrumentista para “fazer música”; do encontro casual quando fui convidado para assistir à festa de Ogun em uma casa de Umbanda. Poucas vezes me senti tão feliz como naquela noite em que fui à festa e a Mãe-de-Santo destinou-me a um dos atabaques.

Juntando minha epifania espiritual à prática de rituais fascinantes, acaba que fiquei adepto da Umbanda, fui “oborizado” (no caso, pode-se dizer “batizado”) e logo me tornei ogan da casa, freqüentando-a todos os sábados e batendo com fervor e alegria para os santos e demais entidades. Ça va sans dire que minha música teve sensível melhora e passou a dar-me um novo e melhor prazer.

Sucede que, ao fim de algum tempo, vi que meu destino não era ali. A Umbanda mistura o culto aos orixás com a disciplina espírita de Alan Kardec. As entidades que estão comigo apreciam o silêncio, a sutileza, a noite e a mata; minha racionalidade rejeita a existência do pecado e do Mal. Isso me fazia sentir fora de lugar e, por levantar um excesso de questões de base, fui sendo marginalizado.

Acabei visitando um barracão de Candomblé da Nação Ketu. E aí senti-me em casa. Fui novamente “oborizado” e, finalmente, “feito” (iniciado). “Yawô”, dei minhas obrigações de ano e três anos e, finalmente, ganhei a maioridade com a obrigação que tornou-me “ebomy”. Durante este tempo observei os complexos rituais da casa; pedi ajuda, conselho e explicação. Por outro lado, curioso, bebi em todos os livros que achei. Todavia, por mais que tenha me instruído sobre o Candomblé, tenho a convicção de que falta muito a aprender. Sempre através da mão gentil do meu babalorixá, dos mais antigos e de meus irmãos de santo; e seguindo meu coração.

A leitura sobre Candomblé é pautada por certo labor etnográfico e a descrição de ritos que compõem a vida de uma casa-de-santo. Dá-se prioridade às origens da religião africana e seu estabelecimento aqui e acolá, fruto do tráfico de escravos negros que grassou, no Brasil, do período Colonial até o século XIX. Descreve-se a cultura e a origem geográfica das diversas nações (Ketu, Angola, Jeje e outras). Fala-se dos orixás, suas características e seus “itans” (lendas). Foca-se nas vestimentas, no calendário, nas comidas, nas quizilas, nas ervas, nas saudações. Informa-se sobre o calendário das festas de santo e seu significado. Mas pouco ou nada se fala sobre os princípios éticos ou a filosofia do Candomblé. O público leitor, por outro lado, dá preferência aos fenômenos do oculto e deseja saber mais sobre esta coisa interessante que é a macumba.

O que me levou a uma reflexão sobre a ética e a filosofia do Candomblé foi a palavra dos mais antigos e o exemplo de meus irmãos de santo. E foi, definitivamente, uma necessidade de imaginar um sentido, uma idéia, sobre minha preferência pelo Candomblé.

Não levou muito tempo e forjei três princípios que considero básicos e que determinam minha escolha racional pelo Candomblé – que confirmam e reafirmam o sentimento que me preenche quando pratico o culto aos orixás. São eles:

Cuida do teu orixá.

Nenhum orixá é mais importante que o outro.

Todos têm um orixá. Portanto, entende e respeita teu próximo.

Cuida do Teu Orixá – Significa “cuida de ti mesmo”. Teu orixá é tua projeção divina, tua identidade mais sublime. É nele que encontras a tua verdade. E a tua verdade é teu guia. Quem tem os pés plantados na sua verdade, está em equilíbrio e harmonia com o cosmos, escolhe o certo e colhe o sucesso. De outra parte, nada é pior que a experiência de ter teu orixá virado de costas para ti.

Nenhum Orixá é Mais Importante que o Outro – O Candomblé ensina que cada orixá depende do outro e que não há orixá superior aos demais. Uns constituem energias complementares, que se reforçam; outros, energias antagônicas, que se equilibram. Ao peso inercial de Oxalá se opõe a força motriz de Exu; a argúcia de Oxosse completa a força unidirecional de Ogun. Pensar no panteão dos orixás é aprender que a vida em comunidade deve ser orgânica; é experimentar que todos dependem de todos, cada qual com seu valor, cada um com sua função.

Respeita Teu Próximo – Se todos somos sagrados, se todos somos filhos dessas divindades poderosas e diversas – os orixás – segue-se naturalmente que devemos respeitar a cada um e a todos com os quais convivemos. E o que é este respeito? Este respeito é o reconhecimento da força de cada qual, de suas qualidades e da valência que cada um tem, combinando-se com este e aquele para dar peso à força do grupo.

Como se vê, este é um código moral que encontra na prática – e na projeção da vida sagrada do dia-a-dia – o seu fundamento. Todos os demais preceitos, como aquele que diz que “não matarás”, incluem-se nestes três. E, ao verificar este padrão estritamente ético e tão familiar, aquieta-se o coração ocidental. Aqui só não tem lugar o demônio, porque não temos necessidade dele.


segunda-feira, 31 de maio de 2010

Imagens

Somos provocados por imagens desde que nascemos. A visão é um sentido privilegiado e sua comunicação com o cérebro, através do córtex occipital, mais rápida do que a de todos os demais sentidos.

Também o banco de memórias associativas da visão é dos mais ricos e a ele recorremos incessantemente, de forma voluntária ou induzida.

Meninos se estimulam preferencialmente pela visão. É importante para eles descobrir a imagem do sexo feminino – a começar pela nudez da mãe, das irmãs, das tias e das mucamas (ver “Casa Grande e Senzala” - Freyre, Gilberto – 1933). Revistas masculinas, filmes eróticos e experiências veladas são permanentes desde a adolescência até a vida adulta.

Não é de estranhar, para as mulheres, que homens lhes peçam para ver esta ou aquela parte de seu corpo. A negativa a tal pedido faz parte do jogo erótico. Assim como o uso de vestuário destinado a estimular o desejo masculino; sem, entretanto, atendê-lo. As transparências, os decotes, a lingerie, são artifícios utilizados pelas mulheres para provocar o jogo que leva os homens a pedir e as mulheres a negar.

Isto posto, devo confessar que gosto de imagens. Gosto de paisagens, quadros, fotos, ilustrações. Gosto de observar movimentos e de ver detalhes. Minha memória visual guia minha imaginação e meu desejo. Não há como fugir de sua permanente sede e sua renitente provocação. Por isso mesmo tornei-me desde sempre um pedinte, vulnerável ao “jogo do não”. A demandar que me mostrem a fatia lunar de um seio, ou um precipício de impenetráveis prazeres...