quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Não Acredito em Macumba

Faz tempo que reflito sobre o poder dos trabalhos da macumba, também conhecidos como “despachos” – conjunto de elementos (como velas, panos, comida, etc.) oferecidos para a obtenção de algum favor dos orixás ou outras entidades. Mais e mais tenho tomado uma atitude de descrença no que se refere à serventia objetiva dessa prática. Toda vez que alguém me diz que fez um despacho para conseguir isso ou aquilo, recordo-me dos pombos de Skinner e de seu inútil comportamento supersticioso...

Semana passada alguém perguntou-me sobre a eficácia de determinado despacho. Respondi que sou macumbeiro, mas não acredito em macumba. E é verdade. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá, da qual absorvo a sabedoria relatada nos itans. Leio e re-leio com paixão obras etnográficas como o “Ewé”, de Pierre Verger, que traz um longo receituário de trabalhos. Mas não acredito em macumba.

Acredito que a maior parte de nossos problemas reside em nosso próprio comportamento e em nossas atitudes. A outra parte – pequena, mas eventualmente de grande impacto – está no imprevisível, no ponto fora da curva.

Entendo que essa postura é decepcionante para os que recorrem aos rituais da macumba para “abrir caminhos” ou proteger-se de algum feitiço. Ou para aqueles que desejam testemunhar as curas, os fenômenos paranormais, os “sinais”, os transes. Ou para aqueles que temem o poder sobrenatural dos despachos. Mas é assim que respondo quando me consultam.

Acredito na macumba, porém, como um ritual que me coloca em contato com minha egrégora e me faz sentir incluído na cultura religiosa da qual faço parte. E acredito na macumba, também, como via de colocar-me em contato com meu orixá, de manter o fio que me une ao meu “eu espiritual”.

Num caso, incluo a dança, a música, o ritmo dos atabaques, as rezas e cantigas, as festas, os toques, os xirês, os candomblés – todas as manifestações que fazem parte do universo religioso que me inspira.

No outro, incluo todos os elementos – objetivos e subjetivos – que me dizem quem sou eu: os meus fios de contas, os assentamentos de meus orixás, os meus amuletos e meus altares, os meus mantras e os meus pensamentos. Todos eles formas de concentrar minha vontade, minha fé, para alcançar a comunhão com o divino.

Quando perguntado, aconselho que se evite as fórmulas ritualísticas que “garantem” o conseguimento disto ou daquilo, como os despachos de encruzilhada que exigem, apenas, que se use tal pano de tal cor, tal animal sacrificado, tal vela, tal bebida. Estes são elementos votivos que, sem a fé, o coração e o espírito, nada irão trazer, não importa quão bem esteja seguida a “receita”.

Digo que é extremamente frustrante gastar tempo e dinheiro investindo na expectativa de alcançar alguma graça através de um despacho copiado. E afirmo que o que resolve mesmo é analisar seus passos e tratar de aproximar-se de seu orixá através de conhecer melhor a si mesmo, assim encontrando o elo que projeta sua identidade ao seu eu divino.

Por outro lado, acredito na celebração, no agradecimento, na dança dos orixás e no cuidado com o axé. Acredito na força que estas manifestações trazem porque as sinto, as vivencio. Saúdo com alegria a presença dos orixás e dou ossé no ibá do meu santo. Dou minhas obrigações regularmente e me sinto muito bem no runcó de minha casa. Como babá efun, tenho cargo e função na preparação dos yawôs, além de cumprir outras funções do ilê. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá. Vivo, enfim, a experiência de ser um ebomy que caminha com os orixás, trabalha para sua casa e respeita a religião que me escolheu e acolheu.

Sim, não acredito em macumba. Mas, como se vê, sou macumbeiro.

Axé.

09SET10

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ética do Candomblé - Reciprocidade e Gentileza

Oxalufan de Carybé


Estava no início d’ “As Águas de Oxalá”, livro de José Beniste [*], quando me surpreendi com o título de um capítulo – “O Legado Ético do Yorubá”. Sempre tive para mim que a ética do candomblé baseava-se apenas em dois mandamentos: cuida de teu orixá (e, portanto, cuida de ti); respeita o orixá do próximo (e, portanto, respeita o próximo como a ti mesmo). É interessante ver, entretanto, como Beniste associa a conduta espiritual à moral e ao costume entre os yorubás, mostrando a interligação forte entre crenças e comportamentos. Relendo aquele capítulo, observo que os dois mandamentos em que acredito estão ali desdobrados em regras quotidianas que comandam todas as atividades de uma comunidade: da educação dos filhos ao trato da morte e suas conseqüências.

Por aquela leitura percebe-se que os mandamentos do Candomblé de Keto geram aquela prática que alguém – possivelmente Nei Lopes – chamou de “a mão gentil do Candomblé”. É fácil entender que, vivendo em comunidades menores, a reciprocidade – que vem a ser o mecanismo de trocas e a teia de obrigações econômicas e sociais que garantem a coesão e a subsistência do grupo – exige que todos se tratem com gentileza. E como essa gentileza faz falta no mundo de hoje!

A riquíssima ritualística do Candomblé é o reflexo da reciprocidade exigida do povo do santo, em vários graus e atividades, seja na forma de ebós (oferendas aos orixás) ou na expressão à hierarquia dos membros da comunidade; hierarquia que exige, de um lado, o respeito dos mais novos aos mais antigos e, de outro, o respeito dos mais antigos aos mais novos.

A reciprocidade das relações entre o povo do santo constitui uma teia de obrigações e direitos que envolve não só o plano da nossa existência no Ayê (mundo físico), mas também o plano espiritual (Orun). Desta forma, a harmonia de uma casa (Ilê Axé), depende de uma estrutura hierárquica e de um respectivo rol de funções, todas interdependentes. Assim, ter um “cargo” numa casa significa ter o direito a exercer uma função, mas também a obrigação de desempenhá-la. Todos, desta forma, do babalorixá (zelador ou pai-de-santo) ao mais novo yaô (iniciado) estão envolvidos na cadeia de reciprocidade e gentileza que deve predominar na atividade religiosa. Agora imagine-se o desbordamento desse conjunto harmônico por todos os aspectos da vida comunitária e teremos, então, a imagem ideal de um grupo social em que os indivíduos estarão bem próximos ao parâmetro de omoluwabí (bom caráter em todos os sentidos da vida, cf. Beniste, citado).

Voltamos, neste ponto, às duas máximas que mencionei no início: cuida de ti; e respeita teu próximo como a ti mesmo, para colocá-las em linguagem ocidental. Estes dois mandamentos, vividos na vida prática através da gentileza consigo mesmo e com os demais, podem ser responsáveis por uma melhora substancial da qualidade de nossa existência.

Axé!

[*] Beniste, José – “AS Águas de Oxalá – Awon Omi Oxalá – Bertrand Brasil, Rio, 5ª. Ed., pp. 35 a 41.

03SET10

quinta-feira, 26 de agosto de 2010



Peça e ferro da Idade do Ferro
ah, de quantas maneiras
eu já me ferrei
ao acreditar em palavras
cifras e emolumentos
ao desdenhar o óbvio que me demonstram
a Física, a Química e a Matemática
do ENEM.

ah, de quantas maneiras
eu me ferro
ao ser assediado
por sinônimos
pistas e sinais
que me enviam para lá
quando o que vale está ao lado.

ah, de quantas maneiras
eu ferraria
aquela boceta amada
que nada mais é do que
a parte príncipe
da mulher que é tudo.


26AGO10

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sincronicidades - Raças


Já era a terceira vez que o pai, bruto, a empurrava. A cada vez parecia mais furioso. A menina conhecia a seqüência quando o pai bebia e tratou de sair antes que apanhasse..

Até da mãe ir embora, o pai conseguia ser carinhoso com ela e a irmã. Agora era isso: chegava do trabalho, às vezes já bêbado; começava a esbravejar e a xingar a mãe ausente; e depois era a vez delas – as agressões verbais primeiro, depois as físicas. Até que cansasse e caísse no sono, quase sempre no sofá.

Lá fora estava frio e ela estava com fome. Mas não voltaria para dentro antes do pai dormir. A irmã era maior de idade e conseguia salvar-se na casa do namorado. Mas ela ainda não – teria que esperar mesmo no frio.

A rotina de maus tratos levou a que ficasse mais e mais introvertida. No colégio passou a ter um rendimento sofrível. Uma professora mais sensível acabou por entender a razão da menina não ser pontual com as tarefas de casa e dormir durante as aulas. E ajudou-a. Conhecia uma família de oriundi generosos que não negariam guarida.

O pai pouco ligou que se mudasse. Sozinho, não teria que ficar lembrando da ex-mulher cada vez que olhasse para uma das filhas. Seguiu bebendo até que um dia foi atropelado, morrendo no local. As meninas, quando souberam, já estava enterrado. Choraram um pouco e repartiram o parco montante do seguro recebido pela mais velha, que também encarregou-se de esvaziar o pequeno quintal, mudando-se para a casa do namorado. Nomeada tutora da mais nova, não se opôs a que fosse definitivamente acolhida na casa de um Brindisi.

Yolanda dos Santos era uma menina negra de doze anos quando foi morar com “os italianos”. Cumpria as tarefas menores da casa e era bem tratada pelos patrões, que deram um quartinho só para ela. Logo melhorou seu rendimento no colégio. Ficou mais esperta e alegre. Com a sua parte do seguro e seu ordenadinho pôde comprar algumas roupas e coisinhas de adolescente. Tinha um belo rosto e um corpo bonito, precocemente desenvolvido.

Entre suas tarefas estava cuidar da menina Luiza, uma mesticinha meio italiana e meio índia guarani. Quando a mãe apresentou sua nova babá, Luiza tinha quatro anos. As duas se deram bem desde o momento em que se conheceram. Era uma rir e a outra rir também, sem motivo. Brincavam juntas, corriam, pegavam. E tudo que Luiza se recusava a fazer, tudo que imploravam para que fizesse, Luiza fazia se Yolanda pedisse. De quebra, a pequena babá protegia Luiza da zanga dos adultos, escondendo levadezas, limpando sujeiras, dizendo que havia comido tudo e até pedira mais. Fato era que Luiza era uma menina arredia e inquieta, que gostava da Natureza e de enfrentar os mais velhos. Diferente das priminhas obedientes, que sempre pareciam saídas do banho, com os cabelos escovados e a roupa permanentemente passada.

Com o tempo, os patrões foram confiando mais e mais Luiza à babá. Passaram a aproveitar as noites para sair e, às vezes, passavam um ou dois dias fora, em Novo Hamburgo ou Porto Alegre. Quando não estavam, Luiza dormia no quartinho de Yolanda. Eram noites de grande preparação. Havia as brincadeiras, o banho e depois as histórias. Depois dormiam agarradas, como se sentissem muito medo ou tivessem muito frio.

Yolanda já tinha corpo de mulher; embora os seios fossem pequenos, os músculos eram bem desenvolvidos, e tinha as pernas, as nádegas e os braços rijos, embora roliços. Luiza, perguntava-lhe tudo e queria apalpa-la, sentir a carne por baixo da cor negra. Na hora de dormir costumava enroscar suas pernas nas de Yolanda, até sentir os pelos arranhando; gostava também de aconchegar-se com a mão nos seios da babá. Às vezes apertava-lhe tanto os bicos que Yolanda reclamava e chorava, mas deixava. Luiza sentia uma ponta de prazer ao dominá-la e fazer com que deixasse que a machucasse.

Luiza masturbou-se, pela primeira vez, aos sete anos e, aos oito, pedia que Yolanda o fizesse nela ou junto com ela. As noites em que passavam juntas ficaram mais direcionadas e conduzidas através da mesma rotina – masturbavam-se, se enganchavam e, quando terminavam ficavam olhando-se no espelho do armário, observando o contraste da pele negra de Yolanda e a muita alva de Luiza. Yolanda, até então, não conhecera homem. Mas sentia pulsões dolorosas quando via um rapaz mais bonito, ou quando o patrão lhe dirigia olhares de soslaio.

Um dia Luiza e Yolanda souberam que haveria uma grande festa para comemorar o aniversário do bivô Carlo Brindisi. Muita gente viria para o jantar; alguns dos parentes até ficariam na casa, inclusive uns Brindisi do Rio de Janeiro e um sobrinho argentino, conhecedor de vinhos. A excitação tomava conta de todos, patrões e empregados. E Luiza e Yolanda não fugiam à regra, trocando risinhos a cada comentário sobre os parentes desconhecidos.

Carlos, seus pais e seu avô foram os primeiros a chegar. Yolanda logo notou o olhar que o menino lançou para Luiza. Os dois tinham a mesma idade, mas Luiza parecia bem mais desenvolvida do que Carlos, embora Carlos fosse maior que ela. Logo se tornariam companheiros de travessuras, passando longe da vista dos pais boa parte do dia.

Em seguida chegou o primo argentino. Um louro, alto, com jeito de senhor de si. E aí o coração de Yolanda bateu forte. Em um dado momento trocaram olhares, e ela soube, com absoluta certeza, que ela seria dele. Não era à toa que um pai-de-santo lhe havia dito que era filha de Nanã.

A noite transcorreu como deveria. O patriarca Umberto Brindisi não cabia em si de ver tantos descendentes juntos e felizes. Cantou-se, bebeu-se e comeu-se à farta. Os brindes e discursos se sucederam num ambiente de grande alegria. Yolanda, envolvida com os serviços de mesa, não deixou de observar as estripulias de Luiza e do menino Carlos, que se esconderam debaixo da mesa. Nem de notar o sorriso que lhe voltava, vez em quando, o argentino.

Mais tarde, depois que a festa serenou e o convidado argentino foi liberado de atenções, Yolanda entabulou com ele uma troca de sinais que indicava a cozinha como local de encontro, em uma hora mais.

Encontraram-se à hora marcada e, sem palavras, beijaram-se. O argentino, por usar bem o nariz, tratou de sentir o perfume da pele de Yolanda; e Yolanda, por precisar muito, tratou de ouvir-lhe o peito. Em breve estavam se abraçando com força, e se esgueirando para o quartinho de Yolanda.

O argentino mal cabia na cama. Na verdade, não sabia o que fazer. Durante todos os anos de sua juventude dedicara-se ao negócio da família em Mendoza, e deixara a fornicação para o irmão Aldo. Era a primeira vez, portanto, que estava com uma mulher. Por sua vez, Yolanda era muito jovem e desconhecia o que fazer com um homem. O desejo, entretanto, venceu a inexperiência. Quando viu a bela negra totalmente nua à sua frente, o argentino libertou seu corpo para que fizesse o que fosse. E assim copularam: pela primeira vez de frente, com o argentino entrando pelo meio das pernas de Yolanda, deflorando-a com vigor; e depois mais devagar, subindo Yolanda sobre ele, empalando-se e comendo-o ao mesmo tempo.

Estavam cansados para tentar outras posições. Passaram um tempo aconchegados, como nos filmes de que Yolanda gostava. Depois decidiram que era melhor que o argentino fosse para o seu quarto. Despediram-se carinhosamente e o argentino, em voz baixa disse que seu nome era Nicoló. Yolanda respondeu “Eu sei...” e disse-lhe o seu, antes de abrir o sorriso que ficaria guardado na memória dele, fechando a porta em seguida. Cuidadosamente.

Na manhã seguinte Nicoló dava a Yolanda um adeus mal-disfarçado e partia de volta para Mendoza. E Luiza e Carlos corriam pelo quintal e embrenhavam-se pela ribanceira do rio. De alguma forma o coração de Yolanda estava leve e feliz com os últimos acontecimentos...

17AGO10

Sincronicidades - O Pianista


Picasso - Fase Azul

Não pensava que a vida de músico seria tão difícil em São Paulo. Muitos estavam desempregados ou viviam na corda bamba dando aulas a trinta reais. Poucos conseguiam um emprego estável – ainda assim mal remunerado – e os concursos públicos eram um funil absurdo.

Durante as primeiras semanas abrigou-se num albergue. Até que conheceu um outro artista em dificuldades na roda da sopa. Conversaram sobre seus problemas e acabou que Michel, o pianista, passou a dividir uma kitchinette com Mathias, o pintor, em troca de alguns caraminguás.

Não havia cama para Michel, de modo que teve que dormir no chão, sobre alguns cobertores velhos. Era tudo muito deprimente. Não bastasse isso, Mathias era um chorão que vivia reclamando da via crucis para  vender suas obras nas galerias da cidade – todas dominadas por mulheres belíssimas, mas frias e irredutíveis. E principalmente chorando pitangas quando falava de uma tal Mercedes, sua musa e grande benfeitora. Às vezes simplesmente lamentava a ausência dela; às vezes ia mais fundo em sua mágoa, atribuindo à musa uma certa maldade por havê-lo seduzido e depois abandonado. Em troca, Michel uma vez contou a Mathias sobre a paixão que devotara à madrasta e o final trágico que precedeu sua vinda de Cunha para São Paulo, quando o pai pegara os dois em meio a uma cópula vespertina.

Nas horas em que ouvia os solilóquios melancólicos de Mathias, ele recordava-se do episódio de Cunha. Via no escuro o rosto ensandecido do pai e o corpo machucado de Olga. Sentia vergonha por haver pulado a janela espavorido, e chorava baixinho de remorso e de saudade. Um dia Mathias mostrou-lhe o quadro que pintara de Mercedes, pedindo-lhe que nunca comentasse o assunto. Mercedes era a expressão de Afrodite, uma dessas plêiades que seduzem tanto humanos como deuses; e o quadro, em si, mostrava talento, talvez genialidade. Mas deste capolavoro Mathias não desejava abrir mão, preferindo guarda-la para si que perdê-lo para outro.

A rotina de miséria e choradeira teve fim quando Michel arranjou emprego numa cantina. Primeiro como garçon, depois como pianista. Mudou-se rapidamente para um apartamentinho na Mooca, mas comprometeu-se a não perder contato e, quando fosse necessário, ajudar o amigo.

O pianista era muito bom mesmo. Tocava com desenvoltura os sucessos do momento, assim como músicas de décadas e gostos distintos, sempre com os acordes e as levadas que conferiam legitimidade às suas interpretações. Os clientes passaram a freqüentar a cantina mais para ouvir Michel que para degustar massas e vinhos. Aumentaram-lhe a paga e pode mudar-se para um apartamento de quarto-e-sala na Moema. Lá, se enfurnava e fornicava com clientes cujo desejo ultrapassava ouvir os sons melodiosos que produzia no piano.

Um dia, uma das clientes que visitava com regularidade o apartamento da Moema, apresentou-lhe um amigo, e este amigo ofereceu a Michel o emprego de pianista “da casa” em um bar de blues e jazz. Michel agora havia recuperado o amor-próprio e, de quebra, ganhava bem para tocar o que mais gostava. Estava feliz por não mais ter que tocar "New York, New York" ou "alguma coisa do Roberto Carlos".

Um dia, mais à vontade para ter contato com o passado, Michel vai a um cyber café e abre seu e-mail encardido. Tem medo de ter perdido seu gmail, mas lá estavam, intocadas, dezenas de mensagens não-lidas. Foi lendo algumas e apagando direto a maioria. Entre as que resolveu ler estavam as de Luiza Brindisi, sobrinha de sua madrasta, que passara um mês em Cunha. Luiza relatava o que havia acontecido com sua tia e perguntava onde Michel se encontrava e como estava indo; em outras mensagens lamentava a falta de respostas; em outras, ainda, pedia conselhos sobre a carreira musical que recém-iniciara em Ouro Branco.

Colhido de surpresa pela dor que sentiu ao saber que Olga perdera uma das vistas e que o pai fora condenado e estava mudo e catatônico desde o dia da desgraça, Michel respondeu à Luiza somente depois de passadas algumas semanas. Quando o fez, nada falou sobre Olga, seu pai ou si mesmo. Limitou-se a responder às indagações sobre a profissão de músico e discorreu um pouco de sua experiência em São Paulo.

Luiza, então, percebendo a porta aberta, multiplicou a quantidade de e-mails. A cada resposta ou conselho, enviava outras tantas perguntas. Anexava arquivos MP3 e fotos em JPG, e refletia sobre novos planos que variavam entre montar uma nova banda a prosseguir sozinha, cantando onde tivesse oportunidade. Michel divertia-se muito com os e-mails da “prima”, cuja verve era sincera e profusa, a cara tão linda quanto se recordava e a voz muito boa. Enviava de volta outros arquivos MP3, com suas últimas gravações.


A troca de e-mails foi ficando mais intensa e os dois “primos” passaram a depender da correspondência para discutir seus problemas e achados. Contudo, Michel  tinha medo de cansar Luiza e perde-la. Afinal, ela mesma confessara que se desinteressava rapidamente das pessoas.

Assim, e antes que a água lhe chegasse aos joelhos, Michel atendeu a um último e-mail de Luiza, dando-lhe o endereço do bar em que tocava e o nome da pessoa a quem procurar. Não acreditava que Luiza tivesse a coragem de viajar para São Paulo, em busca da duvidosa e árdua carreira que ele tratara de desestimular. E daí em diante não mais respondeu aos e-mails que lhe chegavam de Ouro Branco.

17AGO10

domingo, 15 de agosto de 2010

Sexo Virtual - Vida e Morte


Menina e Pauzudo conheceram-se numa sala de bate-papo do Terra. Aos poucos foram trocando mensagens no reservado e logo evoluíram para o Orkut; e daí para o MSN.

Não passava dia sem que, logo de manhã cedo, Pauzudo enviasse uma mensagem galante para Menina. E não passava dia sem que Menina enviasse um “depo” agradecendo e dizendo palavras meigas para Pauzudo. Ambos eram casados e lutavam contra a dificuldade dos horários livres entre o trabalho e a casa; e a internet lhes oferecia um meio de dar a volta nesses obstáculos.

Pauzudo e Menina também achavam que a internet lhes permitia a troca segura de fantasias. Muitas vezes, entretanto, a conversa tornava-se séria, com um e outro confessando algum problema ou dizendo que esperava muito que se conhecessem pessoalmente.

As conversas foram evoluindo e, do tati-bi-tati das insinuações, passou à referência escrachada de preferências e desejos. Menina foi revelando uma fome insaciável e Pauzudo, de sedutor, passou a provocador constante; ela postava fotos sensuais no seu perfil e ele as comentava, dizendo-se sempre excitado.

Em breve estavam se vendo na webcam. No início ainda tímidos, com o tempo passaram a mostrar-se e a exercitar-se na arte de excitar um ao outro. Até que um dia começaram a masturbar-se diante das câmeras, num processo que combinava voyeurismo e exibicionismo.

Menina tem os seios volumosos e Pauzudo um pau bem disposto. De modo que as cenas de sexo virtual se desenvolviam com o uso estes atributos. Pauzudo dizia: “Isso, Menina, tira esses peitos pra fora... Isso... agora puxa esses bicos... machuca... puxa mesmo... ahhh...” E Menina retrucava: “Quero ver esse teu pau, vai... mostra esse pau, cachorro... isso... bem duro... quero ver você esporrar!... áiiiii”. Terminavam normalmente com Pauzudo tendo que se limpar e Menina mostrando-lhe os dedos melados, recém tirados da boceta. Um observador que pudesse vê-los neste momento diria que eram experientes de outros carnavais, embora afirmassem, um ao outro, que esta era a primeira vez.

O tempo é o senhor da razão. E tanto Menina quanto Pauzudo, mesmo enlaçados um com o outro, construíam seus “networks” de amores. Pauzudo corria atrás de uma tal de Tetéia, enquanto Menina respondia maliciosa aos galanteios de um tal de Guri. Isto para falar do pessoal da primeira fila de cada um... E com o tempo Menina foi descambando para os lados de Guri, atrasando-se, ora caindo sem aviso e não voltando, ora faltando aos encontros com Pauzudo; e Pauzudo, sempre gentil, ia aceitando as desculpas de Menina e devolvendo o mesmo comportamento, enquanto cafungava o cangote de Tetéia.

Até que um dia, saciados daquele pote de mel, Pauzudo e Menina tornaram-se apenas amigos, enviando-se “ois” e “olás” que dispensavam respostas. Ambos desenvolveram novas habilidades com novos parceiros: Menina agora exibe a boceta e o rabo para um tal de Joel e Pauzudo faz seções de strip para uma tal de Dengosa. Os dois seguem se masturbando e gozando pela rede afora; e, embora sintam afeto momentâneo pelos homens e mulheres de quem são parceiros, não lhes passa pela cabeça aceitar de verdade um convite para um encontro “na real”.

15AGO10

sábado, 14 de agosto de 2010

Sincronicidades - "Lluvia de Piedra""


Granizo
Nicoló Brindisi levantou-se muito cedo. Às sete e meia da manhã de um dia de Inverno, ainda noite, rumava para a finca dirigindo o seu velho Ford Falcon e maldizia o governo da província por ser tão fraco diante das decisões vindas de Buenos Aires. Precisava muito de crédito público subsidiado, sem o qual não seria capaz de comprar a rede anti-granizo necessária para cobrir, ao menos, um terço do vinhedo. Havia tomado “lluvia de piedra” no ano anterior, perdido muitas plantas e muita uva. Este ano não resistiria se lhe sobrasse, mais uma vez, esse presente dos céus. Conhecia o intenso sofrimento dos vinhateiros de San Rafael, freqüentemente premiados com excesso de chuvas ou quedas intensas de granizo e se envergonhava de desejar que fossem eles os atingidos, e não ele.

Quando o pai de Nicoló, Dino Brindisi, chegou à Argentina, no final dos anos trinta, ficou maravilhado com a extensão do país, a quantidade e a qualidade de terra não cultivada, e decidiu abandonar o ofício de oleiro para dedicar-se ao cultivo de frutas. Primeiro, atraído pela quantidade de oriundos, rumou para a Patagônia Argentina, estabelecendo-se em Neuquén. Ali, chegou a cultivar pêssegos e maçãs. A concorrência, entretanto, era muito conservadora e não o animou a ficar. Mudou-se, então, para Mendoza, passando ao cultivo de uvas viníferas, primeiro como encarregado de um pequeno vinhedo no vale do Uco e, depois, como co-proprietário de um vinhedo de 35 hectares na mircro-região de Alto Agrelo. Em muito foi ajudado pela Signora Alda, nascida Ricchieri, -- a quem conhecera no navio que o trouxera da Itália – esposa e parceira que administrou, com muita sabedoria, as finanças do casal, além de dar a Dino dois filhos – Nicoló e Aldo.

Com o passar tempo, muito trabalho, e graças à habilidade financeira de Alda, Dino expandiu os negócios. Além de comprar terrenos vizinhos, todos com os devidos direitos de água, investiu na construção de uma bodega, equipando-a com o suficiente para a produção própria, iniciada com a assistência do compadre Jorge González, um experiente enólogo. Jorge, um bom amigo, já vinha dirigindo a produção de vinho de Dino em bodegas de terceiros e dera suporte a Dino na venda do vinho no atacado.

Muito antes de seu primeiro ano como produtor de vinho, Dino já conhecia as variedades em que deveria concentrar seus esforços. Ouvindo bem o que os compradores de uvas desejavam, observando com atenção os rótulos disponíveis nos restaurantes, lendo os jornais de Mendoza e, sobretudo, conversando muito com proprietários, bodegueiros e enólogos, Dino decidira dobrar o número de carreiras de Malbec, aumentar o número de carreiras de Cabernet Sauvignon, manter as carreiras de Merlot e plantar alguma coisa de Chardonnay. Esta última decisão por insistência de Alda, que o convenceu a ter uma variedade de primeira colheita para antecipar caixa. Com a vinificação de suas uvas em bodegas de terceiros, Dino preparou-se para ter uma produção de vinho que não iria depender de terceiros, em sua bodega.

A atividade do vinhateiro, entretanto, depende não só da sua capacidade de trabalho, da sua inteligência e espírito empreendedor, da disponibilidade de recursos e do mercado. Depende principalmente de variáveis não controláveis, como a meteorologia, e de algo que só o decurso do tempo provê, como a experiência de muitas e muitas colheitas e o envelhecimento das plantas. Assim, Dino teve que lidar com alguns revezes, tão mais sérios quanto fosse o despreparo para antecipa-los e mitiga-los. E, para, supera-los, novamente foi importante a família e a rede de relacionamentos de Dino.

Além de Alda, Dino podia contar com o ombro e a diligência de Nicoló, o primogênito. Nicoló desde pequenino interessara-se pelo que fazia o pai, acompanhando-o por toda a parte. Assim, muito cedo aprendeu os segredos do vinhedo, da lida com a terra, com as uvas, as pragas e a poda. Mais tarde, já rapaz, foi introduzido à elaboração de vinhos pelo padrinho Jorge González, tornando-se gerente da recém-inaugurada Bodega Brindisi aos dezenove anos. Junto com o pai comprava, vendia, lidava com o encarregado da finca e com os peões da época da colheita; com Jorge acompanhava todo o processo de preparação do vinhedo e de vinificação e guarda na bodega. Não tinha tempo para qualquer outra distração que não fosse o vinhedo e o vinho.

Já Aldo, o caçula dos Brindisi, era um fantasista distraído. Por certo acompanhava o pai aqui e ali, mas preferia a companhia da mãe, louvando-se em Matemática desde os tempos de colégio. Só que nada de prático saía das mãos de Aldo; preferia lidar com equações e problemas matemáticos, tendo passado meses enfurnado com a demonstração do Teorema de Fermat. Também gostava de olhar os céus e ler sobre fenômenos celestes. Sua única incursão nos negócios do pai deveu-se a um investimento equivocado, feito na compra de um canhão antigranizo destinado a bombardear as nuvens com catodos, interferindo na formação de cristais. Tal instrumento, de efeito bastante duvidoso, fora utilizado no passado, e depois abandonado, pela maioria dos proprietários, em prol do uso de redes anti-granizo estendidas sobre as videiras.

Embora tido como um fracasso na família, Aldo era um sucesso com as jovens de Mendoza, gastando bem a mesada que lhe destinava a mãe. Dançava, cantava e entretinha os amigos com suas teorias baseada numa tal Matemática do Improvável. Comunicativo, buscou e manteve contacto com os Brindisi do Brasil, que passou a conhecer quando revirava uma caixa de papelão onde se encontravam fotografias e cartas que o pai guardara. Com certa constância se correspondia com os filhos de Umberto Brindisi, que viviam em Ouro Branco, no sul do Brasil; e insistia que viessem visitar Mendoza, enquanto os de lá insistiam para que viesse conhecer o Brasil. Dino e Alda divertiam-se quando liam as cartas e viam as fotos dos Brindisi de Ouro Branco e de outros Brindisi que ficaram no Rio de Janeiro. Mas não tinham tempo ou recursos para mais nada que não fosse o negócio dos vinhos.

E enquanto Nicoló tomava decisões junto com os pais sobe os vinhos a elaborar, Aldo namorava as moças de Mendoza e observava os céus; enquanto Nicoló definiu que os Vinhos Brindisi tinham que firmar-se no mercado de varietais, deixando de lado os cortes, Aldo acumulou dados sobre o mapa celeste de Mendoza e emprenhou uma tal de Pilar, “La Rubia”, após uma tarde ouvindo Charly García no Parque San Martín. Era o início da década de 80 e o fim do ciclo militar trazia à Argentina um forte sentimento de modernização e renascimento. E foi dessa forma casual que Dino e Alda tornaram-se avós de Rafael Brindisi, um lourinho saudável que nasceu com 4 quilos e meio, medindo 55 centímetros.

Pilar e Aldo não se casaram, mas ela e o menino Rafael foram viver na companhia dos Brindisi. Pilar era muito jovem e ficava feliz por poder deixar Rafael sob a guarda da avó, enquanto saía com as amigas. Em contrapartida, Aldo abandonou a vida que levara e foi dedicando-se, cada vez mais, à Astronomia e ao radioamadorismo, sua mais recente paixão, passando a conversar diariamente com um primo de Ouro Branco, um tal de Tadeu Brindisi. Foi assim que soube da existência de uma outra família, que havia vindo da Itália no mesmo vapor – os Babinski. Józej Babinski, o polonês amigo de seu pai e de seus tios, teria testemunhado o chamado “Evento de Tunguska”, atribuindo-lhe um sentido que deixou Aldo no mínimo curioso.


A amizade entre Tadeu e Aldo tornou-se intensa, tanto mais que os dois partilhavam um interesse comum: os corpos celestes, suas órbitas e significados. Aldo, o mais bem preparado e de mais iniciativa, já havia entrado em contato com o Spacewatch, grupo de pesquisadores da Universidade do Arizona, que mantinha constante observação de meteoros, estrelas cadentes e cometas. Assim, em 1993, fora um dos primeiros a saber que um meteoro de grandes proporções poderia estar em rota de choque com a Terra, possivelmente ao Sul da América do Sul. Imediatamente repassou a notícia a Tadeu e iniciou um movimento em Mendoza, logo rebatido em Ouro Branco, para organizar o êxodo em direção a regiões de menor risco. O catastrofismo que se seguiu teve imediata repercussão mas, felizmente, dois equívocos importantes foram corrigidos: a órbita do meteoro foi corrigida, devendo ele passar bastante longe da Terra; e somente em 2.028! De qualquer maneira, o evento serviu para estreitar ainda mais a amizade entre os primos. E Aldo prometeu a si mesmo que visitaria Ouro Branco tão logo pudesse.

Mas não foi Aldo o primeiro dos irmãos a visitar o Brasil. Atento ao mercado internacional, Nicoló, que tomara a frente de toda a área comercial da Bodega Brindisi, resolveu viajar ao Brasil antes que o século XX chegasse a seu fecho. Havia provado vários vinhos brasileiros e chegado à conclusão pessoal que os argentinos eram muito superiores, em preço e qualidade. As regras do Mercosul favoreciam a exportação para o Brasil e Nicoló estava disposto a encontrar um distribuidor brasileiro para toda a linha dos Vinhos Brindisi. Primeiramente, esteve no Rio e São Paulo; em seguida visitou a concorrência no Vale dos Vinhedos e resolveu tirar o fim-de-semana em Ouro Branco, para conhecer a “família brasileira”.

Quando chegou a Ouro Branco, Nicoló ficou surpreso com o tamanho da família e a diversidade de seus familiares. O avô Umberto – que calhava de aniversariar naquela data – havia procriado abundantemente e todos os tios tiveram muitos filhos. Várias profissões e negócios estavam representados no grande jantar oferecido em homenagem a Umberto Brindisi e Nicoló sentiu-se profundamente emocionado com os discursos que lhe brindaram a visita. Todos estavam felizes e riram muito quando discutiram futebol. Gremistas e Colorados tiveram seus momentos de exaltação. Até um ramo dos Brindisi que havia ficado para trás, no Rio de Janeiro, esteve representado na discussão futebolística, mostrando o escudo do Botafogo espetado na lapela quando Nicoló exibiu a carteira de torcedor do Boca Juniors.

Ao final da noite, com quase todos já despedidos e idos, Nicoló foi agarrado pelo braço por um primo, que insistia em querer mostrar-lhe uma grande surpresa. E foi praticamente forçado a sair da casa e seguir o parente até uma pequena construção, erguida no grande quintal. Ao aproximar-se, notou a antena que se projetava para o céu no topo do telhado; e logo viu que se tratava de uma estação de rádio amador e que o primo era Tadeu Brindisi. Não quis estragar o a surpresa e encenou um “oh” quando Tadeu lhe mostrou a bancada, o rádio e o microfone. De lá, chamaram o Aldo e depois Dino e Alda. Nicoló não se recordava de ter falado tão longa e ternamente com o irmão.

Na manhã seguinte, quando tomava café antes de partir para Porto Alegre, onde tomaria o vôo de volta para Buenos Aires e dali para Mendoza, Nicoló falou pela primeira vez sobre os negócios da família na Argentina. Descreveu o vinhedo e a bodega, declinou números e planos, e elogiou a Cidade de Mendoza, garantindo que qualquer Brindisi seria muito bem-vindo à sua casa. Tinha lágrimas nos olhos quando despediu-se de todos e rumou para o carro, disfarçando o adeus de mão que deu à empregada Yolanda, com quem passara a noite.

14AGO10