sábado, 11 de setembro de 2010

Sincronicidades - O Esperto Aprendiz


Antão era o armeiro do lugar. Bom armeiro era, mas não gostava do nome que lhe deram, em homenagem a Santo Antão, o Anacoreta. Preferia Antonio ou João, mas Antão era. E resignadamente seguia armando como se Antonio ou João fora.

O fabrico de uma boa espada demanda a forja, composta do fole, da bigorna, dos martelos e do tanque. Mais que isso: é necessário que se bata com força e bem; ser preciso nos golpes que dão forma ao metal; e saber o momento de temperar o ferro para as suas diversas serventias. Isso aprendera Antão como aprendiz de um tio, já que o pai era pedreiro e não armeiro e o tio se dispusera a ensinar ao menino as artes da sua guilda.

Seja como seja, Antão fazia bem o seu trabalho, e a clientela estava satisfeita; além disso, era o armeiro do vilarejo, já o dissemos, e embolsava uma razoável quantia já que, por ali, todos os varões andavam às guerras; e, se não às guerras, à cata de adereços portentosos para louvar-se às raparigas. Era feliz, assim, o nosso Antão, e o dizemos nosso pois que por ele temos carinho enorme.

No cantar do martelo contra o ferro Antão saboreava seu segredo: mais que às espadas, lhe aprazia fabricar as bestas. Era particularmente cuidadoso na escolha das madeiras e no lustrar delas. E terminava por adoçar as curvas cavoucadas com o óleo natural das próprias mãos que passava e repassava, geralmente à noite, sobre coronhas e ombreiras. Era também esperto em criar setas de rara perfeição, cuja ponta destinava-se a perfurar as mais rijas couraças. E de tal modo eram perfeitas as bestas e setas das artes de Antão que, se o soubessem, viriam os de longe apreciá-las, encomendá-las e por elas pagar bastante bem.

Assim como aprendiz fora um dia, Antão tinha sob si um outro, de nome José Maria. Nunca lhe perguntara a origem do duplo nome, embora soubesse tratar-se de um filho cristão já que cristãos eram todos ali declarados. E José Maria era quedo e a maior parte do tempo mudo, preocupando-se em acertar e cumprir ordens e ensinamentos. No mais, testava as bestas que o sogro fabricava, pois tinha mira e treino militar.

Antão tinha uma filha. Chamava-se Josefa. E a José Maria Josefa agradava. Sabe-se lá por que, mas Josefa não se agradava de José Maria. Talvez por preferir um noivo pedreiro como o avô, a quem muito estimava, ou por sonhar com algum fidalgo de olhos claros e tez pálida. Alguém cuja fina mão manejasse melhor os ademanes da corte que os ferros, os fogos e as águas.

Secretamente Josefa botava cartas. Havia aprendido o trato dos arcanos com uma cigana que passara pedindo água. A princípio, as botava para si mesma. Aos poucos, já treinada, botava em segredo para este ou aquele cliente. Mas aquilo que é secreto com o tempo torna-se público. E então veio da corte um fidalgo que pedia auxílio numa tarefa de extrema delicadeza: deveria ficar onde sempre esteve – amuado, mas certamente vivo, embora exposto à peste e aos furúnculos – ou tentar a sorte para além da Trapobana?

Sorte má que ao botar as cartas para Don Afonso – o tal fidalgo curioso – caiu-lhe um nove e, então, confundindo-o com o Ermitão que lhe significava o pai (quando, por certo, aqui o pai andaria pelos pés do Imperador) Josefa atrapalhou-se toda e leu a sorte pelo verso, misturada ao sonho de noivar bem para cima quando a verdade estava mais abaixo, confirmando peremptória que o melhor destino seria o de ficar na Corte a esperar momento melhor para partir aos sete mares.

E assim foi Don Afonso dizer de sua decisão a seu pai, Don Osório e, sem que avisado estivesse, servir de escárnio aos que o chamaram de cobarde e de fracassado, já que voltavam das Índias carregados de especiarias e madeiras-de-cheiro. E tanta raiva e ressentimento teve Don Afonso que denúncia fez de Josefa, por partes que teria com os judeus da Cabala, os mesmos judeus que mais tarde prenunciariam a glória de Zukerman e Chagall.

Enquanto tudo isso sucedia, está lá Antão a malhar durante o dia e a adoçar curvaturas pelas noites afora, entre os bang-bangs do martelo e do quase imperceptível voejar imaginado das setas. Mal sabia, decerto, dos augúrios de Josefa, tanto dos bons quanto dos maus ou maus por equivocados. E foi com inocente alegria que deu com a guarda que batia à sua porta, pretendendo fosse um magote de clientes, caindo em si finalmente quando a amada filha lhe levaram, manietada e à força, a ferros outros que não os de armeiro.

Daí para o veredito capital foi um átimo, mesmo diante das negativas veementes de Josefa, que permaneceu inarredável sob inevitáveis suplícios. A infiel deveria morrer de morte rápida, imediatamente, por qualquer meio que lhe eximisse as excusas – o que agradou bastante a Don Afonso. Ocorre que, ao pronunciar-se o dictum, a voz de alguém se alça, sugerindo que se faça passar a condenada pela ordália. E sabendo o magistrado que nada mais rápido havia que a morte morrida por seta disparada pela besta, contraria Don Afonso e aprova a prova, sendo brindado à volta por urras do populacho, mais interessado no espetáculo extra que na simples consumação da pena.

À noite, a troco de espertezas e algumas moedas, vai José Maria visitar Josefa e lhe diz que fora ele o autor da salvadora sugestão. Tudo aqui são trocas, já se viu, e Josefa lhe pergunta a troco de que fizera José Maria pender a execução. E ele lhe diz que deseja desposá-la, mesmo que para isso deva testar a mira contra a sua devoção. Espanta-se Josefa, mas aceita os termos de José Maria, mesmo duvidosa, não só da mira, mas da capacidade deste em ganhar a vida. “Não te preocupes”, diz ele, “para tudo há jeito”. E Josefa vai desdormir enquanto José Maria parte em busca da melhor besta que fabricara o armeiro Antão.

Deu-se a manhã, então, e o povo já se aglomerava na praça. Em pouco não restaria espaço nem para os petizes que tentavam meter-se entre as pernas dos crescidos. Rufam os tambores e de uma ponta do quadrilátero surge a processada. Atam-na ao poste, hirta, e propõem a venda que ela aceita. É preciso destinar um alvo para a prova e José Maria, que será o autor do disparo, equilibra sobre a cabeça de Josefa um pequeno cartão bem desenhado, ao que anui o magistrado.

Beijada a cruz levada aos lábios pelo paroquial, os passos são dados pelo guarda-mór e ali no chão, demarcado, o lugar do disparo. Lá se põe em posição convencional José Maria, que apruma o corpo, balança a terrível arma, demora na mira e dispara. Ouve-se então o swush da seta partindo os ares e um instantinho depois o thud quando atinge o alvo. Já ao primeiro ruído cai ao chão o armeiro Antão, fulminado o coração. Nem chegou a ver que José Maria conseguira trespassar o cartão, livrando Josefa sem mácula de seu destino anunciado. O magistrado, infeliz mas aliviado, e de qualquer forma indiferente à sorte do armeiro, manda ao guarda-mór buscar o alvo e, verificando que o cartão se encontra devidamente e ao meio perfurado, dá-se conta de que é a carta nove do baralho de Marselha.

19jul10

Andei lendo Saramago, com o qual me divirto sempre. Influenciado pelas convolutas do mestre, cometi esta história sem aspirar a nada mais que divertir um tico o desavisado leitor.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Não Acredito em Macumba

Faz tempo que reflito sobre o poder dos trabalhos da macumba, também conhecidos como “despachos” – conjunto de elementos (como velas, panos, comida, etc.) oferecidos para a obtenção de algum favor dos orixás ou outras entidades. Mais e mais tenho tomado uma atitude de descrença no que se refere à serventia objetiva dessa prática. Toda vez que alguém me diz que fez um despacho para conseguir isso ou aquilo, recordo-me dos pombos de Skinner e de seu inútil comportamento supersticioso...

Semana passada alguém perguntou-me sobre a eficácia de determinado despacho. Respondi que sou macumbeiro, mas não acredito em macumba. E é verdade. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá, da qual absorvo a sabedoria relatada nos itans. Leio e re-leio com paixão obras etnográficas como o “Ewé”, de Pierre Verger, que traz um longo receituário de trabalhos. Mas não acredito em macumba.

Acredito que a maior parte de nossos problemas reside em nosso próprio comportamento e em nossas atitudes. A outra parte – pequena, mas eventualmente de grande impacto – está no imprevisível, no ponto fora da curva.

Entendo que essa postura é decepcionante para os que recorrem aos rituais da macumba para “abrir caminhos” ou proteger-se de algum feitiço. Ou para aqueles que desejam testemunhar as curas, os fenômenos paranormais, os “sinais”, os transes. Ou para aqueles que temem o poder sobrenatural dos despachos. Mas é assim que respondo quando me consultam.

Acredito na macumba, porém, como um ritual que me coloca em contato com minha egrégora e me faz sentir incluído na cultura religiosa da qual faço parte. E acredito na macumba, também, como via de colocar-me em contato com meu orixá, de manter o fio que me une ao meu “eu espiritual”.

Num caso, incluo a dança, a música, o ritmo dos atabaques, as rezas e cantigas, as festas, os toques, os xirês, os candomblés – todas as manifestações que fazem parte do universo religioso que me inspira.

No outro, incluo todos os elementos – objetivos e subjetivos – que me dizem quem sou eu: os meus fios de contas, os assentamentos de meus orixás, os meus amuletos e meus altares, os meus mantras e os meus pensamentos. Todos eles formas de concentrar minha vontade, minha fé, para alcançar a comunhão com o divino.

Quando perguntado, aconselho que se evite as fórmulas ritualísticas que “garantem” o conseguimento disto ou daquilo, como os despachos de encruzilhada que exigem, apenas, que se use tal pano de tal cor, tal animal sacrificado, tal vela, tal bebida. Estes são elementos votivos que, sem a fé, o coração e o espírito, nada irão trazer, não importa quão bem esteja seguida a “receita”.

Digo que é extremamente frustrante gastar tempo e dinheiro investindo na expectativa de alcançar alguma graça através de um despacho copiado. E afirmo que o que resolve mesmo é analisar seus passos e tratar de aproximar-se de seu orixá através de conhecer melhor a si mesmo, assim encontrando o elo que projeta sua identidade ao seu eu divino.

Por outro lado, acredito na celebração, no agradecimento, na dança dos orixás e no cuidado com o axé. Acredito na força que estas manifestações trazem porque as sinto, as vivencio. Saúdo com alegria a presença dos orixás e dou ossé no ibá do meu santo. Dou minhas obrigações regularmente e me sinto muito bem no runcó de minha casa. Como babá efun, tenho cargo e função na preparação dos yawôs, além de cumprir outras funções do ilê. Tenho muita curiosidade e imenso respeito pela cultura yorubá. Vivo, enfim, a experiência de ser um ebomy que caminha com os orixás, trabalha para sua casa e respeita a religião que me escolheu e acolheu.

Sim, não acredito em macumba. Mas, como se vê, sou macumbeiro.

Axé.

09SET10

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ética do Candomblé - Reciprocidade e Gentileza

Oxalufan de Carybé


Estava no início d’ “As Águas de Oxalá”, livro de José Beniste [*], quando me surpreendi com o título de um capítulo – “O Legado Ético do Yorubá”. Sempre tive para mim que a ética do candomblé baseava-se apenas em dois mandamentos: cuida de teu orixá (e, portanto, cuida de ti); respeita o orixá do próximo (e, portanto, respeita o próximo como a ti mesmo). É interessante ver, entretanto, como Beniste associa a conduta espiritual à moral e ao costume entre os yorubás, mostrando a interligação forte entre crenças e comportamentos. Relendo aquele capítulo, observo que os dois mandamentos em que acredito estão ali desdobrados em regras quotidianas que comandam todas as atividades de uma comunidade: da educação dos filhos ao trato da morte e suas conseqüências.

Por aquela leitura percebe-se que os mandamentos do Candomblé de Keto geram aquela prática que alguém – possivelmente Nei Lopes – chamou de “a mão gentil do Candomblé”. É fácil entender que, vivendo em comunidades menores, a reciprocidade – que vem a ser o mecanismo de trocas e a teia de obrigações econômicas e sociais que garantem a coesão e a subsistência do grupo – exige que todos se tratem com gentileza. E como essa gentileza faz falta no mundo de hoje!

A riquíssima ritualística do Candomblé é o reflexo da reciprocidade exigida do povo do santo, em vários graus e atividades, seja na forma de ebós (oferendas aos orixás) ou na expressão à hierarquia dos membros da comunidade; hierarquia que exige, de um lado, o respeito dos mais novos aos mais antigos e, de outro, o respeito dos mais antigos aos mais novos.

A reciprocidade das relações entre o povo do santo constitui uma teia de obrigações e direitos que envolve não só o plano da nossa existência no Ayê (mundo físico), mas também o plano espiritual (Orun). Desta forma, a harmonia de uma casa (Ilê Axé), depende de uma estrutura hierárquica e de um respectivo rol de funções, todas interdependentes. Assim, ter um “cargo” numa casa significa ter o direito a exercer uma função, mas também a obrigação de desempenhá-la. Todos, desta forma, do babalorixá (zelador ou pai-de-santo) ao mais novo yaô (iniciado) estão envolvidos na cadeia de reciprocidade e gentileza que deve predominar na atividade religiosa. Agora imagine-se o desbordamento desse conjunto harmônico por todos os aspectos da vida comunitária e teremos, então, a imagem ideal de um grupo social em que os indivíduos estarão bem próximos ao parâmetro de omoluwabí (bom caráter em todos os sentidos da vida, cf. Beniste, citado).

Voltamos, neste ponto, às duas máximas que mencionei no início: cuida de ti; e respeita teu próximo como a ti mesmo, para colocá-las em linguagem ocidental. Estes dois mandamentos, vividos na vida prática através da gentileza consigo mesmo e com os demais, podem ser responsáveis por uma melhora substancial da qualidade de nossa existência.

Axé!

[*] Beniste, José – “AS Águas de Oxalá – Awon Omi Oxalá – Bertrand Brasil, Rio, 5ª. Ed., pp. 35 a 41.

03SET10

quinta-feira, 26 de agosto de 2010



Peça e ferro da Idade do Ferro
ah, de quantas maneiras
eu já me ferrei
ao acreditar em palavras
cifras e emolumentos
ao desdenhar o óbvio que me demonstram
a Física, a Química e a Matemática
do ENEM.

ah, de quantas maneiras
eu me ferro
ao ser assediado
por sinônimos
pistas e sinais
que me enviam para lá
quando o que vale está ao lado.

ah, de quantas maneiras
eu ferraria
aquela boceta amada
que nada mais é do que
a parte príncipe
da mulher que é tudo.


26AGO10

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sincronicidades - Raças


Já era a terceira vez que o pai, bruto, a empurrava. A cada vez parecia mais furioso. A menina conhecia a seqüência quando o pai bebia e tratou de sair antes que apanhasse..

Até da mãe ir embora, o pai conseguia ser carinhoso com ela e a irmã. Agora era isso: chegava do trabalho, às vezes já bêbado; começava a esbravejar e a xingar a mãe ausente; e depois era a vez delas – as agressões verbais primeiro, depois as físicas. Até que cansasse e caísse no sono, quase sempre no sofá.

Lá fora estava frio e ela estava com fome. Mas não voltaria para dentro antes do pai dormir. A irmã era maior de idade e conseguia salvar-se na casa do namorado. Mas ela ainda não – teria que esperar mesmo no frio.

A rotina de maus tratos levou a que ficasse mais e mais introvertida. No colégio passou a ter um rendimento sofrível. Uma professora mais sensível acabou por entender a razão da menina não ser pontual com as tarefas de casa e dormir durante as aulas. E ajudou-a. Conhecia uma família de oriundi generosos que não negariam guarida.

O pai pouco ligou que se mudasse. Sozinho, não teria que ficar lembrando da ex-mulher cada vez que olhasse para uma das filhas. Seguiu bebendo até que um dia foi atropelado, morrendo no local. As meninas, quando souberam, já estava enterrado. Choraram um pouco e repartiram o parco montante do seguro recebido pela mais velha, que também encarregou-se de esvaziar o pequeno quintal, mudando-se para a casa do namorado. Nomeada tutora da mais nova, não se opôs a que fosse definitivamente acolhida na casa de um Brindisi.

Yolanda dos Santos era uma menina negra de doze anos quando foi morar com “os italianos”. Cumpria as tarefas menores da casa e era bem tratada pelos patrões, que deram um quartinho só para ela. Logo melhorou seu rendimento no colégio. Ficou mais esperta e alegre. Com a sua parte do seguro e seu ordenadinho pôde comprar algumas roupas e coisinhas de adolescente. Tinha um belo rosto e um corpo bonito, precocemente desenvolvido.

Entre suas tarefas estava cuidar da menina Luiza, uma mesticinha meio italiana e meio índia guarani. Quando a mãe apresentou sua nova babá, Luiza tinha quatro anos. As duas se deram bem desde o momento em que se conheceram. Era uma rir e a outra rir também, sem motivo. Brincavam juntas, corriam, pegavam. E tudo que Luiza se recusava a fazer, tudo que imploravam para que fizesse, Luiza fazia se Yolanda pedisse. De quebra, a pequena babá protegia Luiza da zanga dos adultos, escondendo levadezas, limpando sujeiras, dizendo que havia comido tudo e até pedira mais. Fato era que Luiza era uma menina arredia e inquieta, que gostava da Natureza e de enfrentar os mais velhos. Diferente das priminhas obedientes, que sempre pareciam saídas do banho, com os cabelos escovados e a roupa permanentemente passada.

Com o tempo, os patrões foram confiando mais e mais Luiza à babá. Passaram a aproveitar as noites para sair e, às vezes, passavam um ou dois dias fora, em Novo Hamburgo ou Porto Alegre. Quando não estavam, Luiza dormia no quartinho de Yolanda. Eram noites de grande preparação. Havia as brincadeiras, o banho e depois as histórias. Depois dormiam agarradas, como se sentissem muito medo ou tivessem muito frio.

Yolanda já tinha corpo de mulher; embora os seios fossem pequenos, os músculos eram bem desenvolvidos, e tinha as pernas, as nádegas e os braços rijos, embora roliços. Luiza, perguntava-lhe tudo e queria apalpa-la, sentir a carne por baixo da cor negra. Na hora de dormir costumava enroscar suas pernas nas de Yolanda, até sentir os pelos arranhando; gostava também de aconchegar-se com a mão nos seios da babá. Às vezes apertava-lhe tanto os bicos que Yolanda reclamava e chorava, mas deixava. Luiza sentia uma ponta de prazer ao dominá-la e fazer com que deixasse que a machucasse.

Luiza masturbou-se, pela primeira vez, aos sete anos e, aos oito, pedia que Yolanda o fizesse nela ou junto com ela. As noites em que passavam juntas ficaram mais direcionadas e conduzidas através da mesma rotina – masturbavam-se, se enganchavam e, quando terminavam ficavam olhando-se no espelho do armário, observando o contraste da pele negra de Yolanda e a muita alva de Luiza. Yolanda, até então, não conhecera homem. Mas sentia pulsões dolorosas quando via um rapaz mais bonito, ou quando o patrão lhe dirigia olhares de soslaio.

Um dia Luiza e Yolanda souberam que haveria uma grande festa para comemorar o aniversário do bivô Carlo Brindisi. Muita gente viria para o jantar; alguns dos parentes até ficariam na casa, inclusive uns Brindisi do Rio de Janeiro e um sobrinho argentino, conhecedor de vinhos. A excitação tomava conta de todos, patrões e empregados. E Luiza e Yolanda não fugiam à regra, trocando risinhos a cada comentário sobre os parentes desconhecidos.

Carlos, seus pais e seu avô foram os primeiros a chegar. Yolanda logo notou o olhar que o menino lançou para Luiza. Os dois tinham a mesma idade, mas Luiza parecia bem mais desenvolvida do que Carlos, embora Carlos fosse maior que ela. Logo se tornariam companheiros de travessuras, passando longe da vista dos pais boa parte do dia.

Em seguida chegou o primo argentino. Um louro, alto, com jeito de senhor de si. E aí o coração de Yolanda bateu forte. Em um dado momento trocaram olhares, e ela soube, com absoluta certeza, que ela seria dele. Não era à toa que um pai-de-santo lhe havia dito que era filha de Nanã.

A noite transcorreu como deveria. O patriarca Umberto Brindisi não cabia em si de ver tantos descendentes juntos e felizes. Cantou-se, bebeu-se e comeu-se à farta. Os brindes e discursos se sucederam num ambiente de grande alegria. Yolanda, envolvida com os serviços de mesa, não deixou de observar as estripulias de Luiza e do menino Carlos, que se esconderam debaixo da mesa. Nem de notar o sorriso que lhe voltava, vez em quando, o argentino.

Mais tarde, depois que a festa serenou e o convidado argentino foi liberado de atenções, Yolanda entabulou com ele uma troca de sinais que indicava a cozinha como local de encontro, em uma hora mais.

Encontraram-se à hora marcada e, sem palavras, beijaram-se. O argentino, por usar bem o nariz, tratou de sentir o perfume da pele de Yolanda; e Yolanda, por precisar muito, tratou de ouvir-lhe o peito. Em breve estavam se abraçando com força, e se esgueirando para o quartinho de Yolanda.

O argentino mal cabia na cama. Na verdade, não sabia o que fazer. Durante todos os anos de sua juventude dedicara-se ao negócio da família em Mendoza, e deixara a fornicação para o irmão Aldo. Era a primeira vez, portanto, que estava com uma mulher. Por sua vez, Yolanda era muito jovem e desconhecia o que fazer com um homem. O desejo, entretanto, venceu a inexperiência. Quando viu a bela negra totalmente nua à sua frente, o argentino libertou seu corpo para que fizesse o que fosse. E assim copularam: pela primeira vez de frente, com o argentino entrando pelo meio das pernas de Yolanda, deflorando-a com vigor; e depois mais devagar, subindo Yolanda sobre ele, empalando-se e comendo-o ao mesmo tempo.

Estavam cansados para tentar outras posições. Passaram um tempo aconchegados, como nos filmes de que Yolanda gostava. Depois decidiram que era melhor que o argentino fosse para o seu quarto. Despediram-se carinhosamente e o argentino, em voz baixa disse que seu nome era Nicoló. Yolanda respondeu “Eu sei...” e disse-lhe o seu, antes de abrir o sorriso que ficaria guardado na memória dele, fechando a porta em seguida. Cuidadosamente.

Na manhã seguinte Nicoló dava a Yolanda um adeus mal-disfarçado e partia de volta para Mendoza. E Luiza e Carlos corriam pelo quintal e embrenhavam-se pela ribanceira do rio. De alguma forma o coração de Yolanda estava leve e feliz com os últimos acontecimentos...

17AGO10

Sincronicidades - O Pianista


Picasso - Fase Azul

Não pensava que a vida de músico seria tão difícil em São Paulo. Muitos estavam desempregados ou viviam na corda bamba dando aulas a trinta reais. Poucos conseguiam um emprego estável – ainda assim mal remunerado – e os concursos públicos eram um funil absurdo.

Durante as primeiras semanas abrigou-se num albergue. Até que conheceu um outro artista em dificuldades na roda da sopa. Conversaram sobre seus problemas e acabou que Michel, o pianista, passou a dividir uma kitchinette com Mathias, o pintor, em troca de alguns caraminguás.

Não havia cama para Michel, de modo que teve que dormir no chão, sobre alguns cobertores velhos. Era tudo muito deprimente. Não bastasse isso, Mathias era um chorão que vivia reclamando da via crucis para  vender suas obras nas galerias da cidade – todas dominadas por mulheres belíssimas, mas frias e irredutíveis. E principalmente chorando pitangas quando falava de uma tal Mercedes, sua musa e grande benfeitora. Às vezes simplesmente lamentava a ausência dela; às vezes ia mais fundo em sua mágoa, atribuindo à musa uma certa maldade por havê-lo seduzido e depois abandonado. Em troca, Michel uma vez contou a Mathias sobre a paixão que devotara à madrasta e o final trágico que precedeu sua vinda de Cunha para São Paulo, quando o pai pegara os dois em meio a uma cópula vespertina.

Nas horas em que ouvia os solilóquios melancólicos de Mathias, ele recordava-se do episódio de Cunha. Via no escuro o rosto ensandecido do pai e o corpo machucado de Olga. Sentia vergonha por haver pulado a janela espavorido, e chorava baixinho de remorso e de saudade. Um dia Mathias mostrou-lhe o quadro que pintara de Mercedes, pedindo-lhe que nunca comentasse o assunto. Mercedes era a expressão de Afrodite, uma dessas plêiades que seduzem tanto humanos como deuses; e o quadro, em si, mostrava talento, talvez genialidade. Mas deste capolavoro Mathias não desejava abrir mão, preferindo guarda-la para si que perdê-lo para outro.

A rotina de miséria e choradeira teve fim quando Michel arranjou emprego numa cantina. Primeiro como garçon, depois como pianista. Mudou-se rapidamente para um apartamentinho na Mooca, mas comprometeu-se a não perder contato e, quando fosse necessário, ajudar o amigo.

O pianista era muito bom mesmo. Tocava com desenvoltura os sucessos do momento, assim como músicas de décadas e gostos distintos, sempre com os acordes e as levadas que conferiam legitimidade às suas interpretações. Os clientes passaram a freqüentar a cantina mais para ouvir Michel que para degustar massas e vinhos. Aumentaram-lhe a paga e pode mudar-se para um apartamento de quarto-e-sala na Moema. Lá, se enfurnava e fornicava com clientes cujo desejo ultrapassava ouvir os sons melodiosos que produzia no piano.

Um dia, uma das clientes que visitava com regularidade o apartamento da Moema, apresentou-lhe um amigo, e este amigo ofereceu a Michel o emprego de pianista “da casa” em um bar de blues e jazz. Michel agora havia recuperado o amor-próprio e, de quebra, ganhava bem para tocar o que mais gostava. Estava feliz por não mais ter que tocar "New York, New York" ou "alguma coisa do Roberto Carlos".

Um dia, mais à vontade para ter contato com o passado, Michel vai a um cyber café e abre seu e-mail encardido. Tem medo de ter perdido seu gmail, mas lá estavam, intocadas, dezenas de mensagens não-lidas. Foi lendo algumas e apagando direto a maioria. Entre as que resolveu ler estavam as de Luiza Brindisi, sobrinha de sua madrasta, que passara um mês em Cunha. Luiza relatava o que havia acontecido com sua tia e perguntava onde Michel se encontrava e como estava indo; em outras mensagens lamentava a falta de respostas; em outras, ainda, pedia conselhos sobre a carreira musical que recém-iniciara em Ouro Branco.

Colhido de surpresa pela dor que sentiu ao saber que Olga perdera uma das vistas e que o pai fora condenado e estava mudo e catatônico desde o dia da desgraça, Michel respondeu à Luiza somente depois de passadas algumas semanas. Quando o fez, nada falou sobre Olga, seu pai ou si mesmo. Limitou-se a responder às indagações sobre a profissão de músico e discorreu um pouco de sua experiência em São Paulo.

Luiza, então, percebendo a porta aberta, multiplicou a quantidade de e-mails. A cada resposta ou conselho, enviava outras tantas perguntas. Anexava arquivos MP3 e fotos em JPG, e refletia sobre novos planos que variavam entre montar uma nova banda a prosseguir sozinha, cantando onde tivesse oportunidade. Michel divertia-se muito com os e-mails da “prima”, cuja verve era sincera e profusa, a cara tão linda quanto se recordava e a voz muito boa. Enviava de volta outros arquivos MP3, com suas últimas gravações.


A troca de e-mails foi ficando mais intensa e os dois “primos” passaram a depender da correspondência para discutir seus problemas e achados. Contudo, Michel  tinha medo de cansar Luiza e perde-la. Afinal, ela mesma confessara que se desinteressava rapidamente das pessoas.

Assim, e antes que a água lhe chegasse aos joelhos, Michel atendeu a um último e-mail de Luiza, dando-lhe o endereço do bar em que tocava e o nome da pessoa a quem procurar. Não acreditava que Luiza tivesse a coragem de viajar para São Paulo, em busca da duvidosa e árdua carreira que ele tratara de desestimular. E daí em diante não mais respondeu aos e-mails que lhe chegavam de Ouro Branco.

17AGO10

domingo, 15 de agosto de 2010

Sexo Virtual - Vida e Morte


Menina e Pauzudo conheceram-se numa sala de bate-papo do Terra. Aos poucos foram trocando mensagens no reservado e logo evoluíram para o Orkut; e daí para o MSN.

Não passava dia sem que, logo de manhã cedo, Pauzudo enviasse uma mensagem galante para Menina. E não passava dia sem que Menina enviasse um “depo” agradecendo e dizendo palavras meigas para Pauzudo. Ambos eram casados e lutavam contra a dificuldade dos horários livres entre o trabalho e a casa; e a internet lhes oferecia um meio de dar a volta nesses obstáculos.

Pauzudo e Menina também achavam que a internet lhes permitia a troca segura de fantasias. Muitas vezes, entretanto, a conversa tornava-se séria, com um e outro confessando algum problema ou dizendo que esperava muito que se conhecessem pessoalmente.

As conversas foram evoluindo e, do tati-bi-tati das insinuações, passou à referência escrachada de preferências e desejos. Menina foi revelando uma fome insaciável e Pauzudo, de sedutor, passou a provocador constante; ela postava fotos sensuais no seu perfil e ele as comentava, dizendo-se sempre excitado.

Em breve estavam se vendo na webcam. No início ainda tímidos, com o tempo passaram a mostrar-se e a exercitar-se na arte de excitar um ao outro. Até que um dia começaram a masturbar-se diante das câmeras, num processo que combinava voyeurismo e exibicionismo.

Menina tem os seios volumosos e Pauzudo um pau bem disposto. De modo que as cenas de sexo virtual se desenvolviam com o uso estes atributos. Pauzudo dizia: “Isso, Menina, tira esses peitos pra fora... Isso... agora puxa esses bicos... machuca... puxa mesmo... ahhh...” E Menina retrucava: “Quero ver esse teu pau, vai... mostra esse pau, cachorro... isso... bem duro... quero ver você esporrar!... áiiiii”. Terminavam normalmente com Pauzudo tendo que se limpar e Menina mostrando-lhe os dedos melados, recém tirados da boceta. Um observador que pudesse vê-los neste momento diria que eram experientes de outros carnavais, embora afirmassem, um ao outro, que esta era a primeira vez.

O tempo é o senhor da razão. E tanto Menina quanto Pauzudo, mesmo enlaçados um com o outro, construíam seus “networks” de amores. Pauzudo corria atrás de uma tal de Tetéia, enquanto Menina respondia maliciosa aos galanteios de um tal de Guri. Isto para falar do pessoal da primeira fila de cada um... E com o tempo Menina foi descambando para os lados de Guri, atrasando-se, ora caindo sem aviso e não voltando, ora faltando aos encontros com Pauzudo; e Pauzudo, sempre gentil, ia aceitando as desculpas de Menina e devolvendo o mesmo comportamento, enquanto cafungava o cangote de Tetéia.

Até que um dia, saciados daquele pote de mel, Pauzudo e Menina tornaram-se apenas amigos, enviando-se “ois” e “olás” que dispensavam respostas. Ambos desenvolveram novas habilidades com novos parceiros: Menina agora exibe a boceta e o rabo para um tal de Joel e Pauzudo faz seções de strip para uma tal de Dengosa. Os dois seguem se masturbando e gozando pela rede afora; e, embora sintam afeto momentâneo pelos homens e mulheres de quem são parceiros, não lhes passa pela cabeça aceitar de verdade um convite para um encontro “na real”.

15AGO10