quarta-feira, 6 de outubro de 2010
Os Mortos da Minha Praia
o que há c'os mortos da minha praia?
o mar é o mesmo
assim o céu
a praia nem tanto
os sarnambis se foram
assim as marias da toca
onde foram parar os navios que os despejavam
ou de onde caíam, presos na rede ou dilarecerados
por pás e hélices
os mortos da minha praia?
é doce morrer no mar
- quem diz não se afogou ou nunca provou
daquela carne aguada
dos mortos da minha praia...
Pero Vaas - un poète romantique.
06out10
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Todos os Mares
Na barra da saia de minha mãe Yemanjá
Sentei-me e coloquei meu coração entre as mãos d’água
Olhei para o escuro horizonte
E para as embarcações lá longe
Junto das ilhas apenas outras ilhas
Fechei os olhos e ouvi o Mar do Norte
Toquei o fundo oleoso
Apertei com os dedos dos pés a mistura
De areia, calcáreo e sargaços
Ao longe também ouvi o sino do Marinheiro Só
Balancei e me equilibrei na proa
E fui bater indolor e agradecido
Na praia da minha infância.
04OUT10
domingo, 3 de outubro de 2010
O Muro e a Expectativa
vejo um muro
e nele colado
- entre tantos outros
antigos e novos
também colados
- um bilhete
sei que a mim é endereçado
um bilhete
e quem colou-o ali
imagina que o verei entre tantos
refulgente
único
em alto-relevo
e minha agonia é que não.
03OUT10
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Poeminha no MSN
buenos días, estimada A/
y que tengas una buena semana...
y que tus pensamientos me contemplen...
y que, contemplandome, te dejes veer...
y que, dejandome que te veas, te muestres...
y mostrandote, te dispas...
y dispiendote, me quieras...
y queriendome, me permitas...
y permitiendome, me tomes
y tomandome, me comas!
Para minha irmã A/, que prefere ficar lambisgoiando pés.
20SET10
Um Conto
Thelma deixou-me esta manhã. Não agüentava mais, disse-me. Durante alguns anos tentamos equilibrar nossas energias. Quer dizer: a vocação de Thelma para os espaços abertos e o meu talento para a inércia.
Ao longo do tempo, fui construindo a meu redor, tijolinho a tijolinho, paredes sem-fim enquanto Thelma dançava, seguindo sua pulsação e tentando não esbarrar nelas. Não posso reclamar agora – o trem apitou na curva e eu não me mexi.
Quando nos conhecemos, pensamos que éramos um para o outro. A idéia de complementaridade nos fascinou e achamos que nossa soma seria mais que dois mais dois; nossa sinergia potencializaria um poder maior que nossa simples adição. Não foi assim. A não ser na cama.
Na cama era assim: eu por baixo e ela por cima. Éramos tântricos naturais. Eu, que nunca havia pensado em dividir a tal “responsabilidade pela performance”, reescrevi meu livro pessoal de prazeres. E Thelma podia, nessas horas, dançar, pulsar, vibrar todos os sons, percutir todas as notas. Eu gostava de pensar que, juntos, éramos o sino que soava seu mantra por sobre as montanhas de Minas Gerais, indo morrer num horizonte lá longe...
Infelizmente, o alimento que nos vinha pela serpente da Kundalini não era suficiente para matar a fome de outras carências, nem cuidar de outros impulsos. Eu diria que enquanto eu empilhava livros, Thelma voava com as palavras. Simples assim. E profético.
Num dia modorrento de final de semana, em que eu deixava a barba crescer e usava um velho calção de banho, Thelma ajoelhou-se do meu lado, pegou minha mão e recitou-me o mais belo poema de despedida que eu já havia ouvido. E disse-me que foi num impulso, de repente. Tentei, diante do inevitável, abraçá-la, conduzi-la para o nosso mundo fechado dos lençóis. Ela respondeu-me, então, que não adiantaria. E, passando a mão levemente pelo meu rosto, disse que sentia que até nosso tapete mágico a estava engessando.
Percebi que era inútil. E deixei-a ir sem levantar um “ái”, ou derramar uma lágrima, para não contrangê-la. Meu amor por Thelma continuou exatamente o mesmo, até no jeito em que lhe abri a porta e a mantive aberta até que ela desaparecesse na esquina.
Agora estou aqui, relendo o jornal de domingo. Olho para as estantes à minha volta, levanto e vou abrir a porta. Quem sabe o passarinho não volta para a gaiola?
20SET10
Mudar o Passado
Perco muito tempo querendo mudar o passado; em ser feliz imaginando ter tomado uma decisão certa no passado. A fantasia começa sempre pelos dois operadores lógicos “se-então”, por “e se [tal coisa] então tudo seria perfeito”. Obviamente não posso mudar o passado; mas, mesmo assim, tenho essa fantasia aqui e ali.
Não seria mais adequado agir para que o futuro fosse melhor? Claro! Mas que trabalho daria! Que investimento de razão e energia eu teria que fazer... Que atitude revolucionária tomar a história em minhas mãos... E, no entanto, tenho tudo que seria necessário para determinar meu futuro: a experiência com os erros cometidos e os recursos acumulados, que me permitem caminhar pela estrada.
É fácil tomar a decisão acertada depois de tudo ter acontecido. Se fosse possível prever, com precisão, quais riscos se concretizariam efetivamente durante uma travessia, as seguradoras marítimas estariam falidas. Trabalhar com o passado como se fosse o presente se assemelha à atitude do armador que resmunga, depois de cumprida a viagem sem intempéries, porque comprou um seguro que, no fim das contas, provou-se desnecessário... E, no entanto, nos entregamos constantemente a esse inútil exercício... E se?...
Creio que a inteligência animal se especializa na sobrevivência – isto é, em dominar o futuro. Mas sou obrigado a rever esta certeza toda vez que vejo a mim, ou ao outro, empenhando-se em mudar o passado... [A não ser, é claro, aqueles que manipulam a história, ao arremedo de “1984” . Mas isso é outra estória...].
20SET10
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
As Palavras
As palavras
Quando as escrevo
Leio
Ou com elas penso
São também as pausas
Entre elas.
Ao editar as palavras
Edito também o espaço
Entre elas
Imagino-as ditas
E o som que têm
Quando da minha boca se projetam.
Posso dizer que de palavras sou feito
Olho meu braço e digo: “braço”
E assim por diante faço
Até que amorteço completamente
Minha existência corpórea
Indo direto ao espaço da mente
Onde tudo são palavras
Tão-somente.
15SET10
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