sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Insustentável Leveza do Ser -- Um Episódio


Semana passada fui ao aniversário de minha afilhada Julia. Com um ramo de flores e um embrulhinho na mão, bati à porta da casa de Marta, minha comadre.

“Olá, Perov! Que surpresa!”, atendeu-me Marta, “Ora, querida... o que é isso? Acha que esqueceria o aniversário de Julia? A final, fui convidado...”, respondi, sorrindo, entrando e trocando um par de beijos e um abraço. Marta, de braço dado comigo, foi levando-me para onde estava Julia, perguntando-me “E então? Como andam as histórias de Titia?”... “Ah, Marta...”, respondi, “...Titia não quer nada comigo...”, e já chegávamos à aniversariante, que entretinha uma rodinha de amigos.

“Dindo! Que bom que você veio!”. E Julia pulou no meu pescoço. Dei-lhe um abraço apertado e, ao nos separarmos, apresentei-lhe o ramo de flores e o embrulhinho. “Que lindas, Dindo! No duro... não precisava... e olha só.... tem presentinho também!”... “Exato!”, respondi satisfeito, “Para minha afilhada querida...”. Julia abriu rapidamente o presente e fez o ahhhh que eu esperava e deu-me um selinho. E todos à volta riram. Julia, então, apresentou-me à rodinha: “Este é João, este é Carlos, esta é Maria, e esta é uma grande fã sua, Joana... e este é meu dindo querido...”. Feitas as apresentações, pedi licença e saí em busca de outras pessoas conhecidas.

Logo notei que Joana, a tal “fã”, seguia ao meu lado, e dei-lhe atenção: “Então... quer dizer que tenho UMA fã...”. “É verdade...” ela respondeu-me, simpática, e continuou “... li o seu ‘Hermanita, My Love’ e achei muito bom, muito divertido e muito instrutivo”, disse a última palavra caprichando no sorriso. “Os seus livros são meio auto-biográficos, não?...”, perguntou-me. “É verdade...”, respondi, “... não creio que possa escrever algo sem ter algum pé na minha experiência vivida e sentida... mas, no caso, hermanita não é, na verdade, minha irmã... é uma homenagem a uma amiga, Peri, uma irmã de alma...”. “E Titia? Como anda?....”, “Bahhhh... ela não quer nada comigo...”, respondi pela enésima vez. “Ouvi dizer que você está reunindo as postagens do seu blog num livro de aventuras com Titia...”, seguiu, provocando-me. Nesta altura, já estávamos sentados num sofá, com nossos copos. E resolvi mudar de assunto: “Você me parece familiar...”. “É claro que sim!...”, respondeu-me, ... sou amiga de sua filha, estudamos juntas nos mesmos colégios e já estive na sua casa várias vezes... além do mais somos quase vizinhos de porta... incrível como só se lembrou agora!”. Penitenciei-me, dei explicações tolas apontando para minha vida agitada, minhas complicações, minhas fases alternadas, e até o casamento de Maria Eduarda, minha filha, entrou no balaio de desculpas. Joana sorriu, perdoando-me e, daí por diante a conversa seguiu seu próprio rumo.

Falamos sobre tudo: política, atualidades, literatura, música, o curso de designer de Joana e meus planos para uma peça de teatro usando música incidental, de Babatunde Olatunji a Mahler. Até que Julia e Marta vieram reclamar da monopolização e chamaram-me para dançar. Foi muito bom! Marta ainda tem o rosto mais lindo que conheci, os lábios que jamais necessitaram pintura e a mímica rica que me divertia tanto; e Julia (ah, Julia) é a sensualidade em pessoa, uma lolita que por vezes me envergonhava quando me seduzia e eu me dava conta de como a desejava.

Terminada a seção de dança, voltei para perto de Joana e seguimos conversando até que esgotamos os temas. E ali ficamos, no mesmo sofá, bebericando e calados, até que tomei a iniciativa e comecei a despedir-me. “Peraí que desço contigo...”, disse-me ela, “... você pode me dar uma carona, não é mesmo?”, pediu. “Perfeito...”, respondi, “... vamos andando?”. Nos despedimos de todos e, no final, ouvimos Julia recomendar, com voz fingida: ...veja lá o que vocês vão fazer, hein?...”.

Caminhamos sem pressa pela noite agradável (“gentil”, como diria minha ex-mulher), às vezes falando alguma coisa, às vezes entoando uma canção e às vezes mudos, desfrutando do prazer de andar lado a lado. Até que chegamos ao meu prédio. E antes que eu falasse qualquer coisa, Joana me disse “É aqui, não?”. Sem pensar, respondi “É sim. Quer subir?”. Joana sorriu e encaminhou-se para a portaria.

Ao entrarmos em casa, e ao observar como Joana se movimentava pela sala, refleti sobre a naturalidade com que havíamos nos portado. As conversas, os gestos, os sorrisos, toda a troca havia ocorrido num ritmo harmonioso de um jogo de frescobol de bolas perfeitas, “empurradas”. Feliz, ofereci algo para bebermos e fui à cozinha buscar duas taças e uma garrafa de Lona Rose Brut que estava pronta para ser aberta.

Voltando à sala, não encontrei Joana. Procurei e fui dar com ela no quarto de Maria Eduarda, minha filha. Joana, sentada na cama, lia um livro de Shel Silverstein que eu havia dado à minha filha anos trás – “The Giving Tree”. Joana seguiu na leitura até terminá-la. Quando fechou o livro, vi que estava emocionada, olhando-me com olhos molhados. Tirei o livro de suas mãos, abracei seus ombros, esperei e depois servi o espumante.

A bebida levou para longe a pequena nuvem que pousara por instantes nos olhos de Joana. Fomos para a sala e, sentados no sofá, deixei que ela recostasse a cabeça no meu peito. Bebemos mais um pouco e Joana levantou o queixo na direção do meu rosto. Foi um beijo simples assim. Logo depois estávamos os dois nos amando, encaixados como se nunca tivéssemos deixado de ser siameses. Sem pressa, nos comemos, num prolongamento do ritmo que levamos toda a noite. Nos exibimos, fodemos no claro e no escuro, ouvimos nossas vozes e gemidos e pedidos, trocamos de alma e sentimos nossos cheiros e boca-a-boca gozamos tudo o que podíamos e caímos no sono dos justos ainda um dentro do outro.

Acordei cedo, como sempre. Do meu lado, lá estava, bela como nunca, a amiga de minha filha, que também me emocionava. Levantei-me cuidadosamente e fui ao banheiro. Olhei-me no espelho e, feliz, notei que havia rejuvenescido uns dez, vinte anos! Ah, Deus meu, nem nos meus melhores tempos me senti tão vivo e desperto, tão pronto para o novo dia!

Esperei que Joana começasse a despertar. Beijei-a, enternecido. Fui à cozinha e preparei um café forte. Trouxe o café, um par de torradas, manteiga e mel, e suco de laranja numa bandeja. Tomamos café, nus, em cima da cama desarrumada e ainda perfumada pelos cheiros da noite anterior. A sensação de sermos deuses foi partilhada e, diante desta constatação, sorrimos, poderosos. Fiquei excitado, uma ereção tamanha, e demos uma rapidinha, antes que Joana fosse tomar um banho e me deixasse ali, deitado e contente, contemplando a pintura do teto.

Tive o prazer de observar Joana vestir-se, cuidadosamente, peça por peça. Ao final do espetáculo, pulei da cama e comecei a vestir-me muito rapidamente. “Vou te levar...”, eu disse. “Por favor, não é preciso... sério”, respondeu-me,e Joana com a mão em meu ombro. Percebi a despedida: “Olhe... você sabe... foi uma noite maravilhosa... mas foi só uma noite e...”. Colei dois dedos nos lábios de Joana, calando-a e escondendo minha tristeza: “Eu sei...”.

Levei-a à porta. Beijei-a uma vez mais. Os lábios dela molhados, mas agora fechados. No momento de partir tive um impulso: “Peraí!”. E fui buscar algo para dar a Joana. Voltei e entreguei-lhe o livro do Silverstein. Ela nada me disse e seu olhar era compreensivo e grato. “Bye”, disse e foi-se.

Corri para a janela da sala, esperei, e vi Joana afastando-se do prédio, caminhando no mesmo passo da noite anterior. Ela não se virou para um derradeiro adeus; mas mesmo assim acenei. E fiquei olhando minha vida passar lá embaixo.

[09ago09]

A Equação de Donna


Quando adolescente, DONNA tinha problemas com as aulas de matemática. Passava raspando e quebrava o pau se alguém lhe mostrasse um problema de Aritmética, Álgebra ou mesmo Geometria Descritiva.

Naquele tempo DONNA já mostrava o temperamento esfuziante que hoje encanta a todos - sejam eles gregos ou troianas (sim, há um séqüito de DOMMES & ESCRAVAS que persegue DONNA por todos os lados, prometendo mundos e fundos - especialmente estes últimos). Líder da torcida da escola, DONNA exibia a bunda empinada que fez a loucura de muitos, falava pelos cotovelos e fumava desbragadamente.

O diabo, a pedra no sapato Vulcabrás de DONNA, era essa falta de pendor para os números. "Números me atrapalham!", ela anunciava, orgulhosa. E, na verdade, DONNA nunca fez contas direito, aproveitando este presumível defeito para tornar-se uma das pessoas mais generosas do bairro.

Ao formar-se no Educandário Nossa Senhora das Graças, DONNA foi escolhida para ser a oradora da turma, já que gostava de falar e comunicava-se com facilidade. Chegado o seu momento triunfal, DONNA botou de lado o cigarro, subiu ao palco, limpou a garganta e iniciou aquilo que viria a ser o mais surpreendente discurso de formatura da história do Educandário: após agradecer a banca de professores, a começar pelo "seu" Mamede, Professor de Matemática e Diretor da Casa, DONNA saudou o paraninfo, Prof. Eustáquio, conhecido por distribuir notas altas a todos, principalmente às alunas da primeira fila que usavam saias mais curtas do que a inteligência delas.

E foi indo, indo, falando de liberdade, da importância do ensino como instrumento para construir o futuro ("Aluno aplicado, futuro assegurado"), dos colegas que partiram e daqueles que ficaram, da amizade entre os povos... Até que, em dado momento, perdeu a folha e o ritmo e acabou por tropeçar no fio do microfone, revelando um par de calcinhas digno da Madonna. Foi então que os mais mimosos fizeram "ahhhhhhhhh" e os mais velhacos começaram a rir.

A coisa foi ganhando um vulto tal que dali a pouco uma estrepitosa gargalhada tomava conta do Ginásio Esportivo do Educandário Nossa Senhora da Graça. Até que a gargalhada foi, pouco a pouco, diminuindo, diminuindo, enquanto DONNA recobrava o fôlego e a compostura. E eis que, no momento em que o silêncio retornou à platéia , DONNA, com o microfone apertado na mão disse, em claro Português, de enfiada: "olha só... vocês todos: VÃO TOMAR NO CU E FODAM-SE!"

Depois de muita balbúrdia, a festa de colação seguiu em frente, com alguns professores constrangidos de terem que dar dois beijinhos na oradora e outros exagerando nos abraços com ela. Houve até uma certa professora que, não agüentando-se, deu uma palmadinha nas insolentes nádegas da formanda.

O evento, como disse, ficou na História. E lá foi DONNA viver a vida como ela é. Até que um dia, sem mais nem menos, topou por acaso com o Prof. Mamede. Sim! Aquele mesmo. O professor de Matemática.

Cumprimentaram-se cautelosamente e DONNA pode observar como o seu antigo mestre era gentil e delicado. Dali da rua foram tomar um café e, do café, dirigiram-se ao apartamento de Mamede com o fito de trocar idéias sobre um mirabolante projeto que tinha como propósito traduzir frases da língua Portuguesa para precisos enunciados matemáticos.

Chegando ao apartamentinho de solteiro de Mamede, DONNA pôs-se à vontade, acendendo um cigarro e passeando pela pequena sala de estar. Mamede, meio sem jeito, indicou-lhe a porta do banheiro, “caso necessite”, e foi à cozinha buscar um balde com gelo.

Servido o Red, sentaram-se no sofá (sempre esse sofá) e começaram a parlar. E de parlatório em parlatório surgiu o primeiro beijo. E logo-logo os belos seios (com mamilos rosados, embora ela diga que são marron-claros) de DONNA estavam nas mãos sôfregas de Mamede; enquanto o pirú de Mamede brilhava envernizado nas mãos de DONNA.

Vai que vai e lá estavam os dois se arreganhando e em posição quando Mamede, num golpe romântico, decide regalar à DONNA a obra de arte de uma vida inteira.

Desencaixando-se, Mamede pula à frente de DONNA e diz que irá elaborar uma equação que traduza, exatamente, o desenho do corpo da ex-aluna, incluindo retas, ângulos e curvas traduzidos por senos e co-senos de tal precisão que DONNA ficaria para sempre transformada em monumento vivo à mais cruel das ciências matemáticas.

Manejando furiosamente régua e compasso, transferidor e tabelas, Mamede debruçou-se sobre o corpo de DONNA como um Beethoven sobre o piano, tirando dos membros, costelas, seios, ancas, coxas e pés notas graves e agudas, acordes maiores e menores até que, gozando abundantemente, em progressão geométrica, levou DONNA ao paroxismo trigonométrico.

Naquele dia, naquele momento, os olhos de DONNA deixaram de ser castanhos para assumir a cor verde-borrasca – uma de suas marcas registradas. Fixados em qualquer mortal, estes olhos, às vezes implacáveis, às vezes mendigos, deixam cicatrizes indeléveis. Tão eternas quanto a enorme equação que hoje adorna o painel de entrada do Educandário Nossa Senhora das Graças, sem que ninguém saiba o porquê daquela homenagem.

Para minha amiga eterna, DONNA, cujo real é muito mais belo do que o virtual que aqui vemos.

[29jun09]

Magrela -- Uma Seção em Botafogo



A Internet é uma sanfona infernal: nos aproxima e, ao mesmo tempo em que favorece o mais íntimo contato virtual, nos confronta com distâncias geográficas e inviabilidades do mundo real. Entretanto, às vezes a pororoca de emoções nos surpreende. Isto ocorre quando alguém transpõe o portal e torna real o virtual. Foi o que nos aconteceu, a mim e a uma amiga nossa aqui da comunidade, a quem chamarei de Magrela.

Magrela é das raras pessoas em nossa comuna que não utiliza um fake. De modo que eu sabia com quem falava desde a primeira vez que trocamos palavras. O mesmo não ocorre comigo – Pero Vaas é um fake, como todos sabem. Mesmo assim, em posições desiguais, Magrela topou envolver-se comigo. E eu gostei muito do seu estilo conciso e da precisão com que respondia às minhas vagas (vadias) idéias. E de surpresa em surpresa vi-me buscando-a nos tópicos e no MSN.

Pois bem, há tempos Magrela e eu vínhamos testando nosso ritmo e o encaixe de nossas fantasias. Não é necessário explicar como esses eventos se sucedem na rede. Numa bela tarde, ou manhã, ou noite, você é pego pelo pé por uma frase que bate uma bola perfeita com a sua frase. E isso transforma-se em horas de conversa em que acabamos sabendo mais um do outro que qualquer membro das nossas famílias. É mágico!

E de provocação em provocação vamos criando climas e fazer um SV é inexorável. E de SV em SV percebemos que não fazemos um arremedo do SR, mas adentramos essa modalidade nova em que são exigidas habilidades específicas que, a final, geram prazeres invulgares. Magrela e eu não fomos exceção à regra. Nem queríamos sê-lo. Queríamos mesmo era provar do fruto das nossas palavras e imagens, desfrutando um do outro e de nós mesmos, usando nosso poder para gerar mais poder.

Vai que dia desses, numa de nossas conversas, Magrela surpreendeu-me com a seguinte declaração: “Quer se encontrar comigo?”. Titubeei. Nunca havíamos sequer trocado palavras pelo telefone. Nosso SV era mudo, só feito de imagens e palavras digitadas. Pensei, e teclei: “Como seria isso?”. “Bem..”, disse-me Magrela, “... estou indo ao Rio numa espécie de viagem sentimental... podemos nos encontrar aí... será no fim-de-semana que vem...”. Eu disse “Ótimo!”. E Magrela finalizou o tópico mandando-me preparar meus instrumentos.

Tenho esse fetiche de cortar. Cortar a pele, inscrevendo palavras ou números ou códigos alfanuméricos, ou apenas deixando um hieróglifo ou sinal cabalístico. Faço com todo cuidado e esmero. Há tempos aprendi a cortar com um mínimo de dor e sangue, fazendo um trabalho perfeito na carne viva. Magrela havia percebido essa minha paixão desde o início de nossas conversas e, como sub atenta que é, estimulou minha fantasia e fez-me realmente sentir que a marcava. De modo que o fim-de-semana seguinte prometia – no nosso próximo encontro no MSN combinamos como faríamos. Magrela ficaria na casa de uma amiga de infância, em Botafogo, que sabia do nosso envolvimento. E eu iria vê-la lá.

Minha excitação à espera do dia “D” foi enorme. Fiquei em quarentena, febril, imaginando cenas e diálogos. Essa exposição súbita ao real sempre me pega de jeito. “Como ela me verá?”, “Será que vamos ter o mesmo entrosamento que no virtual?”, “Com que roupa eu vou?”. E eu ria enquanto selecionava minhas faquinhas de estimação – “Esta sim, esta não, esta também... hummm... preciso dar um trato nessa aqui... onde está o povidine?... cadê a gaze e o esparadrapo cirúrgico?”.

Até que chegou o grande dia do encontro. Magrela ligou-me no celular e eu ouvi, pela primeira vez, a sua voz. Gostei. Tinha alma, profundidade e tom. Fiquei excitado só de ouvi-la. Ela deu-me o endereço e marcamos a hora. Disse-me que não me preocupasse muito e que tudo estaria bem. Ah, e que eu não esquecesse de trazer os meus brinquedos.

O dia estava lindo, com o sol fulgurante das 14:00 horas deixando-me alegre e otimista. O endereço que Magrela me deu era o de um sobrado na Rua Dona Mariana. Toquei a campainha e veio atender-me uma jovem muito alva que, em silêncio, fez-me entrar e, com gestos comedidos e elegantes, indicou-me por onde deveria dirigir-me. Notei, então, algumas marcas conhecidas na nuca e nos braços da jovem, mas nada disse e a segui.

Subimos uma escada de madeira e entramos num living, onde a jovem deixou-me. Os móveis e a decoração da casa eram pesados, típicos da arquitetura da região. A luminosidade filtrada pelas janelas era muito pouca, já que as cortinas de chintz e adamascado estavam fechadas. De modo que tive que acostumar-me com a iluminação que provinha de algumas lâmpadas de cor amarelada, espalhadas habilidosamente pelo aposento. Os móveis, logo vi, eram de imbuia e peroba-do-campo e as muitas almofadas não escondiam, aqui e ali, a palhinha de assentos e encostos. Nas paredes, quadros de época, alguns deles retratando paisagens do Rio (reconheci um Castagneto original!) e outros belas mulheres dos 1900’s. Os objetos e demais artigos de decoração refletiam o gosto refinado e a riqueza antiga da proprietária.

E estava eu examinando a lombada encadernada dos livros numa pequena estante quando me aparece a Magrela. Que emoção! Apertei-a com toda a força entre os braços, praticamente arrancando-a do chão. Creio que todos sabem como é fantástico o momento em que se revela, na vida real, a mesma empatia do imaginário virtual. Magrela em pessoa era ainda melhor que a Magrela minha amiga virtual. Festejou o encontro com a mesma alegria que eu demonstrava. Atropelávamos um ao outro com mais abraços e beijos e perguntas e respostas.

Até que, saciados os primeiros impulsos, Magrela afastou-se de mim e, com olhos baixos, beijou-me as mãos dizendo-me “Minha amiga quer conhecer o senhor. Pode ser?”. Percebi imediatamente a encarnação do papel de sub e respondi distante, como dom, “Sim, desejo conhecê-la”.

Mal tinha acabado de assentir e entrou na sala a amiga de Magrela. Discretamente perfumada e maquiada, aproximou-se de mim e, entendendo-me a mão bem cuidada, apresentou-se. Em poucas palavras, deu-me as boas vindas, disse-me seu nome paisano e atalhou. “Mas sou Isis, Rainha Isis”. Isis era, sem dúvida, uma domme – morena e impositiva, tinha a beleza exótica e o físico da atriz Kestie Morassi, do seriado “Satisfaction”; a voz polida e o tom moderado não escondiam a firmeza própria de quem comanda. Sentamos e contou-me brevemente a história de sua amizade com Magrela, que ajoelhou-se a meu lado. Haviam morado na mesma rua e tinham sido vizinhas até que Magrela mudou-se para Belo Horizonte. Mesmo assim, mantiveram contato e agora tinham a oportunidade de rever-se durante a breve viagem de minha amiga ao Rio. Não tivera que insistir muito para que Magrela aceitasse vir hospedar-se em sua casa.

A jovem alva voltou a nós com uma jarra e copos, equidistantemente distribuídos numa bandeja de prata inglesa. “Suco de tamarindo, Pero?”, ofereceu-me a Rainha. “Muito obrigado...”, respondi, e fui servido por Magrela. “Muito condizente com essa tarde de sol...”, aprovei, depois de prová-lo. A Rainha bebeu a pequenos goles, ereta, sem mover-se mais que o necessário. De vez em quando dirigia o olhar arguto para Magrela, como para mantê-la atenta e expectante. Finalmente levantou-se e nos disse “Não querem começar?”. Ao que Magrela tocou-me o joelho e perguntou-me se a Rainha poderia nos observar durante nossa seção. Curioso, assenti. E a Rainha nos levou até um quarto, seguida pela jovem alva.

A cama era no centro do aposento e permitia toda a sorte de utilização dos brinquedos de S&M. Pedi que primeiro nos deixassem a sós, Magrela e eu, e fomos atendidos. Assim que nos certificamos que estávamos sozinhos, nos abraçamos de novo, agora com desejo e sofreguidão. Sentir o corpo de Magrela contra o meu me doeu estranhamente, mas também deu-me um grande prazer. Que responsabilidade! Talvez meu irmão Carlos, com toda aquela verve de moleque, pudesse sentir-se à vontade aqui. Exatamente ele que vivia dependurado nos bicos dos seios de Magrela...

Depois de alguns minutos de exaltada pegação, Magrela novamente separou-se de mim e, de novo com os olhos baixos, começou a despir-se até ficou apenas de calcinhas. Calcinhas brancas, como sempre lhe pedi, que contrastavam com sua pele morena. Ver minha amiga ali, despida e submissa, doeu meu coração. Levantei-lhe o rosto pelo queixo, docemente, e beijei-lhe a boca desejada. Abracei-a de novo, notando a bela tatoo na omoplata esquerda. Senti os seios contra meu peito ainda vestido e o monte de Vênus contra meu membro – que endureceu. “Doce e querida Magrela”, murmurei. E percebi lágrimas no seu rosto. Despi-me e vesti minha túnica branca sobre o corpo nu. Com Magrela de novo a meus pés, aguardei a volta da anfitriã.

Não demorou muito e a Rainha Isis e a jovem alva voltaram ao quarto, já paramentadas para a seção. Vestida numa roupa de couro preto, os seios protendidos por um corpete justo, a Rainha apontou a jovem: “Esta é Justine, minha escrava.” De olhos baixos como Magrela, Justine cumprimentou-me com a cabeça. Pude ver como ficara perfeitamente bela em sua túnica justa, que mostrava o colo dos seios, os ombros, os braços e as coxas... todos marcados pelos castigos com que sua dona a adestrava. “Muito bem...” disse eu, “... comecemos”.

A meu comando, Magrela foi levada para a cama, deitada de costas e devidamente atada. Tudo dentro da ritualística que faz do BDSM uma prática teatral e gótica. É preciso treinamento contínuo para saber os passos, a etiqueta, os sinais. Tudo deve passar-se fluidamente, com a métrica adequada, de forma a integrar todos os elementos coadjuvantes e privilegiar o foco da cena.

Pedi que iluminassem melhor o corpo de Magrela, particularmente a barriga magrinha. E, enquanto preparavam os últimos detalhes, vesti as luvas e pedi que a Rainha me indicasse um local onde poderia terminar de esterilizar os instrumentos. A uma ordem da anfitriã, Justine levou-me a um canto do quarto, onde havia uma cômoda antiga, com tampo de mármore e uma pia. Lá, abri o vasilhame onde havia deixado as pequenas facas e os bisturis num banho de Gerdex, iniciado antes de sair de casa. Esgotei a substância, enxagüei demoradamente as peças e banhei-as, por precaução, numa solução de ácido peracético. Antes de terminar, já senti o endurecimento extraordinário do meu membro e deduzi que algo mais havia disfarçado no agridoce do suco de tamarindo servido por Justine.

Quando voltei à cena, lá estava minha querida Magrela, devidamente atada. À cabeceira, a Rainha Isis dizia-lhe algumas palavras enquanto lhe acariciava o rosto, os ombros e os seios. Justine, ao pé da cama e de olhos baixos, aguardava ordens. O momento era muito especial e, fosse eu Mathias, já estaria imaginando o quadro que pintaria.

Como sempre digo, não há mulher magra de boceta feia. No caso de Magrela, a boceta é perfeita. Certifiquei-me dessa verdade cristalina ao olhar detidamente para o seu monte de Vênus, exposto sob a calcinha branca. O formato, o cheio e o vinco, “ah, meu Deus...”, suspirei, meu olhar focando no volume branco que contrastava com a pele morena. Meus olhos pregados ali; e eu congelado na cena. Até que me dei conta de que Magrela e a Rainha Isis aguardavam impacientes os acontecimentos. “Que espécie de dom molenga sou eu?”, pensei e apressei-me.

Prossegui a passos rápidos até a cama, abri a maleta e fui organizando os instrumentos e os frascos, lado a lado, na mesinha auxiliar. A domme, aliviada, voltou-se para os seios de Magrela, agora puxando-lhes os bicos sem dó. Percebi, então, a corrente alternada entre a confiança e o medo da submissa. Podia pensar com ela, sentir a adrenalina correndo, sentir a espera do toque. Pensar nos sinais, no dito e no não dito. Neste momento Justine levantou a cabeça e olhou diretamente para a cena. E levou um repelão na coleira empunhada pela sua dona, que mostrou-lhe o rebenque.

Aproveitei a pausa das atenções para iniciar os trabalhos. Primeiro passei o povidine no ventre de Magrela, assegurando-me da assepsia do local. Depois desenhei, com a mão firme, as letras “P” e “V”, caligrafando-as em maiúsculas cursivas ao estilo de Arrighi. Saciei a curiosidade de Magrela, mostrando-lhe o desenho através de um espelho. Mostrei, em seguida, a pequena faca que usaria para entalhar as letras. Mais uma vez senti a corrente alternada que percorria a mente e o corpo de Magrela. E a Rainha, reconhecendo a perfeição do momento, vergastou duas vezes o colo de Justine.

Os gemidos de Justine e a ansiedade de Magrela me animaram. Com zelo, passei a cortar a pele e a, alternadamente, limpar o sangue que manchava o entalhe. Magrela gemia surdamente, enquanto mostrava sua satisfação e me excitava com seu medo. Já havia começado a cortar a segunda letra quando novamente senti os efeitos da bebida servida por Justine. O sangue me pulsava mais forte na jugular, latejava nas minhas têmporas, e endurecia meu membro. Contive-me, entretanto, para não atrapalhar meu trabalho. E terminei a contento a inscrição. Limpei o ventre de Magrela – minha posse – com carinho e dedicação profissional. E protegi a área com esparadrapo cirúrgico. Estava feito!

A esta altura minha pressão sangüínea e o calor estavam insuportáveis. A Rainha percebeu como me sentia e, soltando a coleira de Justine, ordenou que me servisse.

A proximidade da escrava só fez tornar mais agudas minhas sensações. De modo que, quando se ofereceu para tirar-me a túnica e as luvas, eu já estava começando a fazê-lo. Agora nu, pude ver meu membro na mão de Justine, que o movimentava suavemente. Estava enorme, muito maior do que eu poderia imaginar. E, duro como pedra, parecia ter vida própria, apontando rígido para a boceta de Magrela.

Justine, então, com uma tesoura, aplicou dois cortes laterais à calcinha de Magrela, despindo-a também. E, puxando-me pelo meu membro, com ele iniciou a penetração da boceta de Magrela. Ao sentir-me bem encaixado, dei um tapa agradecido nas nádegas de Justine, que voltou constrangida para perto de sua dona.

Fui entrando em Magrela vagarosamente, observando a sua respiração refletida nos movimentos da barriga e da pélvis. Meu membro era um braço entrando numa pequena fenda e eu ia forçando a entrada com grande prazer. Até que resolvi que era a hora e entrei de vez, ao que a boceta de Magrela respondeu, engolindo-me com dificuldade, mas também com prazer.

Tendo entrado completamente, comecei a mexer os quadris contra os quadris de Magrela que, atada, pouco podia fazer. Fui entrando e saindo, entrando e saindo, vendo a bela nudez de Magrela, a incisão coberta e os bicos dos seios duros, sendo maltratados pela Rainha.

Enquanto isto, Justine premiava a visão daquele quadro com sua alva nudez, totalmente submissa à sua dona, pedindo sua atenção, implorando seu castigo, beijando-lhe as mãos e o rebenque, presa à coleira que a mantinha disciplinada. O prazer da domme estava em não ceder; assim que não se deixava beijar ou acariciar pela escrava. Com tudo isso, eu sabia que estava molhada, que em suas veias pulsava o sangue como em minhas veias ele também pulsava. Seu prazer estava no controle e não se aliviaria ali, diante de nós; mas solitariamente, em algum aposento, em alguma cama daquela casa...

Tomado por pensamentos e atos, fui metendo em Magrela, aumentando o paroxismo que a bebida ajudara a criar e, ao mesmo tempo, reter. Percebi que estava em priapismo, que não conseguiria gozar, e isso produziu-me uma angústia intensa – nenhum movimento que eu fazia conseguia levar-me ao êxtase. E Magrela, pelo que eu via, estava na mesma encruzilhada irresolvida – não gozava, apenas fazia os pequenos movimentos que as ataduras lhe permitiam, buscando ajudar-se e ajudar-me a encontrar o clímax.

Ficamos nisso um doloroso tempo. Nem mesmo a excitação produzida pela diversão da Rainha Isis com Justine conseguia levar-me ao clímax. Comecei a implorar para acabar e a sentir a mesma angústia que Magrela – algo estranho para um dom. Até que, com uma mistura incrível de prazer e dor, Magrela e eu, molhados de suor como num banho turco, gozamos aos gritos e ao choro.

Aos poucos, retirei-me de Magrela. Esfolado e exausto, tive que segurar-me à beira da cama para não cair no chão. Ajoelhei-me, então, e beijei a sua belíssima boceta e fiquei ali, por algum tempo, com o rosto colado no seu ventre, sentindo o gosto de Magrela na boca, misturado ao retrogosto do afrodisíaco.

Quando levantei-me, vi o olhar agradecido de minha amiga. À cabeceira da cama, Justine, castigada, soluçava de esforço e prazer. E a Rainha Isis, de pé e soberana, fitava-me esperando o agradecimento, que lhe mandei com um aceno e um sorriso. Soltando as amarras de minha amiga, atirei-me, então, sobre ela, beijando seu rosto e sua boca, o ombro e a tatuagem, os bicos dos seios, descendo, finalmente, para a barriga, o ventre e, novamente, a boceta.

Durante todo esse balé, Magrela tratava de segurar meu rosto carinhosamente entre as mãos. Éramos amigos. Mais que isso, éramos amantes confirmados pelo ritual. “Magrela, m’amie”, susurrei. “Mon chéri”, disse-me ela. E enternecidos e agradecidos, sorrimos um para o outro. A domme e sua escrava retiraram-se, silenciosamente.

Trocamos nossas roupas, Magrela e eu, ali mesmo. Logo depois, retornaram a Rainha Isis e Justine – não mais domme e escrava, mas anfitriã e governanta. Agora todos havíamos voltado à nossa catadura paisana. Acondicionei meus instrumentos na maleta e fechei-a. Encerrados os trabalhos, nos dirigimos ao living já conhecido. Tudo aquilo, na decoração da sala, que havia sido objeto de minha curiosidade e apreciação, tornara-se parte da minha visão de mundo. Um sentimento profundo de gratidão me tomou. E, agradecido, beijei as mãos da anfitriã, tendo o cuidado de manter a etiqueta – nossa parceria limitava-se ao que havia ocorrido; em nenhum momento nossa filiação permitira ou permitiria algo diverso. Queria, também, agradecer à jovem alva; mas também em razão da etiqueta, deixei apenas que me beijasse a mão direita, que estendi fidalgamente. Ela, então, retirou-se, para voltar logo depois com a conhecida bandeja, mas agora com taças de um néctar diferente.

Quando ia agradecer que não, a anfitriã, divertida, disse-me que se tratava apenas de um energético de meia potência, destinado a nos recompor perfeitamente. Brindamos, então, e bebemos. Era realmente uma bebida sã. E muito saborosa, assim como um OPorto de rara qualidade. Trocamos algumas palavras e silenciamos. Entendi que era chegada a hora de educadamente ir-me.

A anfitriã, sua assistente e Magrela levaram-me à saída pelos corredores do sobrado. Antes de transpor o umbral, despedi-me da amiga de infância de Magrela, agradecendo-lhe, com palavras, a hospitalidade e elogiando-lhe a casa. Em seguida, acenei com a cabeça para a jovem alva, que deu um passo atrás e manteve os olhos baixos, como devido, mesmo estando paisana. Já à porta da rua abracei minha adorada amiga, apertando-lhe as poucas carnes e os ossos. Quando nos afastamos disse-lhe “Te adoro, Magrela...”, ao que ela voltou-me “Também te adoro, Baixinho...”. Chateado, quis responder, mas a porta já se havia fechado...

Para Magrela, esperando uma nova seção.

[31ago09]

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Susto de LU


Nossa querida LU não deixa passar oportunidades de divertir-se. Foi assim que notou imediatamente a presença de carne fresca quando um sujeito magro e baixinho, mas pinta de fodedor, mudou-se para o apartamento do lado.

Já no dia seguinte estava LU na janela do quarto, exibindo seus portentosos seios, que pareciam saltar da blusinha folgada. Entre um sorrisinho e outro, fez o primeiro contato com o Don Juan da Mooca.

Não passou uma semana e LU e o vizinho já se davam adeusinhos das janelas do quarto e faziam mímicas para se comunicar – o que propiciava a ambos muitas risadas e a oportunidade de revelar segundas intenções.

Foi o momento, então, de LU revelar-se mais ainda. Passou a despir-se e a vestir-se perto da janela, principalmente quando avistava a sombra do vizinho e imaginava as botucas salientes tentando divisar uma réstia de seio ou um pedaço de nádega. Chegou até a dar uma trepada com o marido, de janela aberta, na idéia de deixar o vizinho excitado.

O correu então que um dia, ao ir à lanchonete encomendar alguma coisa à Dna. Naldete – esposa do portuga dono do estabelecimento – deparou-se com o vizinho que, demoradamente, palitava os dentes depois de mastigar um belo sanduíche de carne assada.

“Olá...”, disse ela e, adiantando a mão, continuou “... meu nome é LU... muito prazer.”. Ao que o vizinho, mais que depressa, agarrando a mão de LU e tocando a aba de um imaginário chapéu, respondeu “.... muito prazer também, meu nome é José Almeida, mas pode me chamar de ZÉ...”

A partir daquele momento estava selada a conspiração: LU sabia que iria comer o José Almeida; e o José Almeida sabia que iria empirolhar a LU. E até que faziam um parzinho interessante: ela, a morena de carnes fartas e energia ebuliente; ele, a alva pele, o cabelo gomalinado e o perfume “Tango”, da Coty. Daí a marcarem hora e local foi um passo previsível: apartamento 306 do 1.100, casa de LU, às 3 da tarde do dia seguinte.

À hora marcada, lá estava o ZÉ à porta de LU, todo bem vestidinho, limpo e passadinho; na mão, um ramo de três rosas bem vermelhas. LU atendeu à campainha quase que correndo, o coração aos saltos e a bacurinha a bater palmas.

“Olá, ZÉ...”, “Olá, princesa...”, trocaram cumprimentos. Beijaram-se no rosto polidamente, mas logo em seguida apertavam-se num abraço cheio de sacanagem. E foram apertando-se enquanto LU conduzia ZÉ até o sofá da sala.

A meio caminho já iam tirando a roupa. Enquanto ainda se apertavam, ZÉ atirava o ramo de rosas prum lado, e LU atirava a blusinha decotada pro outro, deixando à vista e ao aperto os lendários e formosos seios. De modo que, quando chegaram ao sofá, já estavam sem blusinha e camisa.

LU sentou-se e, com ZÉ à sua frente, passou a desabotoar-lhe a calça e baixar-lhe as cuecas. E eis que, “Minha Nossa!...”, ali estava, à sua frente, liberado, o verdadeiro Rei da Macedônia! O pau de ZÉ não era uma vara, era um troféu de maçaranduba premiada, um beque do São Paulo (o Ângelo, por exemplo), era mais um toco desses que o pessoal da mudança usa pra travar a kombi na ladeira, com a diferença que o pau do ZÉ era boleado...

Diante de semelhante aparato, LU, mesmo com toda a sua experiência, ficou paralisada, sem saber como prosseguir. Tentou um boquete, mas o calibre da piroca era excessivo pra agüentar na boca; tentou uma punheta, e teve que usar as duas mãos. “Putamerda...”, pensou LU, “... como é que eu vou encabeçar exxxta porra?... parece que todo o osso desse puto veio pra pica...”.

ZÉ já estava acostumado a esse baile e divertia-se a custo do espanto e da falta de jeito de LU. Quanto mais ela tentava uma situação, mais ZÉ afrontava LU com seu pau descomunal. Até que, tomando a decisão entre abrir-se de quatro ou foder por cima, LU carinhosamente conduziu ZÉ pelo cabresto até sua cama king size e pediu que ele deitasse de barriga para cima.

O vizinho concedeu a posição, mas pediu que LU sentasse em sua cara para prepará-la, ao que LU acedeu prontamente, descendo as ancas parrudas e deixando que ZÉ lhe chupasse a bela (e feliz) boceta.

Não demorou muito e a habilidade de ZÉ havia conseguido que a boceta de LU ficasse totalmente azeitada e quase pronta para o embate. Antes de começar a apagar a vela, entretanto, LU certificou-se que o tubo de K&Y – estrategicamente posicionado para ocasiões anais – tinha bastante quantidade para lambrecar o tarugo de ZÉ. E com habilidade, passou-lhe o ungüento por toda a pica, com cuidado para cobrir toda a extensão do cacete, da cabeçorra às bolas.

Pronto! Era o momento de iniciar o sacrifício cruento, a empalação da magnífica boceta. E assim foi: firmando a besta com as duas mãos, LU foi abrindo-se sobre o ciclope, vendo como dava para engoli-lo com sua destemida vulva. Muito prudentemente, entre áis e úis, o encaixe foi sendo conseguido e, uma vez acomodada a cabeça, foi prosseguindo o engolimento pelo denso dorso, devagarinho para evitar transtornos ou rasgos irrecuperáveis.

E havendo-se acomodado a meio-pau, depois de negociar retas e curvas, LU começou a balançar-se no mastro, com a ajuda de ZÉ, que segurava-lhe as nádegas. E assim foram se achegando até que encontraram a posição certa para foder com mais abandono e menos medo.

LU jamais havia conhecido aquela pressão no seu interior balsâmico; enquanto ZÉ deliciava-se com as tetas fabulosas que se apresentavam à sua boca. Guiados por Deus Nosso Senhor da Boa Foda, o casalzinho de namorados foi atingindo o ápice gozoso e, entre gemidos e palavras de amor, descarregaram suas energias plenamente.

Ao término da tertúlia, ZÉ ofereceu a LU uma segunda rodada. Ao que LU, muito obrigada, delicadamente (mas com rapidez), desmontou-o. E ficaram ali, abraçados por um tempo, até que LU lembrou-se que Dna. Naldete deveria estar batendo à porta com a encomenda prometida.

Desculpando-se muito, fazendo promessas, dando-lhe beijos e beijinhos, LU colocou ZÉ dali para fora. E enquanto vestia-se na volta, pensava “... Vou falar com o PERO... vou convidar o ZÉ pra minha Suruba Rave... o baixinho vai ser a atração da festa!...” e deu uma sonoríssima e gostosa gargalhada.

Para Lu, estimada amiga, parceira no nosso melhor projeto, que pediu-me para deixar de mimar tanto Titia, e escrever uma história sua com o feliz vizinho.

Breve História de um Amor Eterno


Faz bastante tempo que tenho a impressão de que certos relacionamentos são eternos. Esta impressão tem-se robustecido na medida em que conheci muitas pessoas na internet que ficaram sendo importantes para mim, mas que deixaram de freqüentar meu dia-a-dia por algum motivo. O conto a seguir propõe a reflexão sobre este tema.

Encontraram-se três vezes, ambos casados. Da primeira vez, nunca haviam se visto. Ele surpreendeu-se com a juventude dela ao identificá-la no hall do hotel. Ela sentou-se em frente a ele e pegou suas máos nas dela. Abraçaram-se repetidas vezes. Já no quarto, ela pediu que ele fechasse os olhos... levantou a blusa e deitou sobre seu peito. Gozou sobre ele, ambos vestidos.

Tiveram algum tempo para conversar e ele perguntou de onde ela era. Ela falou-lhe do “Quatrilho”. Ele disse como era bela a região. E ela concordou que era muito bela, mas também triste.

No espaço de tempo que seguiu-se os dois sofreram muito. Ele polígamo e ela virtuosa. Ele a via como uma árvore solitária, como um marco de pedra em seu caminho. Queria ajoelhar-se e tornar-se outro homem. Uma espécie de Galahad. Ela ria com isso tudo. O único riso que às vezes dava.

Da segunda vez, ele pode tocá-la e sentí-la úmida e pronta. Usavam boxer shorts e ela não permitiu que a penetrasse. Ao invés disso contaram suas vidas e choraram juntos. Depois saíram. Caminharam e foram parar num café. Antes disso ela dançou uma salsita breve e invisível na porta de uma loja de bugingangas.

Sentaram-se e ficaram olhando os barcos que atravessavam a baía. A mesa era coberta por uma toalha de papel. Havia lápis para desenho. Ele desenhou a mão dela, contornando os dedos. Ela fez o mesmo com a mão dele, sobre o desenho da mão dela. Ficaram ali, de mãos dadas, até chegar a hora. Ela dobrou cuidadosamente o papel da mesa e saíram. Mais alguns passos e estavam despedindo-se.

Depois ela não o quis mais. Separara-se e juntara-se. Ficou doente. Seriamente doente. E ele sempre atrás, fazendo promessas e dizendo o quanto era um bom homem. Seguiram dilacerados, mas aparentemente em paz. Outras pessoas surgiram, aqui e lá. E iam se falando aos tropeços.

Da terceira e última vez ela foi visitá-lo num hotel romântico, escolhido a propósito. Desta vez ela chupou-o. Voraz e perfeitamente. Duas vezes. Ele desejava, como sempre desejou, amá-la. Ela não quis ou não pôde. Jantaram e ela foi-se. No dia seguinte, antes de partir, ele telefonou e perguntou por que ela não ficara. Ela respondeu que tinha vindo preparada, mas que ele não a convidara.

Dali por diante foram se falando quando podiam. Ela engravidou e ele também. Trocaram palavrinhas sobre os filhos, sempre amorosos um com o outro. Até que as mensagens dele não foram mais respondidas. E as coisas estão paradas assim por mais de ano. Só que ele continua venerando as árvores solitárias pensando nela; e ela matém guardada a toalha de papel.

Comentários: Acho que tenho essa preferência pelo tema dos encontros e despedidas. Isso ficou mais patente depois de tornar-me freqüentador da Internet. É óbvio que o fugaz também habita a vida quotidiana; mas ele é mais agudo nas relações que se iniciam como virtuais.

Também percebo que cruzamos uns com os outros a todo momento. E que certos encontros, mesmo fugazes (na experiência dita "real", ou mesmo na experiência chamada "virtual") nos fazem eternos habitantes na vida uns dos outros. E escrevo sobre isso, também.

No fundo, creio que tenho sempre essa esperança na eternidade. Se não serve para algo mais, pelo menos ela sublima a dor de perder contato com alguém a quem estimo.

De qualquer maneira, penso que: (a) a minha experiência e as minhas emoções não diferem muito do que passam aqueles que freqüentam estas paragens; e (b) os enredos são o que são, destinados a tocar-nos de alguma forma, seja na plenitude (final feliz ou final esperado) ou no vazio.

Numa historinha que dediquei à V/ a tão esperada trepada também não se consuma (por outros motivos, é claro). Às vezes sinto que escrever sobre a trepada que rola não é lá muito interessante (a não ser quando vamos ao depois e vemos que o vazio do gozo pode ser o início da separação ou de outras histórias pra contar)

A primeira parte [sobre o primeiro momento do primeiro encontro].— gosto muito dela; foi construída como uma das chaves das razões da despedida.

Acho que as histórias de amor eterno ficam em suspenso porque temos essa percepção linear dos acontecimentos. Isto é: se o amor se consuma, ele se consome - e acaba. Já se ele fica em suspenso, durará para sempre. É uma leitura.

O Amor é Mais Forte que o Orgulho?


Ouvindo a versão da Sade de "Love is Stronger than Pride" [http://www.youtube.com/watch?v=AAjtlI6YjOw], construí esse verso:

ouvi ontem baterem à porta

não era você

não era ninguém.

o som do relógio na parede confundiu-me

o mesmo relógio que fito agora

tiquetaqueando a tua ausência

por infinitos segundos minutos horas

a mesma ausência que dói-me

o coração a mente e cada parte de meu corpo

dor que é pedra

dor que cresce e toma espaço

e eu rocha dura e sem flexão

vou roendo a mim mesmo

moendo e remoendo

esse orgulho sem perdão.

Quem não experimentou a dureza do orgulho diante da generosidade do amor?

O significado do rancor é o de "fechamento em si"; enquanto o amor significa abrir-se para o mundo. Como exemplo, pergunto: quem, depois de uma boa foda, dessas dadas com afeto e entrega, não tem a sensação de ter o universo todo num copo? E, quem, com o orgulho ferido, não se fecha em copas e não planeja uma vingança (a aniquilação do outro)?

Sem muito refletir, eu diria que o amor é mais forte que tudo (aliás, muitas crenças são baseadas nisso). Entretanto, creio que o rancor (que é feito de pedra) fecha todas as portas ao amor. E tem sucesso. A única chance que tem o amor diante do rancor é se o rancor começar a partir-se, se o coração rancoroso abrir espaço para a dúvida e permitir receber o bálsamo, a cura, do amor.

Por último, pergunto: quantas pessoas conhecemos que extraem maior prazer de dizer não, de micar uma iniciativa, que de dizer sim, de propelir uma aventura.... Quantas pessoas não conhecemos que preferem dormir sós, fazendo o outro infeliz, do que ter uma noite de prazer e alegria compartilhada? Essa é a mesma força que nutre o rancor, parente próximo do orgulho.

Toda Sobrinha Merece

toda sobrinha merece

um tio

meio sonso

meio puto

mas há sobrinhas

divinas sobrinhas morenas

exemplares únicos da raça

que merecem um tio supersônico

um tio superpânico

um tio apesar dos pesares

um tio exclusivo

prá contar histórias e talvez

durante o fragor de alguma batalha

entre príncipes, reis, duques

e feiticeiros

aparar-lhes os desejos

beijando-as onde não deve beijar um tio

alcançando-lhes com a palma da mão

o interno das coxas sãs

e alisando-as onde se apertam

mas já se abrem

noivas todas...

que são

noivas de alguém que desconhece

que um tio

é um tio

é um tio...