quinta-feira, 19 de abril de 2012

Tunico e as Freiras

Diz a piada:

“O vigário de um vilarejo tinha um pinto como mascote, chamado Tunico.

Certo dia, o pinto Tunico desapareceu e o vigário, preocupado, resolveu pedir ajuda aos paroquianos.

No dia seguinte, na missa, o vigário perguntou à congregação:

-Algum de vocês aqui tem um pinto?

Todos os homens se levantaram.

-Não, não, disse o vigário, não foi isso que eu quis dizer.

-O que eu quero saber é se algum de vocês viu um pinto?

Todas as mulheres se levantaram...

-Não, não, repetiu o vigário... o que eu quero dizer é se algum de vocês viu um pinto que não lhes pertence.

Metade das mulheres se levantou.

- Não, não, disse o vigário novamente muito atrapalhado. Talvez eu possa formular melhor a pergunta:

-O que eu quero saber é se algum de vocês viu o meu pinto?

Todas as freiras se levantaram
.
-Deixa pra lá, disse o vigário, desistindo... o Tunico que se foda...”

Piada ou não, naquela mesma tarde, reunidas no convento, as freiras da cidade discutiam como fazer para seguir com a diversão sem mais problemas. Uma das religiosas, mais velha e portanto astuta, lembrou às demais que a Irmã Ana de Deus havia sido visto o jardineiro do convento sodomizando uma galinha.

As freiras, recordando-se do evento, diziam "sim" "sim" e uma delas relatou que também vira bem visto o pinto do jardineiro e que ele era de bom tamanho e bom calibre -- tanto assim que a dita galinha, após um longo suspiro, morreu feliz.

 Logo formou-se uma comissão para ir falar com o jardineiro sobre seu pinto que já era apelidado de Tunico... A comissão formou-se com três freiras: lideradas por Soror Tereza, as noviças Sandra (obviamente mais curiosa) e Ana de Deus seguiram até onde o tranqüilo jardineiro adubava um cipreste.

 "Olá, senhor jardineiro", avançou Soror Tereza, "... é verdade que seu pinto é grande?". "Senhora", respondeu o jardineiro, levantando-se ainda descomposto. "... seja o que seja, este é o único que tenho...", disse apontando para o que mais parecia uma mangueira, dessas de jardim de convento. "Ahhhhh....", suspiraram as três religiosas, colocando as mãos no rosto, nos olhos, nos ouvidos, onde fosse. Soror Tereza, entretanto, mais calma e hábil nas artes da enfermagem, aquilatou o Tunico, que media, em repouso, um palmo bem medido de longo e tinha na ponta, a fazer as honras de uma cabeça, algo como uma manga carlotinha...

Munida das melhores intenções e muito alegre com a descoberta, Soror Tereza, tendo Tunico pela mão, levou-o em procissão, seguida de perto por Ana de Deus a Sandra ao local onde aguardavam as demais freiras. Em lá chegando, Soror Tereza logo tratou de apresentar a portentosa prenda às colegas de claustro, encorajando-as a aquilatar pessoalmente o tal Tunico.

Um grande ajuntamento de freiras juntou-se à volta do feliz jardineiro e cada uma das religiosas tratou de apalpar e medir o bom Tunico que, lisonjeado, estufava o peito e só fazia crescer e crescer. Uma das noviças, a mais rebelde, conseguiu prová-lo com a boca e, mimoseando o hirsuto saco, obteve rapidamente uma descarga que causou inveja a todo séquito -- mormente a Ana de Deus que julgava ter a primazia dos favores de Tunico...

E ia bem organizada e tranqüila a vida no convento, com o bem dotado jardineiro provendo diariamente as necessidades daquelas freiras. Quem não estava muito contente, entretanto, era Padre Herculano, o vigário, que desde a história do "Sermão do Pinto" passou a ser rejeitado pela congregação das agora bem servidas Descalças.

As espertas freiras, além de não darem mais chance a Padre Herculano, solicitaram a vinda de um novo confessor, bem mais idoso e muito surdo. Padre Cícero, como era chamado, fazia que ouvia os pecados das religiosas e, após algumas palavras ininteligíveis, dava-lhes sempre a mesma penitência: três "Padre-Nossos" e três "Ave-Marias". E Tunico seguia brilhando envernizado, satisfazendo algumas e ficando a dever a outras, cujo furor era tal que obrigava o jardineiro a usar o cabo da vassoura do jardim.

Logo o convento tornou-se a sede da fornicação, com as religiosas masturbando-se na Fila do Agrado à espera da vez com o exausto jardineiro. Não fosse pelas infusões que lhe servia Soror Tereza, o antes parrudo serviçal teria desmaiado umas tantas vezes.

Do outro lado da cidade, Padre Herculano, aperreado, tentava satisfazer-se com o grupo da terceira idade que, entre um bordado e outro, entre uma compota e outra, entre uma aula de piano e outra, abria-lhe as pernas e o sexo cabeludo em tristes vesperais.

Deu-se, então, que a filha de um rico mercador chinês foi destinada à guarda no convento, acompanhada de um dote magnífico. Soror Tereza, bem usando o dote, passou a pagar regiamente o jardineiro pelos serviços prestados, transformando o convento num fantástico e exclusivo lupanar.
Ana de Deus sugeriu então que, em retribuição à dádiva do mercador, se fizesse a iniciação de sua linda filha nas práticas de Tunico. O Conselho de Classe decidiu que sim e foram dar a notícia à noviça que, já sabedora do culto a Tunico, disse um emocionado “sim!”.

Inspirada pela leitura de um tomo proibido denominado "A Suruba Rave de Lu Ferreira", que encontrara sob o catre da mais idosa das freiras, Soror Tereza imaginava a iniciação de Amai Liu como o clímax das aventuras de Tunico.

Com grande alegria as freiras prepararam a iniciação da candidata. Amai Liu – este era seu nome -- era uma adolescente de figura esguia, muito delicada, de olhos inocentes e pele de alva nobreza. Muitas das freiras, havendo experimentado o tamanho e o peso de Tunico, acreditavam que tão pequenina formosura não seria capaz de agüentar as investidas daquele lendário pinto. Soror Tereza, entretanto, afirmava que sim, que já havia visto muita complacência passar pelo teste do Grande Alargamento, voltando ao normal logo em seguida. De modo que as mais prudentes se convenceram e seguiram nos preparativos da noite da folia, que teria lugar no abobadado Salão das Orações.

Chegou o dia, então, da Grande Iniciação -- ou Grande Irrigação -- e as freiras desdobravam-se em cuidados para com a petite Amai Liu, oferecendo conselhos, banhando-a com água de flores, untando-a com óleos especiais e dando-lhe caldos e outras mezinhas para sustentar-lhe as forças sem pesar-lhe no estômago. Amai, após tantos preparativos, foi vestida como uma freirinha -- simples e bela -- encontrar seu destino de alegrias. A Sala de Orações estava decorada com grande parcimônia, sublinhando a religiosidade do momento. Soror Tereza manuseava e untava Tunico, preparando-o para o sagrado momento. De quando em vez, esticava a cabeça de Tunico na direção de Ana de Deus, que abocanhava-o, alternando a vergastação das mãos de Soror Tereza com a doçura da pressão de seus lábios. As demais freiras aglutinavam-se, como podiam, em torno do local da Iniciação. E a expectativa era enorme quando no Salão adentrou, acompanhada por um pequeno e seleto séquito, a belíssima Amai Liu.

O jardineiro lá estava, como um deus; e Amai Liu caminhava, devagarmente para ele. A cada passo aumentavam a ansiedade da assistência. A cada suspiro ouvia-se uma cascata de outros suspiros. Até que o encontro deu-se. O jardineiro afagou os cabelos de Amai Liu e a noviça ajoelhou-se diante dele, com a cabeça baixa, obediente.

Soror Tereza estava muito excitada, mas continha-se -- sabia que o auge do prazer tinha que ser construído para doer mais e ser, portanto, mais intenso. Assim que, delicadamente, levantou a cabeça de Amai Liu pelo queixo e olhou-a nos olhos, pedindo que ficasse de pé. Auxiliada por Ana de Deus, desatou a túnica que cobria a nudez da noviça. E todas viram, como iluminado pela luz divina, o corpo esbelto da menina -- os pequeninos seios, o ilíaco, o púbis sem qualquer sombra de penugem, a a flor de cerradas pétalas que Tunico iria lancetar.

Ajudada por duas ou três freiras, Amai Liu foi reclinada numa espécie de altar e abriram-lhe as coxas para deixar à mostra o alvo do encantamento. Poucas religiosas haviam visto a nudez de Amai Liu e agora todas se perguntavam se Tunico encontraria espaço para caber naquele diminuto oratório...

Com muito jeito Soror Tereza e Ana de Deus passaram os santos óleos na entradinha de Amai Liu e na cabeçorra de Tunico, aproximando os dois como se fossem engatar um jogo de montar chinês, cujas peças à primeira vista não se encaixavam.

Mas... para surpresa de todas, aquilo que parecia impossível aconteceu: após um início doloroso, o borrachudo Tunico foi escorregando docemente pelo paradisíaco portal de Amai Liu e lá estabeleceu-se, parecendo estar em dúvida, já que entrava e saía, entrava e saía até que apressou o passo e explodiu.

A esta altura as freiras todas masturbavam-se freneticamente, inspiradas pela bela cena. Usavam dildos confeccionados pelo hábil jardineiro, que recolhera uma quantidade de galhos, esculpindo-os, alisando-os e transformando-os em paus de variados tamanhos e múltiplas utilidades...

O resto é história. A sagração de Amai Liu produziu um intenso e profundo efeito entre as freiras daquele convento. Várias se acasalaram e declararam sua lealdade a Lesbos. Outras tantas iniciaram divertidas relações com entregadores, marceneiros e até mesmo com o pai de Amai Liu que, indo visitá-la um dia, aproveitou para convidar umas tantas quantas para atender na casa de swing que estava a abrir na Capital.

Amai Liu usufruiu durante bastante tempo, e por todos os seus elásticos orifícios, das graças de Tunico; e finalmente tomou a frente na administração da maior parte das Casas de Prazer que eram de propriedade do pai. O jardineiro saiu pelo mundo num circo, apresentando Tunico, reservadamente, por R$200,00 a meia-hora. Ana de Deus e a noviça Sandra continuam no convento, zelando pelos usos e costumes da Ordem.

E Soror Tereza... bem, Soror Tereza vem a ser minha tia das formosas coxas; é agora enfermeira-chefe do maior hospício de uma grande metrópole; e foi por ela que soube da piada e dessa história...




Para MME, que sorriu ao ler.

Pero Vaas = 16abr12

quinta-feira, 1 de março de 2012

Negra Zulu


-- Ô, Zé, você já viu uma negra Zulu?

Estávamos num bar da Lagoa e a pergunta, assim de qualquer maneira, no meio de um silêncio qualquer, intrigou meu amigo.

-- .....?

-- É, Zé, uma negra Zulu. Dessas negras altas, bonitas, que andam que parecem estar de andas... devagar e altivas...

-- .... ?

-- Te pergunto porque eu vi. E não sei com quem dividir isso.

-- Tá bom, Carlos. Me fale, então dessa tua negra Zulu....

-- É o seguinte: segunda-feira fui a São Paulo ver um caso qualquer lá do escritório. Aí me encontrei com uma amiga com quem nunca havia estado pessoalmente....

-- E...

Tomei um gole de chopp. Mais outro.

-- E que, quando eu a vi chegando no restaurante fiquei de pé. Ela é bem mais alta que eu. E eu não sabia disso. Fiquei assim, meio que pego de surpresa, envergonhado... que besteira...

-- Sim, é uma tremenda besteira, mas eu entendo. Essa coisa da supremacia masculina, tamanho e coisa e tal...

-- É! Tamanho é documento sim, Zé... Não só de altura... Você já viu esses filmezinhos pornôs em que rola a maior acrobacia? Em que um pau grande, liso e duro de pedra vira um animal mitológico? Mas isso não vem ao caso...

Mais um gole e pedi mais um. Enquanto esperava, continuei.

-- Além de alta a mulher, a negra Zulu, era linda, meu chapa!

-- Sei que você gosta de negras, João. Até aí, nada.

-- Nada-nada, Zé. A Kill é belíssima, sob qualquer padrão que você escolha.

-- Kill?

-- É, Kill é o apelido dela. Bem a propósito, afinal. Compõe, canta, escreve, e é linda, bêtcho!

-- OK. E então?

-- Bem... me levantei, me envergonhei, ela sorriu, sacando a minha vergonha, aceitou a cadeira que eu puxei e sentou, me dizendo “Carlinhos...”. Ái, ái, ái – fiquei vendido!

-- Mas e aí, rapaz, como foi o jantar? Do que vocês falaram? Rolou um lance depois?

Dei mais um golaço e prossegui.

-- Conversamos de tudo. Quer dizer, ela me deixou tímido – ou intimidado—no início. Aí, com o tempo, fui soltando a língua, tentando um lance de sedução. Tudo muito pueril, mas que parecia encantar à Kill, que ia rindo, erguendo as sobrancelhas e pontuando o meu show de garnisé.

-- Ha ha... Imagino...

-- Foi horrível. Mas, no fundo, percebi que ela curtia esse meu lado infantil, descabeçado, babaquinha... E, lá pela sobremesa, já estávamos nivelados e ela me falava dos planos para um show e do livro de poemas que andava escrevendo. Quando terminamos o jantar, me senti em casa... Mas aí...

-- Aí?....

-- Quando chegamos à rua ela me disse que tinha que dormir cedo por conta de um trabalho na manhã seguinte. Colocou a mão no meu rosto, como se me consolasse e disse-me que poderia acompanhá-la até em casa.

-- Você deu-lhe um chega, pelo menos, nessa tua negra Zulu?

Fingi que não ouvi e continuei minha história depois de mastigar uma batata frita.

-- O caminho até a casa da Kill era curto. E então fomos andando, devagarzinho, esbarrando um no outro daquele jeito meio namoro, sabe? Eu assim meio que constrangido de novo pela diferença de altura, mas pertinho dela. Dava pra ouvir o fru-fru da lingerie por debaixo do vestido. Uma coisa!

-- Humhum.

-- Quando chegamos ao portão de entrada do prédio, ela me disse obrigado e me abraçou. Quer dizer, me enrolou nos braços dela, me ninou, me confortou... Mas depois me beijou a boca...

Cheguei mais para frente. Era um grande lance que merecia ser contado com a intensidade que eu sentia.

-- Epa, Carlos, então pelo menos um amasso rolou.

-- Rolou que, depois do beijo, ela me tomou no tal abraço! Fiquei com o rosto colado nos seios perfumados dela. Imagina a diferença de altura...

-- Mas você é baixinho mesmo...

-- Baixinho porra nenhuma. Um metro e setenta e três não é baixinho. Principalmente aqui nessa porra de Brasil...

-- Tudo bem... hahah... Tudo bem... E aí?

-- Aí que se você pensa que fiquei de pau duro imediato está enganado...

-- ...

Meu amigo pediu mais dois chopps pro garçon, olhou para mim e fez um gesto com o queixo.

-- Pois é, Zé. Entrei foi num transe daqueles. Tive taquicardia. Enterrei o nariz na carne doce da Kill. Me agarrei nela como um náufrago! Nem tirei sarro nem nada. Fiquei assim um tempão. Até que me dei conta. E me afastei. Ela sorriu e, de novo, passou a mão do meu rosto... “Carlinhos...” me disse... Foi aí que me dei conta de que meu pau tinha, a final, ficado duro e me afastei mais, ficando de lado e tentando não dar na pinta.

-- Parece um guri, Carlos.

-- Pois é... A Kill também achou, tanto assim que se despediu depois de olhar pra ele e sorrir. Depois deu um bye e entrou.

-- Cara, que legal e que frustrante ao mesmo tempo... Vocês vão se encontrar de novo?

-- Sinceramente? Não sei. Ela é meio reticente, não tem agenda livre, está sempre viajando. Não sei mesmo.

-- Que droga!

-- É o que eu digo, Zé, uma negra Zulu te desmonta. Você imagina que voltei no vôo pra casa pensando nela o tempo todo? Imaginando a lingerie preta, os seios grandes na minha boca... Mas aí, quando fechei os olhos, só sentia aquela coisa intensa, e a paisagem mudava... eram cachoeiras, junglas, poentes, uma vertigem de regiões muito profundas do meu inconsciente. Acordei com o avião batendo no solo e gritando “mamãe!”. Pode?

-- Eu que não quero uma negra Zulu na minha vida!

-- É, Zé...

Levantei-me e, antes de rumar para o toilette, sentenciei.

-- Mesmo que ela me chame, não sei se vou vê-la. Tenho medo de não voltar... Ou de ficar ainda menor...

Perov = 01mar12

Para F/, a Negona.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Fuga

A Dama do Lago sabia que teria que abandonar Malman desde o início da história dos dois. Mesmo assim, deixou que se envolvessem até o ponto de terem uma filha, e mais...

Durante semanas e meses planejou como faria para deixar a clareira do bruxo. E a cada vez que determinava, adiava. Mesmo tendo os poderes e o conhecimento suficientes para lidar com o coração dividido, a Dama ia-se envolvendo mais e mais com a vida que levava.

Primeiro, a mera satisfação de seduzir Malman. Depois, o contentamento de arrancá-lo do torpor e refazer sua vida, alterando seus códigos, sua morada e até sua magia. E, mais importante ainda, embarcando com ele na aventura de ter uma filha e cria-la até aquele ponto!

A Dama caminhava firme e rápida pela floresta, e ia repassando os meses que passara ao lado do bruxo. “Não espanta” – dizia para si mesma – “que me demorasse tanto a tomar tino e para usar minha determinação!.... A final, vingou em mim o poder de controlar meu destino e de evitar o que não quero....”

E, quanto mais velozmente seguia pela floresta, foi a Dama  transformando-se. Primeiro os cabelos foram escurecendo; depois foram arredondando suas curvas, aumentando o diâmetro dos quadris e das coxas e o bojo dos seios; e finalmente o rosto, com seus detalhes e saliências. E de repente ali estava, correndo com a menina Lívia ao colo, a Bela das Brumas!

De fato, não fora difícil tomar a aparência física da Dama do Lago. Esta parte envolvia uma magia muito simples. Difícil mesmo foi dar-lhe uma personalidade, um caráter, tão diferente do seu; camuflar os seus jeitos e movimentos, sob aquelas meigas maneiras; e, mais ainda, amar Malman de forma tão terna, quando a cada noite desejava devora-lo como o fizera antes.

Mas tudo valera a pena. Desde o primeiro encontro com o bruxo quisera voltar a vê-lo, a estar lutando com ele no catre. Sabia, entretanto, que não poderia ser como Bela. Aliás, nunca poderia ser como ela mesma, assim como agora não mais poderia ser como a Dama. Era seu destino traçado por Chronos quando nascera: não poderia unir-se a qualquer homem sem que isso trouxesse a desgraça para ambos! Pôde enganar a sina porque usara um lado claro da sua matriz energética, mantendo inerte o seu lado escuro. Mas esta dualidade tinha validade certa. Assim como Eros e Tânatos se alternam, imantados um ao outro, assim as duas faces da personalidade da Bela poderiam viver, por um tempo a revezando-se. Mas sempre chega a hora de refundirem-se em prazer e dor.

Sim, prazer e dor. Por mais que tivesse sido grande a alegria de ter vivo com Malman – e, portanto, o sofrimento por deixa-lo – Bela abraçava seu momento de retorno com uma sensação de resgate de si mesma, até de alívio. E foi com este ânimo que atravessou o último vau de rio e chegou à Clareira Invisível – seu lar.

Logo se encontrou com a Grande Mãe – a quem entregou Lívia. Não eram necessárias explicações, já que Mãe via tudo, ouvia tudo e, portanto, sabia de tudo. Um abraço foi suficiente para colocar as notícias em dia e para dar as boas-vindas à Bela.

Foi, então, cercada por seus escravos e escravas e meia dúzia de pequenos Incubus e Succubus. Submissos, escravos e escravas puseram-se de joelhos diante de Bela, os olhos baixos escondendo o desejo de servi-la; enquanto isso, os pequeninos demônios voavam em volta da bruxa e alegremente puxavam-lhe os cabelos, mordiam-lhe os lóbulos das orelhas, ou mesmo apertavam-lhe o bico de um seio.

Cansada de tanto movimento, acabou por espantar a todos e dirigiu-se para sua morada, que ficava mimetizada entre árvores frondosas à beira da Clareira Invisível. Pronunciou as palavras mágicas e, ao abrir do portão, viu que tudo permanecia como havia deixado – quando saíra à busca de Malman, estava numa fase gótica, exercitando-se na arte da dominação e, portanto, a decoração das salas e alcovas montava o cenário indicado para treinar e disciplinar seus escravos e escravas.

Diante daquele ambiente não condizente com seu estado d’alma, Bela estalou os dedos e num átimo os aposentos ficaram mais leves e o perfume de baunilha espalhou-se pelo ar. Satisfeita, bela despiu-se, olhou-se no espelho, reconheceu-se e devagar entrou na grande banheira de águas mornas para repousar o espírito e o corpo. Adormeceu e sonhou com Malman e Lívia – os três brincavam juntos no pequeno lago e as palavras e risos eram doces e felizes, até que Bela acordou assustada.

Não querendo voltar ao passado daquele sonho, lutando contra aquelas lembranças, Bela ordenou a vinda de dois escravos e de sua escrava preferida. Deitada na imensa cama recebeu-os e mandou que se esmerassem. E assim, com a ajuda de um par de Incubus, Bela foi da exasperação ao êxtase. Sugada, lambida, esfregada, massageada e penetrada, chegou ao clímax várias vezes. Até que deu um basta, expulsou a todos da alcova, caindo, em seguida, num sono sem sonhos.

Perov = Janeiro de 2012

Para DB, inspiradora da série.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Um Desenho Para Você

Um Desenho Para Você

Desde pequeno meus pais gostavam muito de meus desenhos. Estimulados pelos comentários de minhas professoras, compravam material toda vez que eu pedia e me deixavam em paz para criar o que me viesse à cabeça. Depois, orgulhosos, mostravam minhas obras de arte a vizinhos e parentes.. Alguns desses capolavori tenho até hoje, pendurados em uma das paredes do meu quarto.

Passei por muitas fases criativas. Cheguei mesmo a desenhar de monstros em guerra até enormes cenas de bacanais – devidamente escondidas dos olhares curiosos dos meus pais. Fiz histórias em quadrinhos seriadas, com heróis fantásticos, que faziam muito sucesso entre meus colegas de colégio. Alguns de meus desenhos foram expostos em concursos municipais e até regionais. Cheguei mesmo a ganhar alguns prêmios.

Na adolescência segui com os desenhos. Jogava futebol, passeava, ia a festinhas e, é claro, estudava. Mas meu aconchego era minha escrivaninha e a coleção de papéis, blocos, lápis e pastéis. Nesta época passei a desenhar livrinhos de sacanagem, sob a influência do grande mestre – Carlos Zéfiro – que hoje, merecidamente, é publicado em coleções luxuosas. Vendia ou alugava alguns deles no colégio até que fui pego. Meus pais foram chamados à diretoria e, de castigo, tomaram-me tudo. Fiquei quase seis meses, louco da vida, sem desenhar. Mas, de quebra, conheci Julieta.

Julieta era uma menina linda, filha de um vizinho, que logo simpatizou comigo. Freqüentadora do mesmo colégio, sabia da minha fama de desenhista sacana. Riu muito quando me contou que tinha curiosidade a meu respeito. Com naturalidade, começamos a sair e um dia, numa seção de cinema, apalpei seus peitos e trocamos um beijo de língua. Uma semana depois me espantei quando ela pediu-me para desenhar-lhe um nu. Tímido (e, devo acrescentar, idiota), recusei. E, a partir daí, nosso namoro promissor veio a baixo.

Mais adiante conheci a Gilda, com quem, a final, me casei. Gilda não gostava muito das minhas histórias, mas foi com ela que transei pela primeira vez. Nada muito especial, a não ser porque a transa aconteceu momentos depois que concluí um nu dela, a pedido meu (que deixara de ser idiota fazia tempo). Nosso namoro, ao contrário do que acontecera com Julieta, foi para frente. E só fui ver outra mulher despida quando entrei para a Escola de Belas Artes.

Meus pais, apesar do tanto que me incentivaram, ficaram enormemente surpresos – e decepcionados – quando anunciei que iria entrar para a ENBA. “O que é isso, meu filho!?...” reagiu meu pai “... uma coisa é ser artista amador... outra é ter vida de artista... pensei que seguiria outra profissão... não precisava ser dentista, como eu, ou professor universitário, como sua mãe... mas pintor?!” Além de decepcionados, estavam bastante preocupados com meu possível envolvimento com os “bandos de desordeiros” que faziam passeatas e “propagandeavam o comunismo na Cinelândia”.

Bem, enquanto eu começava a me divertir com outras técnicas e materiais e a brincar com uma Leica emprestada, resolvi fazer concurso para fiscal da Fazenda Nacional e assim, aos vinte e um anos, tinha um empreguinho garantido. Fizera meu pai feliz e ainda tinha como planejar casar-me. O diabo eram os atrativos da Escola: minhas colegas puxavam-me para um lado e para o outro e meus amigos não me deixavam em paz na hora do chopp no Amarelinho. Além disso, havia a Turma do Parque Lage e os retiros na Aldeia de Arcozelo. Foram dias passados entre uma criativa sacanagem, engajamento político e namoros amassados com Gilda. E, entre essas tantas venturas, lá tinha eu que equilibrar-me no emprego, tomando a bênção do chefe e espremendo contribuintes.

Terminei o curso e casei-me. Fui morar na Glória e comprei um Brasília de segunda mão. Gilda não via com bons olhos minhas amizades da ENBA; tinha um ciúme que se pelava das modelos – que acreditava serem dezenas de putas decadentes – e uma vez apareceu de repente numa aula de pintura, quando pintávamos o nu de uma pobre modelo idosa. Também me olhava de lado quando chegava tarde dos bares. Atribuía meus atrasos a farras que me imaginava freqüentando. Achava minha vida digna de um romance rocambolesco. Eu, entretanto, amava Gilda, e a ela era absolutamente fiel...

Minha estabilidade no emprego, a amizade com os chefes, os cargos em confiança, os triênios, qüinqüênios e tantos aumentos mais – e, principalmente, o fato de não termos filhos – nos permitiram economizar, mudar para Copacabana, termos o carro do ano e viajarmos uma vezinha ou outra para Portugal, onde minha mulher tinha parentes. Gilda, aos poucos, foi-se dando conta da vida fosca que eu levava e deixou-me em paz com meus desenhos, minhas aquarelas e meus óleos. Um dia lembramos do nu que eu pintara dela; ficamos excitados com a lembrança e rolamos apaixonadamente pelo chão. Esta foi a melhor transa que me lembro de termos tido.

Fomos envelhecendo, um dia me aposentei, e noutro Gilda se foi, de repente, num AVC fulminante. Foi muito triste; mas teria sido um desastre conviver com minha mulher com seqüelas. E foi assim que empacotei minhas coisas, vendi meu apartamento e fui morar no prediozinho da Tijuca. Eu e nossa empregada de tantos anos, Dna. Esmeralda – uma quituteira formidável, de um mau-humor extraordinário.

Logo que cheguei à minha nova casa, no edifício Doralice, fui fazendo conhecidos. Os tijucanos guardam aquela maneira gentil e bondosa de outrora; dizem bom dia a inteiros desconhecidos e se oferecem para ajudar sempre que percebem uma necessidade. Também são prolixos conversadores e foi assim que travei conhecimento com o Rubélio – também como eu, um funcionário aposentado da Fazenda. Rubélio, como bom pernambucano acariocado, sabia de todas as donas que eram boas ou não boas do prédio; também conhecia todas as histórias, desde as mais inocentes às mais escabrosas, envolvendo patrões e serviçais pegos em flagrante. Contou-me das separações de casais novos e antigos assim como, com a mesma tranquilidade, descreveu-me, um a um, dos suicídios ocorridos no prédio. Com particular precisão falou-me do vovô do 404 que, pego em flagrante com a boca nos haveres da netinha, atirou-se pela janela E foi numa de nossas conversas, durante um jogo de damas no playground, que Rubélio soube que eu era artista.

“Epa!” me disse “tens que fazer um retrato meu, ó pá”. Rubélio gostava de imitar o sotaque português toda vez que queria ficar entre jocoso e sério – sinal de que não acreditava, ainda, nas minhas habilidades. Para desafiá-lo, respondi-lhe que sim; e para molestá-lo pela desconfiança, acrescentei que o faria quando me desse na telha. Rimos muito, acompanhamos a mulata do 201 passar, rebolando, e encerramos a partida sem xeque.

Dias depois, guarnecendo um bloco de papel Canson e meu estojo de lápis e carvões, fui á casa do Rubélio,. Quando meu amigo deu-se conta do propósito da visita, pediu licença, afeitou-se, penteou-se e voltou envolto em algo que detectei ser um rançoso Old Spice. Sentou-se muito digno à mesa de jantar e disse-me “Pode começar!”. Comecei e terminei rapidamente. Rubélio, surpreso e incrédulo pelo curto tempo que eu demorara, pegou-me o bloco das mãos e mais surpreso ficou com o resultado – “Está ótimo!... está ótimo”, foi repetindo enquanto aumentava a voz. Pôs-se de pé, apertou-me a mão e disse, agradecido, “Está ótimo!”, mais uma vez.

Rapidamente a notícia de que eu desenhava correu pelo prédio. E da próxima vez que estava tomando sol no playground apareceu-me a primeira cliente – uma senhora cheinha de meia-idade, que disse chamar-se Eva, residente do 401. Debalde disse-lhe que não era profissional e que não desenhava mais. Eva fora convencida por Rubélio a fazer-se retratar por mim. E tanto insistiu que lá fui eu à casa buscar o bloco e o estojo. Quando voltei ao playground vi que Eva estava agora acompanhada de duas vizinhas do prédio, interessadas em assistirem ao meu “processo criativo”. Percebendo a arapuca, anunciei que tudo aquilo era uma brincadeira e que eu estava abrindo uma exceção para Eva. Só que Eva, quando notou que me esquivava, saltou do banco e disse que me pagaria pelo retrato; e, diante do meu espanto, mostrou três notas de cem. Não pude fazer nada; dei-lhe algumas instruções e comecei.

Para encurtar a história: os três desenhos ficaram muito bons e faturei 900 reais naquela manhã. E daí por diante choveram clientes. Só que tive que aumentar os preços, fazer uma tabela e, ainda, passar a vestir-me de maneira adequada: às vezes um gorro à Milton Nascimento, às vezes a fivela do cinto ao lado, às vezes uma camisa azul-zuarte, mas sempre de jeans e sandálias ou tênis. Também passei a atender em casa, de sorte que tive que mudar as coisas de lugar, criar uma atmosfera, armar cavalete, pendurar panos de fundo, tudo sob o olhar de censura de Dna. Esmeralda. Algumas vezes pintava óleos, retratos de família, trabalhos que me custavam dias. A tabela, então, saltava alguns dígitos. Estranhamente, entretanto, clientes não me faltavam. Havia, de fato, um mercado para retratos não fotográficos naquela simpática região suburbana. E aí a coisa subiu outro degrau.

Foi o Rubélio mesmo que me sugeriu atender às madames na casa delas. Segundo ele me confiou, piscando os olhos, era uma forma de unir o útil – a grana, certamente – ao agradável – a possível atracação das modelos. Eu sentia uma grande saudade de Gilda, mas também entendia que, possivelmente, estava entrando em meus últimos anos de atividade. Logo fui seduzido pela idéia de Rubélio que, graças às suas amizades na Receita, arranjou-me um suprimento industrial de pirulinhas variadas.

E, por coincidência ou não, foi Eva minha primeira cliente “a domicílio”. Abriu-me a porta, simpaticona e risonha, vestindo uma bata cômoda e florida. Puxou-me pela mão e me fez sentar na melhor poltrona enquanto acomodava-se no pufe à minha frente. Estava excitada com a idéia de ver-se retratada num óleo e pegava minhas mãos entre as dela enquanto descrevia a pose que desejava. De repente ficou de pé e mostrou-me o que desejava. Não estranhei que fosse um meio-nu mostrando-lhe os ombros e as coxas benignas. Disse-lhe que sim e ela pediu-me licença para dar alguns retoques na roupa.

Enquanto esperava por Eva foi passeando pela pequena sala de estar. E lá vi, a um canto, um piano de parede. Sobre ele um par de retratos e um bordado nordestino que caía em “V” sobre a caixa do instrumento. E então tive uma epifania: seria muito bom agregar algum elemento simbólico aos retratos que, daí por diante, faria. E, quando Eva retornou, cuidadíssima como uma boneca oriental, falei-lhe sobre minha idéia e ela gostou. Fiz, então, o esboço do retrato, conforme Eva pedira e eu ampliara. Concluído o primeiro desenho, mostrei-lhe e ela gostou muito. Pediu alguns minutos de descanso e buscou algo para bebermos.

Ficamos ali, num sofá, conversando, até que, sem prevenir-me, Eva debruçou-se sobre mim e deu-me um beijo enquanto desnudava um seio e colocava minha mão sobre ele, apertando-a. Tive uma ereção incontornável e, em pouco, fiquei de cuecas. Eva dançava nua à minha frente e dizia-me que iria dar um presente. Sentou-se ao piano, abriu-o e começou a tocar uma sonata. Aproximei-me e apertei-lhe de novo o seio e ela devolveu-me a carícia presenteando-me com uma felácio de alta técnica. E, ao ver-me completamente ereto e envernizado, levantou-se e pediu-me que sentara em seu lugar no piano. Logo sentava-se sobre mim, empalando-se gostosamente e retomava o controle do teclado. Enquanto ia-me devorando, perseguiu a tal sonata até gozarmos. Quando voltamos ao sério disse-me que Chopin, sua mescla de romantismo e sensualidade, dava-lhe uma intensa excitação. Recompôs-se e recompus-me. E demos por encerrada a seção daquele dia.

Verdade é que o óleo de Eva ficou ótimo. Seu corpo cheio e curvilíneo como o de uma Vênus de Rubens, ficou ressaltado e ganhou frescor com o piano ao lado. Tivemos várias seções antes de ter o quadro pronto. E várias transas malabares. Estou seguro que Rubélio sabia de tudo, já que piscava-me os olhos a cada momento que cruzávamos por Eva dentro e fora do prédio.

Com o sucesso do óleo “Eva e Seu Piano”, recebi outras tantas encomendas vindas do Doralice e da vizinhança. Embora eu não tivesse a experiência mercadológica da Turma do Parque Lage, aperfeiçoei minha pegada, exigindo longas conversas com as modelos para poder transmitir “toda a emoção e todo o sentimento” para as telas. Havia que visita-las algumas vezes, saber exatamente o cenário e os símbolos que iria usar. Agia como contra-regras, cenógrafo, iluminador, roteirista e editor – um verdadeiro metteur en scène. E as trepadas cinematográficas se sucediam; saborosas trepadas, preferencialmente vespertinas, quando o sol doura as carnes e o bolo de fubá com café é do melhor sabor.

E eis que, certo dia, nem bem acordava, tocam à minha porta e, quando abro, dou com a mulata do 201. Sinceramente? Era um quadro, emoldurado pelo marco da porta. E eu só pude dizer “Sim?”. E ela respondeu com um blá-blá-blá longo, em que misturava várias informações, questionamentos e impressões que pude resumir, amarfanhadamente, que se tratava de um pedido para fazer-lhe um retrato. “Entre, entre”, convidei-a, “Sente e espere um minuto”. Fechei a porta atrás dela fui luzir-me como podia: lavei o rosto, escovei os dentes, vesti as sandálias e voltei à sala – que agora era mais um atelier que uma sala.

Comigo à frente dela, Dora apresentou-se. “Dora de Doralice, mas aí fica parecendo o edifício e prefiro que o senhor me chame de Dora...” “Claro!”, respondi, “... principalmente porque você não se parece nada com um edifício!” e percebi, pelo sorriso, que ela entendeu minha referência oculta às suas curvas. “Me chame de Carlos – esse é meu nome – e esquece o ‘senhor’”. Resumindo a conversa, que não foi das mais notáveis, acertamos que eu iria fazer um retrato de Dora e nossa parceria seria um segredo. Posterguei todos os demais compromissos da semana – inclusive com duas novas clientes, para dedicar-me exclusivamente a pintar Dora, nos horários em que ela podia dar uma escapadela para posar.

Sempre gostei de ver mulheres trabalhando. Até Dna. Esmeralda eu gostava de olhar. Por vezes observava, entre comovido e excitado, empregadas que arrumavam a casa, lavavam e passavam a roupa, cuidavam da janta, mourejavam enfim. Silenciosamente tomava apontamentos mentais de seus movimentos na labuta, imaginando-me um Lautrec no Moulin Rouge. E, quando podia, tocava suas mãos louvando-lhes a beleza e a resistência. Era essa a referência que gostaria de fazer no quadro de Dora. Mas ela não quis. Preferia ser registrada num momento de descanso, ou numa praça, passeando entre flores, ou mesmo numa praia deserta, observando o mar. Finalmente, concordou com a inclusão de um e outro pequeno elemento surreal apenas para satisfazer-me.

A tela chamou-se simplesmente “Dora”. E registro que, se bem que muito quisesse, não a comi. Não se come uma musa – que deve permanecer inalcançável e etérea. Sei que noventa e nove por cento dos artistas plásticos ou não plásticos discordariam de mim, eis que comeram devotada e antropofagicamente todas as suas musas e diriam que sou um idiota por almejar o Belfort Duarte do bom comportamento em campo. Mas assim foi: tomado de um grande fervor, sequer tentei comer a Dora; e Dora, um tanto decepcionada no início – pois estava acostumada a ser cantada, e assim valorizada, até pelo bispo da sua igreja – entendeu por fim que o valor que lhe dava transcendia a todo o mais.

Dora escondeu a tela, mas não tanto. Outras empregadas foram aparecendo. Não muitas e não do prédio e da vizinhança. Algumas delas exemplos de nossa beleza local, de pele lisa e lustrosa “linda como a pele de macia de Oxum”; algumas delas opulentas como as mulatas do Di Cavalcanti; algumas simples santas da pele mulata, discretas, acanhadas e avessas ao meu olhar, mas curiosas... E assim outros nus simbolistas foram sendo pintados para uma clientela que não me pagava – simplesmente deixava as telas comigo até um momento futuro, quando pudessem levá-las. Dna. Esmeralda, pela primeira vez em muitos anos, sorria-me não sei porque. E até dela pintei um singelo retrato – que deixei exposto na melhor parede da sala.

Ocorre que um dia Eva e Rubélio me procuraram com uma grande notícia: a dona de uma galeria da Barra da Tijuca havia gostado do óleo de Eva e queria entrar em contato comigo para ver outros trabalhos. Meio blasé, disse a eles que tudo bem e, dias depois, recebi a visita de Cybele Utsch – que mais adiante se tornaria minha amiga, marchand e agente; e só não se tornou algo mais porque sua preferência atendia pelo nome de Josi. Cybele é uma senhora agradabilíssima que se dá com meio mundo do dinheiro novo do bairro. Entrou em minha casa como se fôssemos amigos de anos. E depois de referirmos algumas amizades cruzadas, perguntou-me se tinha algo para mostrar. Fui sincero: os únicos trabalhos que tinha em casa, além das telas por terminar, eram os das empregadas – uma série muito específica, quase repetitiva. Cybele insistiu para vê-los e mostrei-os. Ficou muito impressionada; e comentou-os como um excelente crítico de arte. E terminou por propor-me uma exposição para dali a um mês. Exatamente com as telas que vira. Aceitei. Na saída, ainda disse-me: “Não esqueça de trazer aquele lá, da parede...” e apontou para o quadro de Dna. Esmeralda “... é, de longe, o melhor de todos”.

A exposição foi muito bem preparada por Cybele. O jogo dos quadros com as tapadeiras e a iluminação dirigida ressaltava a profundidade e as cores das minhas mulatas. No dia do vernissage eu estava muito nervoso e devo ter tomado umas três doses de uísque enquanto me vestia. De modo que quase tropecei quando saltei do táxi na porta do shopping onde ficava a galeria. Restabeleci-me e entrei. A galeria, que ficava um pouco distante das portas automáticas, resplandecia. E logo que cheguei fui saudado por Cybele que, sempre com Josi por perto, apresentou-me a uma legião de seus amigos e jornalistas. Tomei mais duas taças de vinho branco e entrosei a conversa com várias admiradoras, entre elas Eva e um par de outras clientes. Estas reclamaram muito por eu não ter solicitado um empréstimo de suas telas. Eu sabia do risco que havia em desfavorecer a clientela em prol das mulatas; mas foi um passo bem pensado – evitei problemas e ainda ganhei simpáticas resenhas, que elevaram-me a um certo grau de pintor engajado.

Saí da galeria em estado de graça. Durou pouco: dia seguinte, encontrei-me com um Rubélio zangadíssimo, que nem me permitiu cumprimenta-lo. Espinafrou-me pelo tratamento indiferente que dera aos amigos que amealhara para levar ao vernissage, principalmente seus familiares, recém chegados do Recife. Adiantou nada que me desculpasse, que atribuísse a grossura ao nervosismo, à bebida. Embora não me cobrasse qualquer coisa, Rubélio sentia-se parte do meu sucesso já que, sem a intervenção dele, eu jamais teria iniciado minha “carreira” no Doralice. Percebi isto quando despediu-se sem sequer dar-me um abraço.

Todos os quadros da exposição – exceto o retrato de Dna. Esmeralda, pertencente à minha “coleção particular” – foram vendidos na primeira semana. Cybele telefonava-me sem parar, lendo-me as resenhas que eu já havia lido, e falando de planos para entrevistas e montar outra exposição. Mas eu não estava feliz – havia pisado na bola com meu melhor amigo, sem dúvida...

A coisa não parou aí: alguns dias depois me apareceu lá em casa a mulata do 201, a Dora, acompanhada de outras duas mulatas retratadas por mim. As duas haviam sabido da exposição e queriam os quadros de volta e me diziam que as outras amigas queriam o mesmo. Foi um desacerto, no qual Dora não ficou do meu lado. “Uma revolta na senzala!”, pensei mas não disse.. E, depois de muita negociação e ameaças, concordei em pagar quinhentos reais a cada uma pelo tempo que posaram. Que falassem com as outras e que viessem todas receber e estávamos quites. E assim foi feito – uma a uma das empregadas recebeu os quinhentos reais e assinou um recibo. Tudo sob o olhar carrancudo de Dna. Esmeralda que, dado o lavor de testemunha, recebeu mil reais pelo seu retrato.

Mais um par de dias passaram e recebi a visita de Rubélio. Constrangido, pois me havia dado as costas, apresentou-me sua sobrinha-neta do Recife, que havia ido ao vernissage, conhecido meus quadros e queria saber se eu estaria disponível para dar-lhe algumas aulas. Foi assim que conheci Maria Vitória – minha amoreca. Procurei ser neutro quando assenti em dar aulas à menina. Mesmo assim Rubélio fez-me uma cara de “veja lá” quando foi-se. Marcamos a primeira aula para o dia seguinte de manhã, quando a luminosidade do atelier era melhor.

Pontualmente recebi a visita de minha nova e única aluna. Mostrei-lhe alguns trabalhos em desenvolvimento e pedi que sentasse, enquanto buscava um café. Quando voltei Maria Vitória estava de pé, examinando um livro que eu deixara aberto na mesa de jantar – uma novela qualquer da qual não recordo o nome. Fechou-o e voltou a sentar-se. Tomou o café que lhe ofereci e, como nada dizia, resolvi dar-lhe um panorama de minha “vida e obra”.

Ouviu o que eu falava com evidente educação, sem atalhar-me – o que, na verdade, entendi como mostra de irreprimível tédio. Ao terminar minha prosódia, senti-me vazio, presunçoso e lamentavelmente indefeso. Percebendo meu embaraço, Maria Vitória sorriu-me e começou a a discorrer pela rica vida que levara. Muito cedo, decidira que desejava trilhar o “caminho das artes”, algo que “mexesse com os sentimentos, com a sensibilidade” das pessoas. Sem focar exatamente em alguma profissão, entrara para a FAUPE porque gostava de design, arquitetura e pessoas, mas até aquele momento não achara o que realmente desejava fazer. Gostava de desenhar e isso a levara a aceitar o convite do tio para meu vernissage. Estava sem fazer muita coisa no Rio e ter algumas aulas comigo poderia ser uma boa idéia. Arrematou essa história dizendo-me, sem qualquer motivo aparente, a não ser para rir, que havia me visto tropeçar na entrada do shopping. E de fato riu. Mais do que o conteúdo da fala de Maria Vitória, fiquei atento à sua voz molhada, saborosa,lindamente arrematada pelo riso mais cristalino que até então eu ouvira. Minha aluna ria com os dentinhos pequeninos, com os grandes olhos puxados, com o nariz arrebitado e com a expressão facial mais sapeca que um homem poderia agüentar sem rir também.

Daí por diante, foi tudo mais ou menos fácil. E difícil. Lá estava eu, sentindo-me um velho safado, aguardando os minutos que faltavam para a chegada de Maria Vitória. Os trabalhos seguiam inacabados, com as clientes reclamando, enquanto eu me esmerava na programação das aulas e da execução da didática. Revisitei tudo o que pude do material da ENBA, comprei novos (e caros) livros de História da Arte, emprestando-os sem volta à minha aluna. Dna. Esmeralda nada falava desse meu transe juvenil; bastava seu olhar de censura e descuido estudado com que esbarrava em mim pela casa. E um dia Maria Vitória voltou para Recife, sem me dar sequer a chance de declarar-me...

Ah, que dias passei. Sem a musa, foi-se a inspiração. Recusei novos trabalhos e atrasei ainda mais a conclusão dos que estavam encomendados. Então, quando eu estava no fundo desta tristeza, apareceu-me Cybele com Josi pelo braço. “Querido...”, disse-me ela, “... tenho uma ótima notícia e um favor pra pedir...”. E engatou, entrando pelo atelier adentro, “Primeiro a notícia, dois pontos: consegui que você fosse convidado para uma coletiva em Miami... junto com o Romero Brito e outros tantos que fazem sucesso por lá...”.

Eu não estava muito animado com a tal notícia, para desânimo de minha agente. Primeiro, porque continuava deprimido com a partida de Maria Vitória; depois porque lixava-me para esse público que gostava tanto da porcaria de Romero Brito e sua temática infantil repetida ad nauseam. Vendo minha reação, Cybele pegou-me o rosto com as duas mãos e procurou animar-me: “Querido, será que você não vê? É a rota do sucesso... primeiro Miami, depois o Mundo!... Muito grana para você... e para mim...”. Tive que concordar. Discutimos, então, como faríamos para montar a minha parte, que quadros (que eu não tinha) a enviar. E o prazo era curto. “Dá-se um jeito!” Finalmente eu disse, já imaginando como faria. “Ótimo!” respondeu-me alegre Cybele “Então agora o pedido... Quero que você pinte um nu da Josi para mim!”

Josi também foi tomada de surpresa, e deu um passo atrás, resistindo à idéia. Mas Cybele convenceu-a, com firmeza, que queria muito tê-la pintada pelo melhor retratista que conhecia – eu. Faltava me convencer. E não durou muito e eu já estava conversando com Josi para ver como prosseguiríamos. Cybele, vendo que tudo se acertava, não quis perder a oportunidade: “Por quer não começamos agora?”. Assim foi feito.

Sob instruções de Cybele, Josi despiu-se em meu quarto e voltou enrolada um lençol branco. Eu já estava sentado diante da prancheta, tendo à minha frente uma folha de canson. E então minha amiga desnudou a sua amiga. Meus olhos se arregalaram e olhei fixamente para o mais belo par de seios que eu havia visto. Com os mamilos reagindo ao olhar, Josi instintivamente cobriu-os com um braço enquanto que, com a mão livre buscava puxar para si o lençol, escondendo o também belo Monte de Vênus. Diante do ocorrido e, para não arriscar um desentendimento, disse às duas que achava que o nu deveria ser assim mesmo: com Josi cobrindo os seios com um braço e com algo cobrindo-a dos pés à cintura. E passei a bosquejar a primeira prova.

As duas amigas ficaram muito satisfeitas com o desenho, que mostrava Josi como uma deusa grega, recatada como num clássico censurado, tendo apenas uma cor azulada que vazava para amarelo, aos pés da figura, como pano de fundo. E após algumas seções o óleo estava praticamente pronto, com Josi e Cybele muito felizes com o resultado. Tão felizes que resolvi presentear Cybele: no alto da tela, à direita, pintei uma águia de asas abertas, em pleno vôo. As duas agradeceram e, em mais ou menos uma semana, passado o período de secagem e verniz, levaram a tela, abraçadas.

Pintar cinco quadros deu-me mais trabalho conceitualmente do que propriamente pinta-los. Depois das aulas com Maria Vitória eu estava já cansado de pintar retratos, fosse de que jeito fosse. Havia outros cenários que me emocionavam tanto quanto a figura humana que eu queria desenvolver. Temas maiores como a solidão, a indiferença das coisas às quais atribuímos uma pátina pessoal, a luminosidade e os contrastes da Natureza e muitos outros leitmotive ainda não explorados por mim, assim como outras técnicas que gostaria de desenvolver além do desenho e da pintura a óleo. Cybele, entretanto, sentindo o odor de uma possível postergação, convenceu-me a manter-me no universo dos retratos e trouxe-me, uma a uma, as modelos das novas telas – que ficaram dentro do padrão usual de meus trabalhos.

Não fui a Miami, mas soube, por Cybele, que deveria ter ido. Com todas as minhas telas vendidas, algumas para não-brasileiros, minha pequena mostra podia ser considerada bem-sucedida. E de fato foi. Alguns meses depois eu expunha numa individual em São Paulo. Mais sucesso de público do que de crítica, recebia encomendas de toda a parte, principalmente do interior de São Paulo. Até que passei a receber encomendas de Brasília, do Nordeste, do Sul e de Mato Grosso. Viajei muito e meus preços subiram vertiginosamente. Também passei a vender em Nova Iorque e em outras cidades da Flórida, como Orlando e Palm Beach – onde logrei retratar um ícone do dinheiro velho. Com o sucesso, minha libido era constantemente gratificada, mas minha alma permanecia vazia.

Também com o sucesso mudei-me para uma cobertura na Barra. Aposentei Dna. Esmeralda – que cobrou-me, de novo, pelo quadro que pintara dela. Conheci uma prostituta entrada nos trinta no Quatrocentos, a quem tornei minha governanta e principal fornecedora de companhia. Como era discreto e mais ou menos silencioso, o prédio tratava-me bem e fornecia-me os serviçais que necessitava. Com a proximidade da praia, seguia o conselho de um bom Pai-de-Santo e lá rezava com fervor a Oxumaré.

E, estando tudo assim no seu devido lugar, eis que me aparece, de novo, a Maria Vitória. Não me dera conta, mas haviam passado três anos desde que nos conhecemos. E ela estava linda como nunca. Bateu à minha porta numa manhã de domingo de Verão, quando eu acordava da farra do dia anterior. Logo que recebi o chamado da portaria e mandei subir a ex-aluna, tratei de mandar embora, de qualquer maneira, as três moças que dormiram comigo. De nada adiantou que as Três Graças se fossem. Maria Vitória, assim que entrou em casa, percebeu, pelo perfume misturado à desarrumação, que eu tivera uma noite daquelas. E sorriu com os olhos gatos, compreensiva, estendendo-me um pacote. Desfiz o embrulhinho e, feliz, dei com o delicioso Bolo de Rolo da Casa dos Frios.

Durante aquele Verão suspendi o contrato com a governanta. Maria Vitória passou morar, praticamente, na minha casa. As aulas de desenho não se repetiram. Ao invés delas, tivemos longas conversas sobre literatura, cinema, arquitetura; ou longos passeios silenciosos pela beira da praia. Minha amoreca havia deixado a faculdade de arquitetura e agora decidia-se pela fotografia ou pela publicidade. Também se havia tornado membro da Juventude Petista, engajando-se na luta pelos programas do Nordeste, particularmente na vertente do Fome Zero. Atribuía sua participação política à expansão do seu universo. Certo dia trouxe-me uma coleção de textos curtos: contos, exercícios auto-biográficos; diálogos; e poemas. Fiquei entusiasmado, mostrei-lhe meus escritos e nossas conversas atingiram outro nível.

Íamos ao cinema, ao teatro, voltávamos animados, criticando o que havíamos visto; líamos juntos, recitávamos, ouvíamos música e dormíamos santamente separados quando ela ficava lá em casa. Além de encantar-me durante nossas conversas, minha amoreca me divertia. Tinha rompantes de alegria, contava-me casos e, de súbito, ensaiava as piruetas de um frevo inventado. Havia, entretanto, algo que me deixava maluco: Maria Vitória gostava de tomar banho nua na piscina do terraço. E gostava mais ainda de me ver sem-jeito, tapando os olhos e fugindo para a sala. De um canto eu a observava: o corpo esbelto, mignon, os pequenos seios, as nádegas, as coxas quase atléticas e a fileira de pelinhos quase transparentes que descia pelo ventre, do umbigo à pequena moita que lhe guardava a boceta – esta eu nunca via, mas desenhava-a na imaginação!

Houve um dia que Maria Vitória pediu-me que a retratasse e logo, fazendo que despia-se, foi perguntando-me como queria que posasse. Eu respondi que sim, impedindo-a de ir adiante com seu plano de nudez, mas que preferia ir desenhando-a na medida em que tivéssemos vontade. Passei a andar sempre com material de desenho e ia retratando-a em todo momento que achava adequado, inclusive na praia e nos passeios pelos parques da cidade. Esqueceu do início da conversa, e repetiu, um dia, o pedido para que a desenhasse nua, plantando bananeira, os bicos dos pequenos seios apontando para frente, em ângulo reto. Fingi que a atendia. Esta era uma outra forma de observá-la sem ficar embaraçado. Sentia mais ou menos o que o fotógrafo sente ao ter um trabalho desta natureza. Transferir minhas observações para a tela foi um outro assunto. O croqui serve de base para as formas, mas a definição das cores, a iluminação e a textura só na hora do óleo é que se concretizam. Foi bastante trabalhoso e eu não conseguia terminar a empreitada.

Num belo dia de fevereiro, como haveria que ser, Maria Vitória ensaiou novamente um frevo e, quando cansou, anunciou-me que iria embora. E que não sabia quando voltaria. Como se isso fosse um evento quotidiano em nossas vidas, almoçamos e bebemos, e à tarde fomos à praia, de onde vimos o pôr-do-sol. Voltamos para casa e entreguei-lhe sua tela, finalmente concluída. Eu decidira mostrar minha musa em quatro momentos: sentada à mesa do café-da-manhã do terraço, tendo ao fundo a jardineira com flores; sentada na praia, avistando o horizonte; varrendo a casa bagunçada; e deitada na areia, vista da cabeça para os pés, a fileira de pelinhos surgindo do umbigo e caminhando em direção ao Monte de Vênus escondido pela calcinha do biquíni verde. Não havia o nu da bananeira, mas Vitória ficou muito feliz. E, ao mesmo tempo triste. Ao título que propus – “Quatro Janelas para Vitória” – contrapôs “Um Desenho Para Você”. Assim que ela pousou a tela, começamos a namorar com naturalidade. Nos beijamos, nos abraçamos, ficamos nus. Primeiro eu quis ir por cima, para me ver entrar em Maria Vitória; depois ela veio por cima – para fincar-se definitivamente em minha alma. E depois adormecemos. Quando acordei, preparei o café e o servi no terraço. E Maria Vitória foi-se, carregando sua tela.

Caí em prostração. E depois chamei de volta a governanta. Mas nem as mil putas selecionadas que ela me trouxe – e cuja habilidade ela fazia questão de demonstrar-me com ela mesma, testando-as em orgias ou em companhia singular – tiravam-me do torpor. Brancas, negras, ruivas, novas, velhas, anãs, lésbicas, bi-sexuais, acrobatas de circo, passaram todas pelo meu apartamento. Debalde. Até que minha governanta desistiu e, para fazer jus ao salário que recebia, passou a servir-me de aia, preparando-me as refeições, lavando e passando minha roupa e dando-me banhos de sais. Por causa desses banhos, cheguei a ter uma ereção, que logo esvaiu-se preguiçosa, para tristeza da profissional que, com fé e lealdade, acompanhava-me na pior fase de minha vida.

Mas o tempo vai mudando o ânimo da gente. E consegui ter energia para, finalmente, iniciar o tão sonhado projeto: uma nova fase de minha pintura, que se distanciaria dos retratos e abriria para o observador um universo de solidão interior. Algo assim como a pintura de Hopper, que tão solidamente servia-se do exterior para abrir as portas àquilo que eu chamava de “dolorosa reflexão inconsciente”.

Apostei firmemente nesta fase e, mesmo sendo advertido por Cybele, nela continuei e me esmerei. Aprendi mais sobre texturas, sobre arquitetura, sobre marcenaria. Visitei ateliês de artesãos, inclusive daqueles que fabricavam barcos. E confirmei que era dos materiais como a pedra e a madeira que eu arrancaria a humanidade que me aliaria à Maria Vitória. Na presença apenas ocasional de figuras “vivas”, queria desvelar os quadrantes da do porquê das pessoas – aqueles que pré-existiram àquelas figuras ou mesmo à sua ausência. Quando tive um grupo dessas telas prontas chamei Cybele; também fotografei-as e enviei as fotos por e-mail para Maria Vitória. De Cybele tive imediato apoio – ela achava que, agora, eu estava pronto para a Europa. E ela estava certa: já expus, com grande sucesso, em Berlin e Milão. De Maria Vitória recebi um e-mail com um link para o YouTube – ela promovera um flash mob em Olinda. Seu vestido branco com um cinto de cetim verde destoava do figurino das demais participantes – gostosinhas ou gordinhas, bem-humoradas ou vãs. Foi a única resposta que enviou-me. E eu entendi.

Rubélio continuou a aparecer de vez em quando. Gostava de ver o desfile das prostitutas e filar uma bimbada de graça. Ele merecia. Merecia até comer minha governanta – o que fez dentro da piscina, fumando um dos meus cubanos e tomando um rum nicaragüense da melhor qualidade. Uma vez veio ao apartamento com a Eva. Descaradamente pediu que eu fizesse um retrato dos dois, trepando. Achei que era demais e fiz com que entendesse que eu achava que era uma blague. No final do dia perguntou-me se eu tivera algo com Maria Vitória. Eu respondi, meneando a cabeça, “ahhh, nahhh”. E ficou por isso mesmo.

Para V/

Perov = 06fev12

~0~

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Dama do Lago


Quando a Bela das Brumas desapareceu, sem aviso nem sinal, Malman começou a ter vertigens e a imaginar que havia sido castigado pelo tanto que fizera antes de entocar-se na floresta. Era uma explicação fácil, sem dúvida, principalmente para alguém que sofria com a culpa do tamanho daquela nutrida, dia-a-dia, por Malman. E ele que acreditara, nos braços da Bela, ter voltado à vida e estar redimido, amargava agora a agonia da recaída.

E a agonia de Malman era tanta que por vezes não parava de caminhar pela choupana, falando consigo mesmo, por um dia inteiro. Acordava, morto de frio, estatelado no chão de terra. E, mal abria os olhos, a agonia começava de novo. E de novo voltava à angústia e à desesperança dos tempos que antecederam o encontro com a Bela das Brumas: não comia, não dormia, só pausava o círculo vicioso quando desmaiava...

Num dos poucos momentos de racionalidade, Malman decidiu que se deixaria morrer. Já estava muito fraco de fome. Agora nem mais beberia um gole d’água. Seria como cortar os pulsos, pensava ele, o cansaço e o estupor levando-o no caminho da morte. E aí não sofreria mais, não haveria mais culpa, e nem a dolorosa saudade do corpo de Bela comendo-o no catre, devorando-o, arrebatando sua alma, enquanto ele a comia da mesma maneira...

E estava cumprindo bem o seu desígnio quando, numa certa manhã, ao abrir os olhos, sentiu sede. E, com a sede, ouviu pássaros e viu os raios de sol que iluminavam o chão onde estava deitado. Sentiu vontade de estar vivo. E o primeiro que fez foi levantar-se, mesmo com dificuldade, e ir para fora. E ao dar com a mata que fechava a clareira, abriu os braços e aspirou profundamente o ar doce da floresta. Caminhou, então, em direção ao lago.

O mato, as árvores, as valas, iam ora escondendo ora anunciando a trilha, que Malman conhecia bem. Tropeçava, entretanto, por conta da fraqueza em que ficara, até que, ao se aproximar da margem do lago, já bem mais rala a vegetação e úmidos os pés, o bruxo parou para respirar e então ouviu uma pequena voz que entoava uma suave canção. Espreitou e viu uma belíssima jovem que, sentada numa pedra, molhava os pezinhos na água.

A jovem era sem dúvida uma fada, pensou Malman, enquanto se escondia para admirá-la melhor. Os cabelos louros desciam em grandes anéis, alguns quase um reflexo, e caíam pelos ombros e pelo colo delicado. Vestia uma espécie de túnica diáfana branca que contribuía para fazer-lhe mais etérea a figura. Tinha a tez muito alva, embora rosadas fossem as maçãs do rosto. E tudo nela era a perfeição de um camafeu – o nariz, a boca, as mãos...

Algum ruído chamou a atenção da jovem, que logo estava olhando em direção ao lugar onde estava Malman. E então, como a demonstrar que o via e não lhe tinha receio, a jovem sorriu para o bruxo, levantou-se e rumou em sua direção. Malman estava fraco demais para correr ou esconder-se; e ficou por ali mesmo, paralisado de vergonha, esperando que ela o alcançasse. E ela o alcançou e pousou a mão sobre seu ombro, acalmando-o. Imediatamente Malman sentou-se, e a jovem pode observar o estado lastimável em que o bruxo se encontrava.

Parecendo saber do dilema e do suplício do bruxo, a jovem deixou-o sentado enquanto foi à beira do lago, e voltou trazendo água num pequeno cântaro. A pequenos goles deu de beber a Malman, e, quando saciou parte da sua sede, lavou-lhe o rosto e os pés, deixando que o bruxo a observasse. Terminado o ritual, a jovem sentou-se, encostada no tronco de uma árvore, fez sinal para Malman e o acolheu em seu colo. E, sentindo a mão suave da jovem no seu rosto e em seus cabelos, Malman adormeceu sem perceber que fechava os olhos e caía nos braços de Morfeu...

Acordou ainda no colo da jovem. Os cabelos dela, dourados pelo sol da tarde, tocavam suavemente o rosto dele. Haviam ficado ali por horas e a jovem não parecia cansada, tal era o seu sorriso luminoso. Malman sentia-se melhor do que nunca; melhor até que nos tempos em que dormia sobre colchões de penas e acordava entre sedas e lençóis de linho.

Já sentado, Malman, agradecido, perguntou à jovem quem era ela. E ela respondeu-lhe que era a Dama do Lago e que sempre vivera por ali mesmo. Embora Malman afirmasse que nunca a tinha visto, a Dama disse que o conhecia bem. O bruxo, acostumado ao extraordinário, nada mais inquiriu – pôs-se de pé, sacudiu-se, e tomou o caminho de casa na companhia da jovem benfeitora que, com toda a naturalidade, seguia a seu lado, tão silenciosamente como se não estivesse ali.

Na verdade, nada na aparência da Dama do Lago gritava, chamando atenção. A não ser por sua prístina beleza e a tranquilidade que exsudava, a jovem passaria despercebida, mimetizada, tomada como um elemento da natureza que a rodeava. O contraste com a aura turbulenta de Malman era a única característica que a destacava enquanto caminhavam pela trilha em direção à choupana do bruxo.

O Sol acabava de se pôr quando chegaram. O bruxo entrou à frente, abrindo caminho entre debris, e a jovem atrás. Imediatamente após a entrada da Dama pareceu a Malman que a toca imunda se iluminava. Cada ponto que a jovem tocava ganhava a refração de um cristal. E logo o interior da morada brilhava como se um bando de pirilampos a tivesse invadido.

Malman, encantado, sentou-se no catre enquanto observava a mágica aparentemente simples que a Dama utilizava. Até que ela deu-lhe um sorriso e perguntou-lhe se queria comer algo. E Malman sentiu uma grande fome, ou melhor, uma fome saudável, das que se sente quando se termina um dia de trabalho justo. E disse que sim, mas atalhou que não havia coisa alguma que comer.

A Dama, dando continuação à seção de mágica, fez surgir um par de peixes e os utensílios necessários: fogo, uma panela, óleo, dois pratos e pão. Para completar, esticou uma toalha branca sobre a mesa que Malman usava para tudo, e chamou-o para o jantar.

O peixe estava, como se pode imaginar, delicioso, leve e nutritivo. O pão fez um bom complemento e a conversa dos dois prolongou-se por algum tempo depois que terminaram a refeição. Sem fazer ruído, a Dama recolheu todos os pratos e empilhou-os num canto. Depois, com a suavidade que era sua característica, tomou Malman pela mão, conduziu-o para o catre, fez com que se deitasse e, sentada na borda, entoou uma canção de ninar que Malman reconheceu, agradeceu, fechou os olhos e dormiu.

Quando acordou, Malman não reconheceu, de início, onde estava. Pouco a pouco, depois de apalpar-se bem e abrir e fechar os olhos várias vezes, percebeu que estava em casa. Só que a casa era muito diferente do que costumava enxergar: tudo brilhava; havia mais janelas abertas; os cantos escuros eram, agora, claros; e não havia traço de sujeira nos cantos.

Ao levantar-se, espantado, deu com a jovem fada – ou melhor, com a Dama do Lago que, muito alegremente, deu-lhe um mavioso “bom dia” e perguntou se havia dormido bem. Malman agradeceu-lhe os cuidados e, lépido como há muito não conseguia mover-se, disparou em direção à floresta. Precisava aliviar-se e, pelo menos, lavar o rosto.

Em seguida foi ao lago, onde se olhou na superfície espelhada. “Que lástima!”, pensou. Rápido tirou as vestes andrajosas e tomou um banho envigorante. Estava praticamente novo, quando saiu da água e faltou pouco para não atear fogo aos andrajos que o esperavam. Trataria disso depois, refletiu enquanto voltava à casa, ansioso por reencontrar a Dama.

Daquele dia em diante Malman e a Dama do Lago passaram a compartilhar a choupana que, agora, nada tinha mais da aparência do tugúrio onde o bruxo vivia sua vida de ermitão. Às vezes a jovem fada fazia-lhe companhia por um dia inteiro; às vezes, sem aviso, desaparecia. O bruxo foi se acostumando a essas idas e vindas e estadas. Estava feliz e nem sentia saudades das reuniões que tinha com outros bruxos. A única memória que lhe turvava o pensamento era, ainda, a Bela das Brumas...

Os dois magos trocavam ensinamentos e, pelo andar do que ocorria na casa, era Malman quem mais aprendia. Aos poucos os potes e vidros onde o bruxo guardava suas poções, pós, amuletos, unhas, patas e rabos, foram perdendo a coloração lamacenta, e o lodo foi-se transformando em filtros que coloriam vidros transparentes. Ao mesmo tempo, as conjurações de Malman – em que tempestades de raios e redemoinhos tenebrosos cruzavam os ares – foram dando lugar a delicadas transformações ensolaradas. Raramente saía o bruxo, sozinho, pela clareira à noite...

A vida transcorria macia e calma. A Dama do Lago lhe contava histórias, cantava-lhe as canções do bosque, e era gentil. Punha-lhe para dormir e silenciosamente ia para o canto onde armara uma cama de almofadas. Malman acostumou-se a andar limpo, como nos tempos de outrora, e a apresentar para a Dama o seu melhor ser – o médico de grande compaixão e habilidade. Somente às vezes Malman sentia a intensidade da memória da Bela das Brumas. E quando essa memória era intensa demais, escondia-se e masturbava-se até que espantasse, com o gozo, a presença da cigana.

Numa noite fria de Inverno, Malman não conseguia dormir em seu catre. Rememorava cada detalhe da noite em que encontrara a Bela das Brumas e a levara para casa; e cada detalhe do sexo furioso, das mordidas, chupões, gemidos, e do esfolamento ardido do seu membro que não parecia querer retroceder. Levantou-se cuidadosamente para não acordar a jovem fada e, de cócoras, num canto, como um lobo, começou a masturbar-se – devagar a princípio e mais forte, forte, fortíssimo... até que sentiu a mão da Dama no ombro. Que vergonha!

A Dama, entretanto, não fez qualquer estardalhaço. Sem demonstrar qualquer estranhamento, levou-o pela mão de volta ao catre, onde sentou o desnudo Malman. De pé, diante dele, desvestiu-se, expondo ao bruxo toda a sua beleza. Tinha os seios pequenos e redondos, com bicos rosados; era delgada, mas não angulosa; as ancas eram as de uma menina, ainda estreitas; e o pequeno monte de Vênus era adornado por um delicado tufo de pelos, louros como seus cabelos. A alva tez e a carnação macia completavam o quadro dessa Afrodite pós-adolescente. Malman está completamente entregue à beleza pura da Dama do Lago.

E então a jovem fada pega delicadamente a mão do bruxo e faz com ele a toque entre as suas coxas. Malman sente o interior úmido da Dama e sua ereção volta a se fazer notada. Ela sorri, afasta Malman para um lado e, deitando-se de costas, abre-se para ele. Malman entra, sem dor, sem luta, sem fustigamento. Apenas guarda-se dentro da Dama e os dois, com vagar e docemente, vão fazendo amor até que terminam num suspiro de prazer. E assim fazem uma só vez, antes de aninhar-se um nos braços do outro.

Durante as semanas que se seguem Malman e a Dama dormem na cama que ele recém-construiu. Estão juntos e são perfeitos companheiros. Deitado sob as peles e abraçado à mulher que o aquecem, Malman crê que é feliz como nunca fora. Fazem amor metodicamente e a cada vez que o fazem, Malman sente que a culpa que carregara por tanto tempo vai se dissolvendo. Assim como vai se dissolvendo a memória exaustiva da Bela das Brumas...

E chega o dia em que, sorrindo-lhe, a Dama do Lago anuncia que está grávida. E Malman não cabe em si de tanta alegria. É a coroação da parceria que tem com a jovem fada. É o milagre que nem a mais complexa magia poderia produzir. E que ele e ela, amando-se diariamente, haviam conjurado.

Passam-se os meses, com Malman agora devolvendo os cuidados à Dama, dando-lhe sopinhas, colocando mais um travesseiro sob sua cabeça, fazendo todos os trabalhos da casa, contando-lhe histórias e inventando certos passos de dança que a faziam sorrir. Até que chega o dia e a hora do parto. E Malman – de volta à Medicina – não podia crer que a delgada mamãe desse à luz tão facilmente. Mas assim foi: algumas contrações e lá estava, chorando muito, uma linda menina. Logo deram-lhe o nome de Lívia, embora a tez fosse mourisca e os olhos e cabelos negros. E Malman teve a impressão de que formavam uma família.

E o lar (sim, o lar) de Malman não poderia estar mais feliz. Com a chegada de Lívia, a Dama multiplica suas habilidades. Faz manjares, canta cantigas, dança danças encantadas. Exibe toda a sorte de truques paranormais – telecinese, levitação, telepatia... E faz com que Malman e Lívia estejam sempre alegres e sorridentes. Malman, por sua vez, constrói um móbile, coze marionetes, inventa personagens usando batatas, pepinos e tomates, e compartilha todos os momentos de alegria da pequena Lívia.

O casal voltou a fazer amor com frequência, da mesma forma metódica. Exceto quando, em determinada noite, estando Lívia já a dormir, a Dama segurou, sem aviso, o membro de Malman. Não era um segurar delicado, mas uma pegada incisiva, quase dolorosa. E o fez ficar ereto, terminando por chupá-lo com uma fome que surpreendeu Malman. Ato contínuo subiu sobe ele e comeu-o vorazmente, uma, duas vezes. Malman temeu que Lívia acordasse, mas foi também tomado pela febre e devolveu à Dama, em intensidade e empenho, o que ela lhe dera. E assim foram lutando e perdendo até que não havia mais forças e desejo que os fizesse continuar um dentro do outro, mordendo, dobrando, prendendo. Dormiram, então, exaustos e completos, desconhecendo a hora e a temência a Deus.

No dia seguinte, Malman acordou tarde, ainda doído da noite anterior. A jovem fada não estava por ali. E nem a pequena Lívia. Deviam estar visitando o lago, tomando banho, ensinando e aprendendo espertezas. Malman levantou-se e repassou o episódio da noite anterior. Era como se a Bela das Brumas o tivesse visitado, só para dizer que estaria sempre presente em sua vida. Na verdade, se Malman se lembrava bem, o corpo da Dama havia adquirido uma densidade e um peso que não lhe eram comuns; e a fome... ah, a fome! O que tinha sido aquilo?... Voltaram-lhe rapidamente as memórias do tempo de devassidão, que ele logo espantou com a mão, como se fossem moscas...

Passou-se então a manhã, e depois a tarde. Quando a noite caiu e as duas não voltavam à casa, Malman acendeu um archote e saiu a procurá-las pela clareira e, depois, pela trilha que levava ao lago. E não as achou. Voltando à casa, serviu-se de um velho encantamento para ver, na fumaça, o que teria havido. E viu as duas amadas correndo pela trilha que levava ao lago, sem olhar para trás, em fuga. “Foram-se!”, gritou, aturdido, Malman. “Foram-se”, repetiu várias vezes, cada vez mais alto, até que a expressão perdeu o jeito de palavra e transformou-se num grunhido desesperado. E então Malman rasgou as vestes, quebrou todos os móveis, derrubou todos os frascos, rasgou todas as cortinas e lançou-se ao catre com ganas de morrer.

Pero Vaas = 23set11

[para Dark Butterfly – que não só inspirou o personagem, mas também contribuiu para a sua construção]