sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A Dama do Lago


Quando a Bela das Brumas desapareceu, sem aviso nem sinal, Malman começou a ter vertigens e a imaginar que havia sido castigado pelo tanto que fizera antes de entocar-se na floresta. Era uma explicação fácil, sem dúvida, principalmente para alguém que sofria com a culpa do tamanho daquela nutrida, dia-a-dia, por Malman. E ele que acreditara, nos braços da Bela, ter voltado à vida e estar redimido, amargava agora a agonia da recaída.

E a agonia de Malman era tanta que por vezes não parava de caminhar pela choupana, falando consigo mesmo, por um dia inteiro. Acordava, morto de frio, estatelado no chão de terra. E, mal abria os olhos, a agonia começava de novo. E de novo voltava à angústia e à desesperança dos tempos que antecederam o encontro com a Bela das Brumas: não comia, não dormia, só pausava o círculo vicioso quando desmaiava...

Num dos poucos momentos de racionalidade, Malman decidiu que se deixaria morrer. Já estava muito fraco de fome. Agora nem mais beberia um gole d’água. Seria como cortar os pulsos, pensava ele, o cansaço e o estupor levando-o no caminho da morte. E aí não sofreria mais, não haveria mais culpa, e nem a dolorosa saudade do corpo de Bela comendo-o no catre, devorando-o, arrebatando sua alma, enquanto ele a comia da mesma maneira...

E estava cumprindo bem o seu desígnio quando, numa certa manhã, ao abrir os olhos, sentiu sede. E, com a sede, ouviu pássaros e viu os raios de sol que iluminavam o chão onde estava deitado. Sentiu vontade de estar vivo. E o primeiro que fez foi levantar-se, mesmo com dificuldade, e ir para fora. E ao dar com a mata que fechava a clareira, abriu os braços e aspirou profundamente o ar doce da floresta. Caminhou, então, em direção ao lago.

O mato, as árvores, as valas, iam ora escondendo ora anunciando a trilha, que Malman conhecia bem. Tropeçava, entretanto, por conta da fraqueza em que ficara, até que, ao se aproximar da margem do lago, já bem mais rala a vegetação e úmidos os pés, o bruxo parou para respirar e então ouviu uma pequena voz que entoava uma suave canção. Espreitou e viu uma belíssima jovem que, sentada numa pedra, molhava os pezinhos na água.

A jovem era sem dúvida uma fada, pensou Malman, enquanto se escondia para admirá-la melhor. Os cabelos louros desciam em grandes anéis, alguns quase um reflexo, e caíam pelos ombros e pelo colo delicado. Vestia uma espécie de túnica diáfana branca que contribuía para fazer-lhe mais etérea a figura. Tinha a tez muito alva, embora rosadas fossem as maçãs do rosto. E tudo nela era a perfeição de um camafeu – o nariz, a boca, as mãos...

Algum ruído chamou a atenção da jovem, que logo estava olhando em direção ao lugar onde estava Malman. E então, como a demonstrar que o via e não lhe tinha receio, a jovem sorriu para o bruxo, levantou-se e rumou em sua direção. Malman estava fraco demais para correr ou esconder-se; e ficou por ali mesmo, paralisado de vergonha, esperando que ela o alcançasse. E ela o alcançou e pousou a mão sobre seu ombro, acalmando-o. Imediatamente Malman sentou-se, e a jovem pode observar o estado lastimável em que o bruxo se encontrava.

Parecendo saber do dilema e do suplício do bruxo, a jovem deixou-o sentado enquanto foi à beira do lago, e voltou trazendo água num pequeno cântaro. A pequenos goles deu de beber a Malman, e, quando saciou parte da sua sede, lavou-lhe o rosto e os pés, deixando que o bruxo a observasse. Terminado o ritual, a jovem sentou-se, encostada no tronco de uma árvore, fez sinal para Malman e o acolheu em seu colo. E, sentindo a mão suave da jovem no seu rosto e em seus cabelos, Malman adormeceu sem perceber que fechava os olhos e caía nos braços de Morfeu...

Acordou ainda no colo da jovem. Os cabelos dela, dourados pelo sol da tarde, tocavam suavemente o rosto dele. Haviam ficado ali por horas e a jovem não parecia cansada, tal era o seu sorriso luminoso. Malman sentia-se melhor do que nunca; melhor até que nos tempos em que dormia sobre colchões de penas e acordava entre sedas e lençóis de linho.

Já sentado, Malman, agradecido, perguntou à jovem quem era ela. E ela respondeu-lhe que era a Dama do Lago e que sempre vivera por ali mesmo. Embora Malman afirmasse que nunca a tinha visto, a Dama disse que o conhecia bem. O bruxo, acostumado ao extraordinário, nada mais inquiriu – pôs-se de pé, sacudiu-se, e tomou o caminho de casa na companhia da jovem benfeitora que, com toda a naturalidade, seguia a seu lado, tão silenciosamente como se não estivesse ali.

Na verdade, nada na aparência da Dama do Lago gritava, chamando atenção. A não ser por sua prístina beleza e a tranquilidade que exsudava, a jovem passaria despercebida, mimetizada, tomada como um elemento da natureza que a rodeava. O contraste com a aura turbulenta de Malman era a única característica que a destacava enquanto caminhavam pela trilha em direção à choupana do bruxo.

O Sol acabava de se pôr quando chegaram. O bruxo entrou à frente, abrindo caminho entre debris, e a jovem atrás. Imediatamente após a entrada da Dama pareceu a Malman que a toca imunda se iluminava. Cada ponto que a jovem tocava ganhava a refração de um cristal. E logo o interior da morada brilhava como se um bando de pirilampos a tivesse invadido.

Malman, encantado, sentou-se no catre enquanto observava a mágica aparentemente simples que a Dama utilizava. Até que ela deu-lhe um sorriso e perguntou-lhe se queria comer algo. E Malman sentiu uma grande fome, ou melhor, uma fome saudável, das que se sente quando se termina um dia de trabalho justo. E disse que sim, mas atalhou que não havia coisa alguma que comer.

A Dama, dando continuação à seção de mágica, fez surgir um par de peixes e os utensílios necessários: fogo, uma panela, óleo, dois pratos e pão. Para completar, esticou uma toalha branca sobre a mesa que Malman usava para tudo, e chamou-o para o jantar.

O peixe estava, como se pode imaginar, delicioso, leve e nutritivo. O pão fez um bom complemento e a conversa dos dois prolongou-se por algum tempo depois que terminaram a refeição. Sem fazer ruído, a Dama recolheu todos os pratos e empilhou-os num canto. Depois, com a suavidade que era sua característica, tomou Malman pela mão, conduziu-o para o catre, fez com que se deitasse e, sentada na borda, entoou uma canção de ninar que Malman reconheceu, agradeceu, fechou os olhos e dormiu.

Quando acordou, Malman não reconheceu, de início, onde estava. Pouco a pouco, depois de apalpar-se bem e abrir e fechar os olhos várias vezes, percebeu que estava em casa. Só que a casa era muito diferente do que costumava enxergar: tudo brilhava; havia mais janelas abertas; os cantos escuros eram, agora, claros; e não havia traço de sujeira nos cantos.

Ao levantar-se, espantado, deu com a jovem fada – ou melhor, com a Dama do Lago que, muito alegremente, deu-lhe um mavioso “bom dia” e perguntou se havia dormido bem. Malman agradeceu-lhe os cuidados e, lépido como há muito não conseguia mover-se, disparou em direção à floresta. Precisava aliviar-se e, pelo menos, lavar o rosto.

Em seguida foi ao lago, onde se olhou na superfície espelhada. “Que lástima!”, pensou. Rápido tirou as vestes andrajosas e tomou um banho envigorante. Estava praticamente novo, quando saiu da água e faltou pouco para não atear fogo aos andrajos que o esperavam. Trataria disso depois, refletiu enquanto voltava à casa, ansioso por reencontrar a Dama.

Daquele dia em diante Malman e a Dama do Lago passaram a compartilhar a choupana que, agora, nada tinha mais da aparência do tugúrio onde o bruxo vivia sua vida de ermitão. Às vezes a jovem fada fazia-lhe companhia por um dia inteiro; às vezes, sem aviso, desaparecia. O bruxo foi se acostumando a essas idas e vindas e estadas. Estava feliz e nem sentia saudades das reuniões que tinha com outros bruxos. A única memória que lhe turvava o pensamento era, ainda, a Bela das Brumas...

Os dois magos trocavam ensinamentos e, pelo andar do que ocorria na casa, era Malman quem mais aprendia. Aos poucos os potes e vidros onde o bruxo guardava suas poções, pós, amuletos, unhas, patas e rabos, foram perdendo a coloração lamacenta, e o lodo foi-se transformando em filtros que coloriam vidros transparentes. Ao mesmo tempo, as conjurações de Malman – em que tempestades de raios e redemoinhos tenebrosos cruzavam os ares – foram dando lugar a delicadas transformações ensolaradas. Raramente saía o bruxo, sozinho, pela clareira à noite...

A vida transcorria macia e calma. A Dama do Lago lhe contava histórias, cantava-lhe as canções do bosque, e era gentil. Punha-lhe para dormir e silenciosamente ia para o canto onde armara uma cama de almofadas. Malman acostumou-se a andar limpo, como nos tempos de outrora, e a apresentar para a Dama o seu melhor ser – o médico de grande compaixão e habilidade. Somente às vezes Malman sentia a intensidade da memória da Bela das Brumas. E quando essa memória era intensa demais, escondia-se e masturbava-se até que espantasse, com o gozo, a presença da cigana.

Numa noite fria de Inverno, Malman não conseguia dormir em seu catre. Rememorava cada detalhe da noite em que encontrara a Bela das Brumas e a levara para casa; e cada detalhe do sexo furioso, das mordidas, chupões, gemidos, e do esfolamento ardido do seu membro que não parecia querer retroceder. Levantou-se cuidadosamente para não acordar a jovem fada e, de cócoras, num canto, como um lobo, começou a masturbar-se – devagar a princípio e mais forte, forte, fortíssimo... até que sentiu a mão da Dama no ombro. Que vergonha!

A Dama, entretanto, não fez qualquer estardalhaço. Sem demonstrar qualquer estranhamento, levou-o pela mão de volta ao catre, onde sentou o desnudo Malman. De pé, diante dele, desvestiu-se, expondo ao bruxo toda a sua beleza. Tinha os seios pequenos e redondos, com bicos rosados; era delgada, mas não angulosa; as ancas eram as de uma menina, ainda estreitas; e o pequeno monte de Vênus era adornado por um delicado tufo de pelos, louros como seus cabelos. A alva tez e a carnação macia completavam o quadro dessa Afrodite pós-adolescente. Malman está completamente entregue à beleza pura da Dama do Lago.

E então a jovem fada pega delicadamente a mão do bruxo e faz com ele a toque entre as suas coxas. Malman sente o interior úmido da Dama e sua ereção volta a se fazer notada. Ela sorri, afasta Malman para um lado e, deitando-se de costas, abre-se para ele. Malman entra, sem dor, sem luta, sem fustigamento. Apenas guarda-se dentro da Dama e os dois, com vagar e docemente, vão fazendo amor até que terminam num suspiro de prazer. E assim fazem uma só vez, antes de aninhar-se um nos braços do outro.

Durante as semanas que se seguem Malman e a Dama dormem na cama que ele recém-construiu. Estão juntos e são perfeitos companheiros. Deitado sob as peles e abraçado à mulher que o aquecem, Malman crê que é feliz como nunca fora. Fazem amor metodicamente e a cada vez que o fazem, Malman sente que a culpa que carregara por tanto tempo vai se dissolvendo. Assim como vai se dissolvendo a memória exaustiva da Bela das Brumas...

E chega o dia em que, sorrindo-lhe, a Dama do Lago anuncia que está grávida. E Malman não cabe em si de tanta alegria. É a coroação da parceria que tem com a jovem fada. É o milagre que nem a mais complexa magia poderia produzir. E que ele e ela, amando-se diariamente, haviam conjurado.

Passam-se os meses, com Malman agora devolvendo os cuidados à Dama, dando-lhe sopinhas, colocando mais um travesseiro sob sua cabeça, fazendo todos os trabalhos da casa, contando-lhe histórias e inventando certos passos de dança que a faziam sorrir. Até que chega o dia e a hora do parto. E Malman – de volta à Medicina – não podia crer que a delgada mamãe desse à luz tão facilmente. Mas assim foi: algumas contrações e lá estava, chorando muito, uma linda menina. Logo deram-lhe o nome de Lívia, embora a tez fosse mourisca e os olhos e cabelos negros. E Malman teve a impressão de que formavam uma família.

E o lar (sim, o lar) de Malman não poderia estar mais feliz. Com a chegada de Lívia, a Dama multiplica suas habilidades. Faz manjares, canta cantigas, dança danças encantadas. Exibe toda a sorte de truques paranormais – telecinese, levitação, telepatia... E faz com que Malman e Lívia estejam sempre alegres e sorridentes. Malman, por sua vez, constrói um móbile, coze marionetes, inventa personagens usando batatas, pepinos e tomates, e compartilha todos os momentos de alegria da pequena Lívia.

O casal voltou a fazer amor com frequência, da mesma forma metódica. Exceto quando, em determinada noite, estando Lívia já a dormir, a Dama segurou, sem aviso, o membro de Malman. Não era um segurar delicado, mas uma pegada incisiva, quase dolorosa. E o fez ficar ereto, terminando por chupá-lo com uma fome que surpreendeu Malman. Ato contínuo subiu sobe ele e comeu-o vorazmente, uma, duas vezes. Malman temeu que Lívia acordasse, mas foi também tomado pela febre e devolveu à Dama, em intensidade e empenho, o que ela lhe dera. E assim foram lutando e perdendo até que não havia mais forças e desejo que os fizesse continuar um dentro do outro, mordendo, dobrando, prendendo. Dormiram, então, exaustos e completos, desconhecendo a hora e a temência a Deus.

No dia seguinte, Malman acordou tarde, ainda doído da noite anterior. A jovem fada não estava por ali. E nem a pequena Lívia. Deviam estar visitando o lago, tomando banho, ensinando e aprendendo espertezas. Malman levantou-se e repassou o episódio da noite anterior. Era como se a Bela das Brumas o tivesse visitado, só para dizer que estaria sempre presente em sua vida. Na verdade, se Malman se lembrava bem, o corpo da Dama havia adquirido uma densidade e um peso que não lhe eram comuns; e a fome... ah, a fome! O que tinha sido aquilo?... Voltaram-lhe rapidamente as memórias do tempo de devassidão, que ele logo espantou com a mão, como se fossem moscas...

Passou-se então a manhã, e depois a tarde. Quando a noite caiu e as duas não voltavam à casa, Malman acendeu um archote e saiu a procurá-las pela clareira e, depois, pela trilha que levava ao lago. E não as achou. Voltando à casa, serviu-se de um velho encantamento para ver, na fumaça, o que teria havido. E viu as duas amadas correndo pela trilha que levava ao lago, sem olhar para trás, em fuga. “Foram-se!”, gritou, aturdido, Malman. “Foram-se”, repetiu várias vezes, cada vez mais alto, até que a expressão perdeu o jeito de palavra e transformou-se num grunhido desesperado. E então Malman rasgou as vestes, quebrou todos os móveis, derrubou todos os frascos, rasgou todas as cortinas e lançou-se ao catre com ganas de morrer.

Pero Vaas = 23set11

[para Dark Butterfly – que não só inspirou o personagem, mas também contribuiu para a sua construção]

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