sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Insustentável Leveza do Ser - Episódio Seguinte


Conheci Marta quando ainda cursávamos o secundário. A irmã de alguém da turma levou-a para ver um showzinho nosso no Teresiano e, no momento em que fomos apresentados, tornamo-nos amigos imediatos: um de nós disse uma bobagem qualquer e o outro embarcou e rimos os dois.

Dali passamos a caçar juntos. Íamos a festas ou badalos como um par e depois nos separávamos. Quando podíamos, trocávamos idéias sobre nossas conquistas. Muitas vezes ajudamos um ao outro com estratégias e táticas. Íamos à praia e também passávamos as tardes bundeando nas férias, conversando sobre tudo, trocando textos e discutindo sobre música, cinema, o que pintasse. Muitas vezes me perguntei por que não nunca ficamos juntos. E a resposta era simples: de alguma forma, muito madura, sentíramos que estaríamos muito mais completos como amigos do que como namorados. Marta pensava da mesma maneira, disse-me um dia. E por esse caminho prosseguíamos bem felizes um com o outro.

Uma vez somente cedemos ao natural impulso de nos pegarmos. Estávamos acampando com a turma em Friburgo, no Inverno. O frio de rachar nos obrigara a ficarmos colados na mesma tenda. E foi tudo muito simples: ficamos excitados e cedemos; trepamos silenciosamente para não despertar a curiosidade dos demais; gozamos mordendo o ombro um do outro. No dia seguinte um olhar trocado bastou para confirmar que havia sido muito bom; mas que seria só dessa vez. De fato, a intimidade daquela noite serviu para que nos grudássemos ainda mais, e expuséssemos nossas verdades sem medo de cobranças.

Logo depois, quando entramos para a Faculdade de Arquitetura, Marta conheceu meu amigo Evandro e casaram-se. E quando Julia nasceu, fui convidado para ser o padrinho – convite ao qual aceitei com alegria, prometendo zelar por minha afilhada como seu segundo pai. Logo depois nasceu minha filha, Maria Eduarda, e trocamos a posição de compadres.

Foi com surpresa que recebi o telefonema de Marta, cobrando-me pelo fato de ter ficado com Joana, amiga de Julia. O diálogo telefônico, espantoso, foi mais ou menos esse:

- Alô?

- Perov? É você?

- Claro que sim [ri]. Quem mais você queria? Comotutá, Tarma?

- Olha, Perov, não to bem não...

- ...

- Soube que você saiu do aniversário da Julia com a Joana, amiga dela. E que ficaram...

- ...

- É o seguinte: você não acha isso meio incestuoso não?

- Olha, Marta, pra te dizer a verdade, não acho nada. Somos todos maiores de idade, não é mesmo? Que cobrança esquisita...

- Dezoito anos, Perov, a idade da sua afilhada, a idade da sua filha...

- Olha, Marta, não sei o que dizer... acho que você está tão fora do ponto... sei lá. De qualquer maneira, já acabou, ta bom assim?

- Desculpe, Perov, mas isso vai além da imaginação!

- OK, Marta, vou nessa...

- Bye.

Cinco minutos depois telefonou-me Julia, às gargalhadas:

- Perov? Dindo?[gargalhadas].

- Cacete, Julia, o que deu na tua mãe, cara?

- [ainda gargalhadas] Contei pra ela.... e, francamente, não esperava essa reação [gargalhadas] Será que ela traiu meu pai com você?

- Olhe, Julia, você sabe que eu e sua mãe nunca tivemos nada. E não é agora que vamos ter. Que coisa estranha... deve ser transferência, sei lá.

- Dia desses vou te visitar e conversamos, tá? [risinho contido]

- Tá bom, Julia... que chato, hein?... beijo.

- [risos] Beijo e tchau [click].

A perspectiva de ter Julia lá em casa comigo era meio apavorante. Desde pequena minha afilhada havia demonstrado uma precocidade que me espantava. Recordo-me que aos 10-12 anos ela surpreendeu-me com um selinho molhado, dado no canto da minha boca, quando a encontrei um dia na praia. E os assuntos que puxava comigo deixavam-me sempre desconcertado. Hora queria saber mais sobre minha relação com Marta, hora fazia algum reparo sobre Maria Eduarda, dando-me a impressão de que era sobre ela mesmo que falava. Essa mistura de personagens e climas me arrinconava de tal forma que eu só podia pensar numa coisa: harassment!

Meu enredo com Julia havia ficado mais preocupante depois que separei-me. Aí os comentários sobre minha ex-mulher, sobre como me estava indo sozinho, sobre o lobo das estepes e todas essas coisas que dizem do homem maduro e na entressafra, tornaram-se comida e bebida comum na mesa de minhas conversas com Julia. A ponto de eu evita-la, mesmo nas ocasiões festivas quando tinha que estar próximo. E Julia, percebendo essa minha atitude, sempre encontrava um modo de ameaçar-me, com uma linguagem corporal que não deixava dúvidas das suas intenções de provocar-me.

Pois lá estava eu pensando exatamente nisso quando tocam à porta e, pela janelinha, vejo que é Julia. “Deus do céu!”, exclamo, “...ora se não é o Diabo!”. Abro a porta e Julia atira-se no meu pescoço. “Dindo, dindo, dindinho, malvadinho...molequinho...” me saúda a afilhada, cobrindo-me o rosto e as orelhas de beijos. Afasto-a de mim e digo como está bonita numa linguagem bem paternal. Não se convence, ri de mim e me imita. Corre a sentar-se no sofá.

Vou até Julia e digo-lhe que não a esperava, que já tinha um compromisso e já estava de saída. Pega-me na mentira, dá duas palmadinhas no lugar ao lado e me chama para sentar com ela. Indefeso e vendido, vou.

- Me conta, dindo, como foi com a Joana? [risadinhas]

- Ora, Julia, vou lá contar isso pra você!

- Ela me disse que foi muito bom, que você é um coroa ainda malandro e que só te largou porque seria mais... hummmm... romântico, literário, sei lá... [risadinha irônica].

- É mesmo? [tom de esperança].

- Uái, dindo, você não sabe ainda como é charmoso? Como encanta as meninas? [me dá um chega pra cá e ri mais um pouco].

- Olha, Julia... sério... não tenho tempo. [me levanto].

Só aí noto que Julia está com o vestidinho que lhe cola no corpo, exceto a sainha que roda e que agora se espalha sobre o sofá, deixando à mostra as pernas morenas e bem-feitas. Me lasco. Neste momento Julia é Florença e Veneza na juventude; é Audrey Hepburn dançando leve; é tudo que quis ter e nunca tive; é a possibilidade de ser eternamente feliz; é uma nuvem no céu e uma onda no mar; é o cheiro bom de sabonete e o cheiro bom de Iscay; e é, principalmente, uma tarde de sol no mar do nordeste, onde uma jangada se desloca em harmonia com o horizonte, que se transforma num texto do velho Braga que me dói a clavícula e me aperta, aperta, aperta...

Acordo do vôo e vejo que Julia sabe exatamente por onde fui e, pior, quer acompanhar-me. Levanta-se, vem, fica na ponta dos pés, enlaça-me o pescoço e beija-me. Primeiro com os olhos bem abertos, para observar minha reação, depois com eles fechados.

Solto-me do beijo. Mais uma vez afasto Julia e, tonto (será pressão alta?), dirijo-me ao mesmo sofá. Chamo-a para conversarmos. E conto-lhe, pela enésima vez, da minha amizade com Marta e Evandro, da minha alegria ao ver minha afilhada pequenina, recém-nascida; das minhas penas e aflições; do meu mundo; e, finalmente, dessa sensação esquisita do incesto, na falta de uma palavra melhor.

Julia faz que não acredita. Me questiona. Diz que leu cada uma das minhas “Cartas à Hermanita”, cada um dos meus contos sobre incesto. Me fala das vontades que sempre teve comigo – que, me assegura, não são vontades com outros homens. Menciona os artigos que escrevi sobre esse “maldito tópico – o incesto”, relativizando tabus e até brincando com conceitos. Quer porque quer convencer-me que o nosso caso não é diferente de tantos outros que relatei, imaginados ou vividos. Adianta que ninguém saberá. Nunca. Fala que o assunto é entre nós dois, que não diz respeito a seus pais, à amizade dos seus pais comigo. Enfim, canta-me, lauda-me, seduz. E eu bambeio as pernas. E já me sinto pulsar, mais por ser perorado por aquela linda menina, hilária menina, esperta menina, decidida menina, do que por puro tesão pela imagem dos peitinhos duros que se desmanchariam na minha boca, das coxas que se abririam exalando o perfume da pequena boceta, das nádegas lisas, das coxas morenas, da cintura fininha e finalmente do cavalgar sem fim numa noite de estrelas.

E então, já quando estava a ceder, livro-me de um tranco. De pé, falo por minutos sobre o conceito de “inviabilidade”. Defendo limites como defenderia o Cesare Batisti. Clamo aos céus. Assevero que até os orixás têm certos caminhos fechados por Orunmilá. Ardorosamente fabrico todos os motivos pelos quais Julia deveria, naquele momento, sair e deixar-me só.

E estou a meias do final do discurso quando Julia, convencida, levanta-se também e vai saindo de cena. Quase ao chegar à porta, junta as formosas pernas, empina-se e, com um gesto gracioso, atira a sainha para cima, mostrando-me a bunda. Vejo as calcinhas brancas, que eram para que eu visse mesmo e babasse. E digo simplesmente “bye”, sem me incomodar em fechar a porta.

Para V/, que inspirou-me Julia, e que é a voz molhada que me encanta e me arrepia.

[26set09]

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